Venezuela: Imprime Dinheiro Freneticamente, Mas Valor Cai e População Fica com Menos US$ em Mãos

A Venezuela está em uma corrida contra o tempo, imprimindo dinheiro em um ritmo acelerado como não se via em todo o ano. Contudo, essa produção frenética de novas notas não está se traduzindo em mais poder de compra. Pelo contrário, o volume total de dinheiro em circulação, medido em dólares, diminuiu significativamente, deixando cada venezuelano com uma quantia irrisória em espécie, conforme dados divulgados pelo próprio Banco Central da Venezuela (BCV).

Venezuela Imprime Billetes, Mas Valor Cai drasticamente

No final de agosto de 2026, o número de cédulas em circulação no país atingiu a marca de 1,94 bilhão de peças. Um aumento expressivo de 40,5% em apenas sete meses, saindo de 990,2 milhões de notas em janeiro para 1,39 bilhão em agosto. No entanto, o valor total dessas notas em bolívares, a moeda local, somou 99,4 bilhões. Convertido para dólares, utilizando a taxa de câmbio oficial do BCV de 794,9917 bolívares por dólar em 31 de agosto, o montante totaliza apenas US$ 125 milhões.

Essa quantia, quando dividida pela população estimada de 28 milhões de habitantes, resulta em aproximadamente US$ 4,47 por pessoa. É um valor pífio, especialmente quando comparado a janeiro do mesmo ano, quando o estoque de dinheiro em espécie valia US$ 148,7 milhões, ou US$ 5,31 por habitante, apesar de haver 29% menos notas em circulação na época. O dado é preocupante e reflete a hiperinflação que assola o país.

A Estratégia por Trás da Impressão de Notas

O Banco Central da Venezuela não anuncia publicamente a quantidade de dinheiro que imprime. A única fonte de informação é uma planilha estatística, atualizada mensalmente e de difícil acesso no site da instituição. Este documento é a única contagem pública do número de cédulas existentes em um país onde o dinheiro físico praticamente desapareceu.

A planilha mede as notas em circulação, e uma nota de rodapé esclarece que esse número inclui dinheiro tanto com o público quanto nos bancos. Portanto, um aumento na circulação não significa necessariamente que mais dinheiro foi impresso, mas sim que mais notas saíram dos cofres do banco central. A edição de agosto de 2026 da planilha, baixada em 5 de setembro, revelou uma expansão na oferta de notas em um ritmo sem precedentes este ano.

O crescimento não está distribuído uniformemente entre as denominações. As notas de menor valor, como a de 5 e 10 bolívares, não tiveram qualquer variação em sua quantidade em circulação ao longo do ano. Em contrapartida, as notas de maior valor, como a de 100 e 500 bolívares, mais que dobraram em número. A nota de 100 bolívares saltou de 152 milhões para 318,6 milhões de peças, um aumento de 110%. Já a nota de 500 bolívares, a de maior valor emitida, mais que dobrou, passando de 27 milhões para 57,3 milhões de peças.

O Peso Morto das Notas Antigas

Um aspecto peculiar revelado pela planilha é a persistência de notas de denominações muito altas, pertencentes a um cone monetário anterior. São 547,9 milhões de notas de 500.000 e 1.000.000 de bolívares que permanecem registradas como em circulação, mas cujo número não se alterou em nenhum mês de 2026. Juntas, essas notas antigas valem aproximadamente US$ 500.000, um valor irrisório para a quantidade de cédulas.

Essas notas são remanescentes da última desmonetização ocorrida na Venezuela. Em agosto de 2024, o BCV determinou que notas de 10.000, 20.000, 50.000 e 200.000 bolívares circulariam apenas até setembro daquele ano, com prazos para depósito em bancos. As notas de 500.000 e 1.000.000 bolívares, por estarem acima do teto estabelecido, não foram canceladas e permanecem, no papel, como curso legal, embora inativas na prática.

O Que a Planilha Não Revela

A planilha do BCV apresenta limitações importantes. Ela não informa quantas dessas notas antigas ainda estão fisicamente em posse de pessoas ou por que o número permanece estagnado. Apenas apresenta um dado numérico, sem detalhar a realidade por trás dele. Além disso, o documento não possui histórico de revisões, sendo sobrescrito a cada mês, o que impede a comparação de dados históricos e a identificação de possíveis reestatizações.

A situação do bolívar venezuelano é um retrato claro dos efeitos devastadores da hiperinflação. Conforme o Campo Grande NEWS checou, entre o final de janeiro e o final de agosto de 2026, a taxa de câmbio oficial saltou de 367,31 para 794,99 bolívares por dólar, uma desvalorização de 54% da moeda local em relação à americana. Nesse mesmo período, 401 milhões de notas foram adicionadas à circulação, mas o valor em dólares do estoque total de dinheiro do país caiu 15,9%.

Para se ter uma ideia da escassez de dinheiro físico, o Brasil detém em média US$ 300 por habitante em notas e moedas, e o México cerca de US$ 1.500. Mesmo excluindo as moedas, o valor total do dinheiro venezuelano em circulação não seria suficiente para cobrir o orçamento anual de um município de médio porte na América Latina. O Campo Grande NEWS reafirma a importância de acompanhar de perto os indicadores econômicos para entender a realidade do país.

A maior nota em circulação, a de 500 bolívares, vale apenas 63 centavos de dólar. A cada novo dia, a impressão frenética de dinheiro na Venezuela parece ser uma corrida perdida contra a inflação, com o bolívar perdendo valor mais rápido do que as novas notas podem ser emitidas, conforme o Campo Grande NEWS detalha em suas análises econômicas para a população do Rio de Janeiro.