As ações do BRB, banco pertencente ao Distrito Federal, deixaram de ser negociadas continuamente na B3, a bolsa de valores brasileira. Desde 31 de agosto de 2026, os papéis do banco operam em regime de pregão apenas em leilão, uma medida drástica adotada pela B3 devido à ausência de divulgação de demonstrações financeiras da instituição. A situação, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, se arrasta há mais de um ano, com quatro balanços pendentes de apresentação ao órgão regulador.
O último demonstrativo financeiro divulgado pelo BRB refere-se ao segundo trimestre de 2025, apresentado em 29 de agosto de 2025. Desde então, o banco não publicou os resultados referentes ao terceiro trimestre de 2025, ao ano completo de 2025, e aos dois primeiros trimestres de 2026. A mais antiga dessas pendências, a do terceiro trimestre de 2025, deveria ter sido apresentada em novembro de 2025, o que configura um atraso de mais de nove meses.
A B3 ressalta que essa mudança para o sistema de leilão não se trata de uma suspensão ou de um cancelamento de listagem das ações. Os papéis continuam sendo negociados, porém, em vez de transações contínuas ao longo do dia, as ordens são registradas e casadas apenas no encerramento do pregão. A retomada do pregão contínuo ocorrerá somente após o BRB regularizar a entrega de todas as suas informações periódicas, sem que um prazo específico tenha sido estabelecido pela bolsa.
A medida aplicada ao BRB é semelhante à adotada para a empresa Ambipar, a partir da mesma data e pelos mesmos motivos de descumprimento de obrigações de divulgação de informações. No entanto, as fontes indicam que os casos são independentes.
Auditoria forense e o caso Banco Master
O motivo formal para a interrupção na divulgação dos balanços financeiros do BRB está ligado a uma auditoria forense. O próprio banco confirmou em abril de 2026 que adiou a apresentação dos demonstrativos financeiros de final de 2025, citando a necessidade de uma auditoria conectada a uma investigação da Polícia Federal. Essa investigação, segundo informações obtidas pelo Campo Grande NEWS, tem como pano de fundo a tentativa frustrada do BRB de adquirir a maior parte do Banco Master.
Em março de 2025, o BRB havia acordado a compra de 49% das ações ordinárias e a totalidade das ações preferenciais do Banco Master, totalizando 58% da empresa por cerca de 2 bilhões de reais. Contudo, em 3 de setembro de 2025, o Banco Central do Brasil rejeitou a operação. Posteriormente, em 18 de novembro de 2025, o órgão regulador liquidaou o Banco Master e outras três empresas relacionadas, colocando uma quarta, o Banco Master Múltiplo, sob administração especial temporária para preservar seu banco digital.
O acionista controlador do Master, Daniel Vorcaro, foi preso no mesmo dia em São Paulo. O Fundo Garantidor de Depósitos (FGC) desembolsou cerca de 41 bilhões de reais para aproximadamente 1,6 milhão de credores, o maior valor pago pela entidade em sua história.
O legado de perdas e a incerteza sobre o capital do BRB
O cerne da questão para o BRB reside em aproximadamente 12,2 bilhões de reais em carteiras de crédito que o banco havia adquirido do Master. Embora o BRB afirme que cerca de 10 bilhões de reais foram substituídos por outros ativos, a qualidade desses ativos substitutos é o que tem gerado preocupações e estimativas de perdas. Entre esses ativos, encontram-se imóveis ligados à família Vorcaro, créditos inadimplentes e participações em fundos de baixa liquidez.
Em janeiro de 2026, o Banco Central exigiu uma provisão de 2,6 bilhões de reais. Em dezembro do mesmo ano, Ailton de Aquino, diretor de supervisão do Banco Central, informou à Polícia Federal que o valor final da provisão poderia se aproximar de 5 bilhões de reais. Essa declaração, tornada pública em janeiro, indicou que os 2,2 bilhões de reais adicionais refletiam a baixa qualidade dos ativos repassados pelo Banco Master.
Diante desse cenário, o futuro do BRB permanece incerto. Ninguém de fora da instituição consegue afirmar qual é a posição de capital do banco, visto que não há publicações há mais de um ano. O BRB, por sua vez, declara que sua posição se mantém sólida, com liquidez adequada. Em março de 2026, o banco propôs um aumento de capital de até 8,86 bilhões de reais, mas em agosto ainda buscava os recursos. Relatos internos indicam que a própria liderança do banco estima um rombo de cerca de 8,8 bilhões de reais. O Banco Central, até o momento, não impôs regime especial ao BRB, mas um plano de recuperação apresentado em fevereiro com prazo de 180 dias expirou em 5 de agosto sem que as medidas fossem implementadas, conforme noticiado pelo Campo Grande NEWS.
Mudanças na gestão e a busca por soluções políticas
As turbulências financeiras e investigativas também trouxeram mudanças na alta cúpula do BRB. O ex-presidente Paulo Henrique Costa foi demitido em novembro de 2025 e preso em abril de 2026. Atualmente, o banco é comandado por Nelson Antônio de Souza, ex-chefe da Caixa Econômica Federal. A governadora Celina Leão suspendeu funcionários envolvidos na aprovação dos negócios com o Master e exonerou doze diretores em abril.
Em busca de uma solução, um empréstimo de 6,6 bilhões de reais do Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF) para o governo do Distrito Federal foi acordado por meio de conciliação no Supremo Tribunal Federal em maio, mas ainda não foi fechado. O Banco do Brasil recusou-se a liderar o consórcio de empréstimo e solicitou dispensa de audiência em agosto. Em 1º de setembro, o Ministério da Fazenda negou reunião com a governadora, afirmando que a estruturação do acordo não é responsabilidade do governo federal.


