Projeto de Terras Raras na Bahia: Plano Ambicioso, Mas Sem Financiamento

Um grandioso plano para a exploração de terras raras na Bahia foi apresentado recentemente, prometendo um investimento bilionário e o desenvolvimento de um polo industrial inédito no Brasil. No entanto, a iniciativa da Brazilian Rare Earths, empresa listada na Austrália, ainda enfrenta um obstáculo colossal: a ausência de financiamento e licenças ambientais essenciais para sua concretização. A proposta, que visa explorar minerais estratégicos para tecnologias avançadas, encontra-se em uma fase inicial, dependendo crucialmente da captação de recursos e da aprovação regulatória.

Bahia Terra Rara: Um Projeto de Alto Risco e Potencial

A Brazilian Rare Earths, operando no Brasil através da Borborema Recursos Estratégicos, detalhou um plano orçado em aproximadamente R$ 5 bilhões (US$ 961 milhões) para o desenvolvimento de suas operações. A empresa apresentou sua visão para líderes da indústria baiana, focando em unidades de mineração em Jiquiriçá e Ubaíra, e uma planta de separação química em Camaçari. Contudo, a apresentação, realizada em 27 de agosto, não revelou fontes de financiamento, credores ou contratos de construção assinados, indicando que o projeto ainda está em fase de prospecção de capital.

O Plano Detalhado e Seus Desafios

O projeto abrange uma vasta área, conhecida como província Rocha da Rocha, que engloba mais de 200 direitos minerários distribuídos por cerca de 300.000 hectares. O principal depósito, Monte Alto, é de rocha dura, um tipo de minério que demanda processos de extração mais custosos em comparação com argilas iônicas. A empresa relata a presença de neodímio, praseodímio, disprósio e túrbio no minério, com potencial para subprodutos como urânio, tântalo, escândio e nióbio. Resultados de perfurações recentes indicaram 25,6 metros com 17,4% de óxidos de terras raras totais, embora a empresa ressalte que estes dados ainda não constituem uma atualização formal de recursos.

A estratégia de desenvolvimento está dividida em duas fases. A primeira fase concentrar-se-ia na mineração e concentração do minério no vale de Jiquiriçá. A segunda fase prevê a construção de unidades de hidrometalurgia e separação no complexo petroquímico de Camaçari. A expectativa atual da empresa é de que a produção de concentrado comece por volta de 2031, com as operações em Camaçari previstas para 2034. O Senai Cimatec, um instituto de pesquisa baiano, colabora no projeto das plantas piloto. É importante notar que as estimativas de custo e prazos têm sofrido alterações significativas. Um protocolo de intenções assinado em julho de 2024 com o governo da Bahia previa um investimento de R$ 3,5 bilhões (US$ 673 milhões) e início da produção em 2028. Em abril de 2026, o custo estimado era de R$ 3,6 bilhões (US$ 692 milhões), com o número atual saltando para R$ 5 bilhões (US$ 961 milhões) e a produção adiada para 2031, um aumento de cerca de 43% no custo e um atraso de três anos na produção.

Valuation Retirado e Incertezas Financeiras

Em 13 de agosto, a mineradora divulgou um estudo preliminar que avaliava o ativo em US$ 7,9 bilhões, com uma taxa interna de retorno de 89% e um período de retorno de 1,1 ano. Seis dias depois, essa avaliação foi reduzida para US$ 6,0 bilhões, e a empresa retirou suas metas de produção e projeções financeiras associadas. A justificativa apresentada foi a dependência de recursos minerais inferidos para os anos nove a quatorze do plano de mineração, o que, segundo a empresa, não oferecia base razoável para as declarações prospectivas. Essa retirada ocorreu apenas oito dias antes da apresentação na Fieb, a Federação das Indústrias do Estado da Bahia. Investidores devem estar cientes de que a projeção de R$ 5 bilhões (US$ 961 milhões) divulgada não se sustenta mais sob essa perspectiva.

Um estudo de escopo, como o que gerou a avaliação inicial, é a etapa mais inicial e menos vinculativa do planejamento de uma mina, carregando amplas margens de erro e nenhum compromisso de capital. Até o momento, não há dinheiro comprometido para o projeto. O que existe com o governo estadual da Bahia é um memorando de entendimento, precedido por um protocolo de intenções de 2024, nenhum dos quais obriga a empresa a construir nada. A Brazilian Rare Earths admitiu que ainda precisa levantar os aproximadamente US$ 969 milhões necessários, conforme o estudo preliminar, e não há garantia de que o montante seja obtido nos termos desejados. Um estudo de pré-viabilidade começou em 2026 e deve ser concluído em 2027, antecedendo decisões de construção, engenharia e licenciamento ambiental. Conforme o Campo Grande NEWS checou, não foi divulgado o número de empregos previstos para o projeto.

O Cenário das Terras Raras no Brasil

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) estima as reservas brasileiras de terras raras em 21 milhões de toneladas, o segundo maior volume do mundo, atrás apenas da China (44 milhões de toneladas). Contudo, a produção brasileira é modesta, com cerca de 2.000 toneladas em 2025, frente a um total mundial próximo de 390.000 toneladas. A Serra Verde, em Minaçu (Goiás), é a única mina brasileira cujo produto principal são terras raras. Araxá e Angico dos Dias produzem terras raras como subproduto de fosfatos. A Serra Verde está sendo adquirida por uma empresa americana com apoio do governo dos EUA, e sua produção é o que tem impulsionado os números do Brasil, não qualquer plano baiano. O Brasil ainda carece de uma planta industrial de extração por solvente para separação de terras raras, uma lacuna que o projeto da Bahia se propõe a preencher. A legislação sobre minerais críticos, PL 2780/2024, aguarda votação no Senado, e oferece incentivos fiscais que totalizam R$ 5 bilhões (US$ 961 milhões) entre 2030 e 2034, o mesmo valor orçado para o projeto baiano. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a demora na aprovação do marco regulatório pode impactar diretamente a viabilidade de projetos como este, que dependem de um ambiente de negócios favorável e incentivos governamentais. A situação evidencia a distância entre o discurso sobre o potencial dos minerais críticos e a realidade de sua exploração em larga escala no país. Conforme o Campo Grande NEWS verificou, anúncios de projetos de terras raras no Brasil frequentemente param nesta fase, sem que uma pá sequer seja movida. Este plano já foi anunciado três vezes sem progresso tangível na construção.