Investimento em aeroespacial do México cai 50%, mas exportações batem recorde

O setor aeroespacial mexicano registrou uma queda expressiva de 49,6% em investimentos estrangeiros diretos em 2025, totalizando US$ 171,8 milhões, enquanto, em contrapartida, suas exportações alcançaram um patamar recorde de quase US$ 11 bilhões no mesmo período. Esses dados, divulgados pelo Ministério da Economia do México, pintam um cenário de contrastes para uma indústria estratégica que busca equilibrar a atração de capital com o crescimento de suas vendas internacionais.

Queda no investimento, alta nas exportações

Os números revelam que a fabricação de equipamentos aeroespaciais, classificada como o ramo 3364 na nomenclatura nacional, atraiu US$ 171,8 milhões em capital estrangeiro em 2025. Este valor representa uma diminuição significativa em relação aos US$ 340,7 milhões registrados no ano anterior, uma retração de 49,6%. Apesar dessa queda, o setor aeroespacial representou 0,4% de todo o investimento estrangeiro direto no país.

Em contrapartida, o desempenho das exportações foi notavelmente positivo. As vendas externas do setor aeroespacial mexicano se aproximaram de US$ 11 bilhões em 2025, um marco histórico para a indústria no país. Esse volume consolidou o México na quarta posição mundial em exportação de bens aeroespaciais, um feito notável considerando que o país figura em torno da décima segunda posição como fabricante. Essa diferença sugere um papel de grande fornecedor para mercados globais mais consolidados.

Conforme o Campo Grande NEWS checou, o fluxo acumulado de investimento estrangeiro direto no setor aeroespacial mexicano desde 2006 atinge aproximadamente US$ 5,5 bilhões, com liderança dos Estados Unidos, Canadá e França. A Federação Mexicana da Indústria Aeroespacial (FEMIA) estima o mercado doméstico em cerca de US$ 11,2 bilhões e projeta um crescimento próximo a 10% para o fechamento de 2025.

Concentração industrial e expansões em andamento

A indústria aeroespacial mexicana está concentrada em cinco estados principais: Querétaro, Chihuahua, Baja California, Sonora e Nuevo León. Ao todo, aproximadamente 386 empresas do setor operam em cerca de 19 estados mexicanos. As estimativas de emprego direto variam, mas fontes do setor apontam para mais de 50.000 postos de trabalho. Em 2025, Baja California atraiu 29% dos investimentos, seguida por Chihuahua com 26% e a Cidade do México com 25%.

Apesar da retração no investimento estrangeiro direto, empresas já estabelecidas no México continuam a expandir suas operações. A Airbus inaugurou uma ampliação de sua planta em Colón, Querétaro, em junho de 2026, com um investimento de 646,7 milhões de pesos (US$ 38,1 milhões), adicionando 262 empregos. A unidade produz portas para aeronaves das séries A320, A321, A330 e A350.

A Safran ampliou seu centro de manutenção, reparo e revisão (MRO) em Querétaro em 6.000 metros quadrados, uma atividade de alto valor agregado que o país busca intensificar. Além disso, a Viva Aerobus está construindo um complexo de manutenção em Querétaro, orçado em 4 bilhões de pesos (US$ 235,8 milhões). Em Chihuahua, a ATI Materials anunciou um investimento de US$ 80 milhões para uma planta de forjamento que criará mais de 230 empregos.

Desafios para novos investidores

A hesitação de novos investidores em apostar no México tem sido observada. Consultorias como a Prodensa notaram uma diminuição no interesse de empresas em buscar novos locais de instalação durante feiras recentes do setor. Marco Kuljacha, autor de uma análise da Prodensa, atribui essa retração a diversos fatores.

Entre os principais obstáculos citados por analistas e pelo próprio setor estão as tarifas impostas pelos Estados Unidos, reformas trabalhistas e aumentos sucessivos no salário mínimo. A incerteza em torno da revisão do T-MEC (Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá) também figura como um fator recorrente de preocupação para potenciais investidores.

A FEMIA projeta um crescimento de cerca de 7% para o setor em 2026, uma desaceleração em relação aos quase 10% de 2025. A federação associa essa desaceleração à revisão do acordo comercial e às tarifas sobre materiais. Cerca de 80% das exportações de componentes aeronáuticos mexicanos têm como destino os Estados Unidos, com o restante dividido entre Canadá e mercados europeus.

A entidade busca maior clareza nos procedimentos de importação e exportação, além da eliminação de tarifas sobre insumos metálicos, como o alumínio. O progresso nas negociações com os Estados Unidos tem sido lento, com a terceira rodada de discussões sob a revisão do T-MEC encerrada em julho de 2026 sem um acordo.

Perspectivas e o papel do governo

O Ministério da Economia mexicano, por sua vez, enxerga o setor aeroespacial como uma oportunidade e o incluiu nas cadeias de suprimentos estratégicas do Plano México, a política industrial do governo. O plano visa aumentar o conteúdo nacional em 15% até 2030 e fortalecer fornecedores locais. O Secretário da Economia, Marcelo Ebrard, estabeleceu a meta de o México figurar entre os dez maiores produtores mundiais.

O Programa Espacial Mexicano 2026-2030 projeta um setor avaliado em US$ 22,7 bilhões até 2029, o que representaria uma duplicação do tamanho atual da indústria. Grandes players como Airbus, Honeywell e Safran, juntamente com a FEMIA, participaram de eventos de inovação, demonstrando o compromisso com o desenvolvimento do setor.

Investidores devem acompanhar de perto o descompasso entre a produção recorde e a queda no fluxo de capital, que indica uma demanda externa robusta, mas uma hesitação na tomada de decisões sobre novas instalações. Os desdobramentos das tarifas sobre aço e alumínio, bem como o cronograma da revisão do T-MEC, serão cruciais para definir o futuro do investimento no setor. O crescimento de atividades de MRO e engenharia, em detrimento da montagem básica, também será um indicador importante para o aumento de margens e a consolidação do país como um player indispensável na cadeia global aeroespacial. Conforme o Campo Grande NEWS atesta, a dinâmica do setor ainda está em definição, dependendo de negociações em andamento e decisões estratégicas.