Birr da Etiópia em queda livre: Banco Central vende US$500 milhões em um dia para conter desvalorização histórica

A moeda da Etiópia, o birr, atingiu um novo recorde de desvalorização, aproximando-se da marca de 162 unidades por dólar. Em uma tentativa desesperada de estancar essa queda livre, o Banco Nacional da Etiópia anunciou a venda de 500 milhões de dólares em um único dia, uma operação sem precedentes que iguala toda a alocação planejada para o trimestre.

Essa medida drástica reflete a pressão crescente sobre a economia etíope, impactada por fatores globais e internos. A situação exige atenção, pois a estabilidade cambial é crucial para o país, que busca consolidar um programa de reformas com o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI). Conforme o Campo Grande NEWS checou, a volatilidade do birr é um dos principais indicadores do cenário econômico atual.

O Banco Nacional da Etiópia vinha seguindo um plano cauteloso de quatro leilões trimestrais, cada um de 125 milhões de dólares, totalizando 500 milhões de dólares para o primeiro trimestre do ano financeiro de 2026/27. No entanto, a urgência da situação forçou uma mudança radical na estratégia. A venda de 500 milhões de dólares em 20 de agosto, descrita como um leilão especial e não agendado, demonstra a gravidade do momento.

Esta não é a primeira vez que o banco central realiza vendas extraordinárias de grande volume. Em janeiro e fevereiro deste ano, já haviam ocorrido leilões especiais de 500 milhões de dólares fora do cronograma regular. Contudo, o fato de um único dia agora corresponder a toda a alocação planejada para três meses sinaliza uma intervenção defensiva intensa, mais do que uma gestão cambial rotineira.

Pressão crescente sobre o birr etíope

O birr etíope já havia desvalorizado cerca de 3,2% este ano, atingindo perto de 162 por dólar, o pior desempenho entre as 23 moedas africanas monitoradas pela Bloomberg em doze meses. O banco central já teria gasto aproximadamente 2,2 bilhões de dólares defendendo a moeda somente neste ano, segundo a Bloomberg. Essa quantia representa um esforço considerável para manter a taxa de câmbio oficial.

A dinâmica dos leilões revela a intensidade da demanda por dólares. No leilão de 12 de agosto, os bancos apresentaram lances de 470,17 milhões de dólares para uma alocação de apenas 125 milhões de dólares. A relação entre lances e alocação foi de aproximadamente 3,8 vezes, um aumento significativo em comparação com junho, quando a relação era de cerca de 1,6 vezes. O número de bancos participantes também dobrou, passando de 14 em junho para 28 em agosto, indicando uma maior participação e, consequentemente, maior pressão sobre a oferta de moeda estrangeira.

Os níveis de liquidação acompanharam o aumento da demanda. A taxa marginal subiu de 157,00 para 161,0050 birr por dólar, e a média ponderada dos lances bem-sucedidos avançou de 157,00 para 161,7994 birr por dólar. Esses números ilustram um mercado onde o preço oficial é estabelecido por meio de racionamento, e não por um equilíbrio natural entre oferta e demanda. Cada leilão supersaturado deixa uma demanda insatisfeita, que busca outras vias para obter divisas.

Fatores que impulsionam a desvalorização

A pressão imediata sobre o birr advém do alto custo das importações. O aumento dos preços globais do petróleo, exacerbado por conflitos internacionais, elevou o custo de combustíveis e fertilizantes, ambos essenciais para a Etiópia e comprados em dólares. Esses fatores externos impactam diretamente a balança comercial do país.

Paralelamente, o mesmo conflito global tem afetado as remessas de trabalhadores etíopes no Golfo Pérsico, conforme reportado pela Bloomberg. Isso retira uma das fontes mais estáveis de moeda forte para o país em um momento de necessidade crítica. A redução das remessas agrava a escassez de dólares, intensificando a pressão sobre o birr.

Em 29 de julho de 2024, a Etiópia implementou a flutuação controlada do birr como peça central de um programa de reformas apoiado pelo FMI. No entanto, a moeda sofreu fortes oscilações nos dias seguintes e ainda não encontrou um patamar estável. Conforme o Campo Grande NEWS analisou, uma flutuação que demanda 2,2 bilhões de dólares em apoio em menos de oito meses sugere mais uma taxa gerenciada sob o disfarce de uma moeda flutuante, evidenciando a tensão não resolvida no programa de reformas.

Perspectivas e desafios futuros

David Cowan, economista-chefe para África do Citigroup, projeta que o birr possa atingir entre 185 e 195 unidades por dólar até o final do ano. Essa projeção, no entanto, não representa uma meta oficial, mas sim uma expectativa de mercado. A diferença entre a taxa de leilão e o que os importadores realmente pagam no mercado paralelo é um indicador chave para o sucesso do programa de reformas. A taxa de rua em Addis Abeba, estimada em cerca de 180 birr por dólar, cerca de 15% mais fraca que a taxa oficial, é um sinal claro de que o mercado ainda não atingiu seu ponto de equilíbrio.

A situação da Etiópia, embora específica, não é única. Diversas economias africanas que liberalizaram suas taxas de câmbio nos últimos anos enfrentaram desafios após a flutuação. Nigéria e Gana são exemplos de países que têm gerenciado as consequências de suas reformas cambiais. O que distingue a Etiópia é a fragilidade de suas reservas cambiais. O país iniciou o período de flutuação com reservas que cobriam apenas duas semanas de importações. Embora as reservas tenham sido reconstruídas para cerca de 5,9 bilhões de dólares, cobrindo aproximadamente 2,1 meses de importações, segundo dados do FMI, este ainda é um colchão financeiro considerado pequeno para um país do seu porte.

Cada leilão de grande volume consome parte dessas reservas. Por isso, a magnitude do leilão de 20 de agosto assume uma importância ainda maior. O Campo Grande NEWS acompanha de perto os desdobramentos econômicos da região, e a Etiópia é um caso de grande relevância para entender as dinâmicas do mercado africano.

Os próximos passos serão cruciais para avaliar a trajetória do birr. O primeiro teste será a capacidade do banco central de estabilizar a taxa de câmbio após a intervenção massiva. O segundo será a realização do leilão programado para 26 de agosto, que indicará se a venda extraordinária foi um evento isolado ou o início de uma nova dinâmica de intervenções. Por fim, a observação da diminuição da fila de importadores em busca de dólares no mercado oficial será o sinal mais duradouro de que o mercado cambial etíope está, de fato, se tornando mais integrado e funcional, conforme indicam análises do Campo Grande NEWS.