O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) abriu uma investigação para apurar a falta de medicamentos, insumos e serviços essenciais em unidades de saúde de Campo Grande. A medida foi tomada após diversas reclamações de moradores sobre problemas no atendimento e no fornecimento de itens básicos, incluindo a Unidade de Saúde da Família (USF) Jardim Macaúbas. A situação tem gerado grande preocupação na população, que depende desses serviços para o tratamento de doenças crônicas e agudas.
A investigação abrange unidades como a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Aero Rancho, onde pacientes têm enfrentado dificuldades para obter medicamentos e realizar exames. Entre os remédios citados como indisponíveis estão a losartana, usada para controle da pressão alta, a metformina, para diabetes, a hidroclorotiazida, um diurético, e até mesmo a dipirona, analgésico e antitérmico amplamente utilizado. Conforme informação divulgada pelo g1 MS, a situação tem afetado o tratamento de muitos pacientes.
Medicamentos básicos indisponíveis causam transtornos
Moradores relatam a dificuldade em conseguir medicamentos que são considerados de uso contínuo e de baixo custo. Cida Jovina, vice-presidente do bairro Aero Rancho, exemplificou a situação ao não conseguir retirar a receita de losartana. “O losartana, que é um medicamento que eu sou cardíaca e eu tomo, o Losartana que custa baratinho, ele não tem. Não tem aqui, o Losartana não tem. E segundo a moça da farmácia, não tem em nenhum”, relatou. Segundo ela, os funcionários informaram que o medicamento não estava disponível em outras unidades.
Além da falta de medicamentos, a indisponibilidade de serviços como o exame de urina tipo 1 também tem sido relatada. Durante uma apuração, a reportagem constatou a ausência de outros medicamentos na UPA Aero Rancho, como dexclorfeniramina, aciclovir, dexametasona e dipirona. A falta desses itens essenciais dificulta o manejo de diversas condições de saúde.
Investigação se estende à USF Jardim Macaúbas
A situação de escassez não se restringe a uma única unidade. O Ministério Público também abriu um inquérito civil para apurar as condições de atendimento na Unidade de Saúde da Família (USF) Jardim Macaúbas. As reclamações na localidade incluem a falta de medicamentos, a carência de profissionais de saúde e a escassez de insumos básicos. O problema tem gerado insatisfação generalizada entre os usuários do sistema público de saúde.
“O pessoal reclama muito, é muita reclamação. Não tem como, você vai nos lugares, falta remédio. O médico manda fazer exame, às vezes tem exame que aqui não faz, tem que mandar para o particular e às vezes a população não tem como pagar. Então assim, o caos tá difícil”, desabafou a dona de casa Angela Delfino. A dificuldade em realizar exames básicos também sobrecarrega os pacientes, que muitas vezes não têm condições financeiras para arcar com os custos particulares.
Thainara Nobre contou que chegou à USF Jardim Macaúbas às 7h para realizar um hemograma. Apesar de ter os pedidos recolhidos, a máquina de exames parou de funcionar, e após mais de uma hora de espera, ela precisou ir embora sem realizar a coleta de sangue. “Estou indo embora porque as crianças estão com fome. Desde 7h para fazer um exame de sangue, criança pequena, em jejum”, relatou a autônoma, demonstrando o transtorno causado pela falha no serviço.
Outra paciente, a aposentada Elza Ferreira de Souza, procurou a unidade para retirar losartana, mas também não obteve sucesso. “Não tem, tem que comprar, é baratinho, mas tem hora que a gente não tem”, disse, ressaltando que a dificuldade em encontrar o medicamento é recorrente. Mirta Ferreira da Silva, também dona de casa, relatou a mesma situação ao buscar losartana, amitriptilina, metformina e hidroclorotiazida. “Nenhum remédio na verdade. Nenhum desses que a gente usa para diabete. Falam para ir na farmácia popular ou compra, muitas vezes a gente não tem condição de comprar, a farmácia é bem longe, aí fica sem remédio”, contou.
Medicamentos essenciais em falta há meses
Segundo apuração do Campo Grande NEWS, a losartana e a hidroclorotiazida estão em falta na USF Jardim Macaúbas desde o ano passado, sem previsão de chegada até o momento da publicação desta matéria. A falta prolongada desses medicamentos essenciais para o controle de doenças crônicas é um ponto crítico da investigação. “O sentimento é de precisar de melhoria, porque não tem como. Eu acho que a população precisa de mais atenção, tanto idoso, quanto gestante, quanto criança e um atendimento melhor”, finalizou Angela Delfino.
Reclamações se espalham por outros bairros
A falta de medicamentos não se limita às unidades investigadas. Durante a produção da reportagem, moradores de diversas outras regiões de Campo Grande relataram problemas semelhantes. Entre os bairros citados com falta de medicamentos estão Vila Fernanda, Nova Bahia, Tiradentes, Paulo Coelho Machado, Universitário, Silvia Regina, Ana Maria do Couto, Moreninhas e Caiçara. Essa disseminação das queixas indica um problema generalizado no abastecimento da rede municipal de saúde.
A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou, em nota, que está trabalhando para resolver a questão do abastecimento. Segundo a pasta, em alguns casos, o fornecimento é comprometido quando empresas vencedoras de licitações não cumprem os contratos ou solicitam alterações de preço após a compra. Nesses cenários, a secretaria alega não ser possível trocar o fornecedor ou modificar os valores estabelecidos, o que dificulta a solução rápida. A Sesau afirmou que notificou as empresas e busca retomar o abastecimento o mais breve possível.
A secretaria também mencionou que a losartana pode ser obtida em farmácias credenciadas pelo programa Farmácia Popular. No entanto, a reportagem questionou o município sobre a situação em outras unidades e a previsão para a realização dos exames pendentes, mas não obteve resposta. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a falta de medicamentos básicos em unidades de saúde é uma preocupação constante dos moradores da capital, exigindo soluções efetivas e transparentes por parte do poder público. A situação reflete a necessidade de um planejamento mais robusto e fiscalização eficaz dos contratos de fornecimento, garantindo que os cidadãos tenham acesso aos tratamentos necessários. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando o desenrolar desta investigação e as medidas adotadas pela prefeitura para solucionar o problema.

