Irmão de Fabíola Marcotti detalha feminicídio: “Extremamente cruel”

Irmão de Fabíola Marcotti detalha feminicídio: “Extremamente cruel”

O irmão da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, 51 anos, José Flávio Marcotti, classificou o crime que resultou na morte de sua irmã como “extremamente cruel”. A declaração surge após a Polícia Civil de Campo Grande concluir o inquérito, apontando o caso como feminicídio e descartando a tese inicial de suicídio. O marido da vítima, o cardiologista João Jazbik Neto, 78 anos, permanece preso preventivamente.

Laudos técnicos do Instituto de Criminalística e do Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) foram cruciais para a conclusão da investigação, que reuniu elementos suficientes para comprovar a materialidade do crime em contexto de violência doméstica. A defesa do médico, no entanto, mantém a versão de seu cliente e nega as acusações.

Polícia Civil desvenda morte de fisioterapeuta após meses de investigação

A Polícia Civil de Campo Grande encerrou o inquérito sobre a morte da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, afastando definitivamente a hipótese de suicídio, que havia sido considerada inicialmente. O trabalho investigativo, que durou meses, apontou para o crime de feminicídio, levando à prisão preventiva do marido da vítima, o cardiologista João Jazbik Neto. A conclusão é fruto de um minucioso trabalho de perícias e análise de provas.

José Flávio Marcotti, irmão da vítima, fez questão de elogiar a atuação da equipe policial responsável pela apuração. “Dra. Analu [Lacerda Ferraz], junto com a equipe de peritos da Polícia Civil, fizeram um trabalho sensacional no sentido de desvendar a morte de minha irmã”, declarou ele, ressaltando a competência dos envolvidos em desvendar um caso complexo.

A prisão preventiva de João Jazbik Neto ocorreu na sexta-feira (14), com base em um mandado expedido pela 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande. Segundo a Polícia Civil, a decisão foi tomada após a consolidação das perícias técnicas, que apresentaram provas robustas da materialidade do feminicídio. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a investigação foi iniciada após Fabíola ser encontrada morta em sua chácara no dia 18 de maio.

Laudos e inconsistências afastam hipótese de suicídio

Desde o início, a ocorrência foi registrada como possível suicídio, mas diversas inconsistências identificadas durante as diligências levaram a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) a investigar a possibilidade de feminicídio. Um dos primeiros indícios de que algo estava errado veio do laudo necroscópico.

O exame pericial não encontrou vestígios característicos de disparo de arma de fogo feito com a arma encostada ou a curta distância, como fuligem, queimaduras nos cabelos ou partículas de pólvora na região da lesão na cabeça da vítima. Embora o laudo não tenha determinado na época quem realizou o disparo nem se tratava de homicídio ou suicídio, a causa da morte foi estabelecida como traumatismo cranioencefálico provocado por projétil de arma de fogo.

O mesmo laudo também registrou a presença de três hematomas no corpo de Fabíola Marcotti, sendo um deles com aproximadamente oito centímetros na região do peito, e os outros na mão direita e na parte frontal da coxa direita. As perícias não conseguiram determinar quando ou como essas lesões foram causadas, o que reforçou as suspeitas sobre a dinâmica dos fatos.

A análise da cronologia registrada no celular de Fabíola também foi um ponto crucial na investigação. Conforme informações divulgadas anteriormente pelo Campo Grande News, o Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) foi acionado às 10h33 do dia da morte. Quatro minutos depois, às 10h37, uma mensagem foi enviada pelo celular da fisioterapeuta, e o aparelho ainda registrou movimentações até às 10h47, dados que auxiliaram na reconstrução dos acontecimentos.

Familiar relata desejo de Fabíola em deixar o relacionamento

Antes mesmo da conclusão do inquérito, familiares já haviam relatado que Fabíola Marcotti expressava o desejo de deixar o relacionamento. O irmão da vítima contou ao Campo Grande News que ela afirmava não conseguir sair sozinha, havia deixado o trabalho e dependia financeiramente do marido. Em uma chamada de vídeo, Fabíola chegou a chorar ao pedir ajuda para deixar Campo Grande, relatos que foram incorporados à investigação e ao contexto apurado.

A delegada da Deam, Analu Lacerda Ferraz, afirmou à reportagem que o conjunto probatório contra João Jazbik é sólido. “Foi provada toda a dinâmica do crime, feitas várias simulações. [O inquérito] está completo e com vários laudos”, declarou a delegada, enfatizando a robustez das provas coletadas.

Defesa mantém versão e família rebate alegações

A defesa de João Jazbik Neto, representada pelo advogado José Belga Trad, argumentou que o inquérito policial é um procedimento inquisitivo, onde ainda não há contraditório pleno. Segundo a defesa, caso uma denúncia seja recebida pela Justiça, será aberta a oportunidade para apresentar defesa, apontar nulidades e solicitar produção de provas. O advogado afirmou que Jazbik “se mantém firme na sua versão” e lamenta “toda tipo de exploração enviesada da tragédia”.

Em contrapartida, a família de Fabíola Marcotti rebateu o argumento da defesa em uma nota pública. Sustentaram que a conclusão sobre o feminicídio não foi baseada em “especulação, pressão familiar ou exposição midiática”, mas sim no trabalho técnico desenvolvido ao longo de meses de investigação. A família destacou que a evolução das provas periciais levou as autoridades a afastarem a hipótese inicial de suicídio e que não pretendem antecipar o julgamento, reconhecendo o direito à ampla defesa do investigado.