Um novo projeto de lei bipartidário apresentado no Senado dos Estados Unidos promete intensificar as sanções contra a Nicarágua, com um foco especial no crescente setor de ouro do país. A proposta, formalmente conhecida como Ato REFORMAR (Restaurando a Equidade Eleitoral e os Direitos da Oposição através de Mandatos para a Prestação de Contas), visa estender e ampliar a autoridade da Lei NICA (Lei de Condicionalidade de Investimento na Nicarágua) até 2035. Esta medida representa um endurecimento significativo na política externa americana em relação a Manágua, buscando pressionar o regime de Daniel Ortega por meio de restrições econômicas mais amplas e direcionadas.
O projeto de lei, introduzido em 7 de agosto de 2026 pelos senadores Ted Cruz (Republicano, Texas) e Tim Kaine (Democrata, Virgínia), foi encaminhado diretamente ao Comitê de Relações Exteriores do Senado. A união de ambos os partidos políticos demonstra um consenso crescente em Washington sobre a necessidade de manter a pressão sobre o governo nicaraguense. Se aprovado, o Ato REFORMAR estenderia a autoridade de sanções da Lei NICA até 31 de dezembro de 2035, uma extensão considerável em comparação com o prazo original da legislação. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa iniciativa reflete a preocupação americana com a situação democrática e de direitos humanos na Nicarágua.
Ouro em Foco e Novas Gatilhos para Sanções
Uma das mudanças mais notáveis propostas pelo Ato REFORMAR é a inclusão do setor de ouro da Nicarágua como um gatilho específico para a imposição de sanções. Isso significa que operar, ou ter operado, na mineração de ouro ou atividades relacionadas pode levar entidades a serem incluídas em listas de sanções dos EUA. O ouro é o principal produto de exportação da Nicarágua em valor, gerando quase US$ 2 bilhões em 2025, o que representa cerca de 22% das exportações totais naquele ano. Os Estados Unidos são o principal comprador desse mineral, absorvendo aproximadamente 44% das exportações nicaraguenses nos primeiros cinco meses de 2026.
Grandes mineradoras como Calibre Mining, Mako Mining e a colombiana Mineros operam atualmente na Nicarágua. Embora o texto do projeto de lei não implique que essas empresas estejam sob sanção no momento, ele confere ao governo dos EUA uma nova ferramenta para direcionar o setor, se assim o desejar. A importância econômica do ouro para a Nicarágua é tamanha que, nos primeiros cinco meses de 2026, as exportações desse metal somaram cerca de US$ 1,35 bilhão. Essa dependência torna o setor um ponto vulnerável e uma alavancagem estratégica para Washington, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Fundo de Pensão Militar e Pressão Direta
O projeto de lei também altera a Lei RENACER para incluir funcionários do fundo de pensão militar da Nicarágua, conhecido como IPSM, em uma lista prioritária de indivíduos que as autoridades americanas devem revisar para sanções. O IPSM atua como o corpo de pensão e holding das Forças Armadas, funcionando como um fundo de seguridade social para os militares e, ao mesmo tempo, como um importante player econômico. A inclusão de seus funcionários sinaliza que os legisladores dos EUA veem as forças armadas como um pilar fundamental da estrutura financeira do regime de Ortega-Murillo.
Ao nomear o IPSM, o projeto de lei busca pressionar diretamente os militares, e não apenas o governo. Isso pode gerar efeitos cascata para qualquer entidade que negocie com empresas ligadas à defesa da Nicarágua. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a intenção é isolar ainda mais o regime, atingindo suas fontes de financiamento e apoio institucional.
Mecanismo da Lei NICA e Isolamento Financeiro
O mecanismo da Lei NICA baseia-se no uso do poder de voto dos EUA em instituições financeiras internacionais, como o FMI, o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, para se opor ou condicionar empréstimos que beneficiem o governo nicaraguense. O Ato REFORMAR manteria essa pressão e adicionaria uma estratégia diplomática coordenada para restringir o investimento e o crédito internacional. Em termos práticos, os EUA trabalhariam para bloquear ou limitar o financiamento multilateral à Nicarágua, dificultando o acesso do governo a recursos financeiros.
O projeto de lei também exige relatórios anuais por três anos, com o primeiro a ser entregue em até 90 dias após sua promulgação. Para investidores, isso significa que a Nicarágua pode enfrentar um crescente isolamento financeiro, aumentando o risco para quem tem exposição à economia do país. A redução de empréstimos multilaterais, que frequentemente financiam infraestrutura e folha de pagamento pública, limita a margem de manobra do governo, impactando diretamente a economia.
Implicações para a América Latina e Investidores
Para observadores da América Latina, este projeto de lei é um sinal claro de que os EUA estão intensificando sua política em relação à Nicarágua, com o setor de ouro agora em sua mira. Investidores com ativos em mineração nicaraguense ou dependentes de exportações para os EUA enfrentam um risco legislativo aumentado. O ouro é uma linha de vida para a Nicarágua, e os EUA são seu maior comprador. Uma sanção direcionada ao ouro poderia perturbar cadeias de suprimentos, afetar os preços das commodities regionalmente e alertar outros países latino-americanos sobre medidas semelhantes.
A mensagem regional é igualmente importante. Quando os EUA visam um setor como o ouro, enviam um sinal a outros governos da região de que indústrias específicas podem enfrentar escrutínio semelhante. Este projeto de lei é, portanto, digno de atenção, mesmo para aqueles sem laços diretos com a Nicarágua. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, alertou em julho de 2026 que a Nicarágua não deveria esperar que as relações continuassem normais após as ações do governo Ortega relacionadas às eleições. Este projeto de lei se insere nesse contexto de endurecimento da postura americana.
O Caminho para se Tornar Lei
É crucial notar que o Ato REFORMAR é, por enquanto, apenas um projeto de lei. Para se tornar lei, ele precisa ser aprovado tanto pelo Senado quanto pela Câmara dos Representantes dos EUA e, em seguida, sancionado pelo Presidente. O processo legislativo pode ser longo e sujeito a emendas. No entanto, a introdução de um projeto bipartidário já demonstra um forte apoio inicial e a seriedade com que a questão está sendo tratada em Washington. Acompanhar seu progresso será fundamental para entender as futuras relações econômicas e diplomáticas entre os EUA e a Nicarágua, especialmente no que diz respeito ao vital setor de mineração de ouro.


