IA ameaça jornalismo: tráfego cai e financiamento em risco no Brasil

O avanço da Inteligência Artificial (IA), especialmente com os resumos gerados por buscadores na internet, está corroendo o financiamento do jornalismo profissional no Brasil. A prática tem levado muitos usuários a dispensar o clique em links diretos de sites de notícias, satisfazendo-se com as prévias oferecidas pelas IAs. Essa tendência, que ganhou força em maio de 2024 com os “AI Overviews” do Google, levanta sérias preocupações sobre a sustentabilidade do jornalismo e a integridade da informação.

IA e a crise no financiamento jornalístico

A Associação de Jornalismo Digital (Ajor) revelou que um em cada quatro portais de notícias associados perdeu mais de 20% de sua audiência em 2025. Essa queda no tráfego, diretamente ligada ao uso de ferramentas de busca com IA, é um golpe significativo para a captação de publicidade, principal fonte de receita para muitos veículos. A diretora de Relações Institucionais da Ajor, Carla Egydio, classificou a situação como “preocupante”, pois o financiamento jornalístico é calculado com base em métricas de audiência.

“O ecossistema jornalístico hoje vive um cenário de crise. Parte da publicidade já migrou, principalmente, para plataformas digitais. Os veículos que se financiavam, sobretudo por publicidade, têm uma dificuldade muito grande de manter seus negócios. Esse resumo da IA aprofunda um contexto de crise do jornalismo”, explicou Egydio à Agência Brasil. A perda de audiência impacta diretamente a capacidade dos jornais de atrair anunciantes e, consequentemente, de manter suas operações.

A preocupação se estende à qualidade e integridade da informação. Os resumos gerados por IA, por não apresentarem o conteúdo completo das reportagens, podem levar à descontextualização e, em alguns casos, a plágio, conforme alertou Carla Egydio. A situação já gerou demissões em massa em veículos internacionais, como o Business Insider, que cortou 21% de seus funcionários em maio de 2025 devido à queda de tráfego causada pelas IAs.

Projeto de Lei busca regulamentar o uso de conteúdo jornalístico por IAs

Em resposta a essa crise, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) 2338 de 2023, conhecido como Marco Regulatório da IA. A proposta prevê que plataformas digitais remunerem pelo uso de obras e reportagens protegidas por direitos autorais pelas tecnologias de IA. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tem pressionado pela aprovação do PL, que chegou do Senado com a previsão de que empresas de IA paguem pelo conteúdo jornalístico utilizado.

No entanto, o projeto tem enfrentado resistência. A presidenta da Fenaj, Samira de Castro, apontou que o “lobby das big techs é muito forte”, com o objetivo de retirar a parte sobre direitos autorais do texto. Apesar das fragilidades, o PL é visto como um avanço para garantir a remuneração do trabalho jornalístico. Contudo, não há mecanismos específicos de transparência sobre quais conteúdos jornalísticos foram usados para treinar modelos de IA, o que pode ser objeto de regulamentação futura.

O impasse na Câmara e as críticas das empresas de tecnologia

Apesar de ter sido anunciado como prioridade pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, o Marco Regulatório da IA não avançou significativamente no último semestre. A assessoria de Lira informou que a definição de uma data para votação depende da apresentação do parecer do relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). Diante do período eleitoral, a expectativa é que o projeto seja votado apenas após as eleições de outubro. A comissão especial que analisa o tema não se reúne desde novembro de 2025.

Aguinaldo Ribeiro tem defendido a necessidade de mais debates, especialmente sobre a operacionalização da remuneração pelo uso de conteúdos protegidos por direitos autorais. Empresas de tecnologia, por outro lado, criticam o projeto, alegando que o dispositivo sobre direitos autorais “na prática, inviabiliza o treinamento de novos modelos locais de IA” e pode “isolar o Brasil no desenvolvimento da IA”, além de impactar investimentos. A Brasscom, associação que representa empresas de tecnologia, manifestou essa preocupação.

Governo apoia o PL e investigação no Cade

O governo federal, por meio do Ministério da Cultura, tem defendido a aprovação do PL 2338. O secretário de Direitos Autorais e Intelectuais, Marcos Alves de Souza, ressaltou que o uso não autorizado de conteúdo jornalístico para treinar sistemas de IA já constitui violação da lei de direitos autorais. Paralelamente, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu uma investigação em abril deste ano sobre a conduta do Google e os impactos do uso de IA no mercado de mídia, avaliando se a gigante da tecnologia abusou de sua posição dominante ao usar conteúdos jornalísticos sem remuneração.

Enquanto o debate legislativo avança lentamente, alguns grandes veículos de comunicação buscam acordos privados. A Folha de S.Paulo fechou acordo com a OpenAI após processar a empresa, e O Estado de S. Paulo fez o mesmo com o Google. Essas iniciativas, conforme o Campo Grande NEWS checou, demonstram a busca por soluções em meio à incerteza regulatória e aos desafios impostos pela IA ao modelo de negócios do jornalismo profissional no Brasil. A experiência do Campo Grande NEWS em cobrir temas locais com profundidade reforça a importância do jornalismo independente e bem financiado para a sociedade. A análise do Campo Grande NEWS sobre o impacto dessas tecnologias no jornalismo local sugere que a regulamentação é um passo crucial para garantir um futuro sustentável para a informação de qualidade.