Uma onda silenciosa de deslistagens na B3 está remodelando a maior bolsa de valores da América Latina. Multinacionais globais, com sedes em Paris e Madri, decidiram que suas subsidiárias brasileiras valem mais fora da bolsa, optando por torná-las empresas de capital fechado. Essa movimentação, que viu 21 companhias deixarem a B3 entre janeiro de 2025 e abril de 2026, levanta questões sobre a atratividade do mercado brasileiro para investidores e empresas.
Mercado de ações em xeque
O cenário para novas aberturas de capital (IPOs) no Brasil foi desolador em 2025, com nenhuma nova listagem registrada. Paralelamente, o número de ofertas públicas de aquisição (OPAs) se aproximou do de IPOs na última década, resultando em uma redução significativa do total de empresas listadas na B3, que encerrou 2025 com cerca de 358 companhias. Essa tendência, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, indica um congelamento no pipeline de novas empresas buscando o mercado de capitais.
O êxodo de gigantes globais
A varejista francesa Carrefour Brasil foi uma das primeiras a anunciar seu retorno ao capital fechado. Em fevereiro de 2025, a empresa comunicou a intenção de recomprar as ações de minoritários, completando o processo em maio do mesmo ano. A decisão foi motivada pela constatação de que o financiamento da subsidiária brasileira via canais corporativos internos era mais barato do que manter a companhia listada em um ambiente de juros elevados.
No setor de energia, as gigantes espanhola Iberdrola e portuguesa EDP também puxaram o ‘plug’ da bolsa. A Iberdrola moveu a sua subsidiária Neoenergia para o capital fechado, com uma oferta que obteve cerca de 98% de aceitação. A EDP já havia realizado um movimento semelhante em 2023 com a EDP Energias do Brasil. Ambas as empresas concluíram que os baixos volumes de negociação e as avaliações de mercado deprimidas não justificavam mais os custos e o escrutínio de uma listagem na B3.
O setor de logística também sentiu o impacto. A francesa CMA CGM aumentou sua participação na operadora de portos Santos Brasil para 93,07% e a deslistou em 2025. A suíça MSC, por meio de sua subsidiária SAS Shipping, lançou uma oferta para a empresa de logística Wilson Sons em setembro de 2025, que também resultou na saída da companhia da bolsa. Essas movimentações, como checou o Campo Grande NEWS, demonstram uma tendência clara de consolidação e busca por maior controle.
Juros altos e custos elevam a saída
A principal razão por trás desse êxodo é a taxa Selic, que se manteve em patamares elevados, entre 14% e 15%. Essa conjuntura torna o financiamento via dívida ou recursos internos corporativos significativamente mais atraente do que a captação de recursos no mercado de ações. Além disso, muitos subsidiárias sofriam com volumes de negociação thin e baixos free floats (parcela de ações em circulação), o que limitava a atração de analistas e investidores institucionais.
Para as matrizes globais, os custos anuais de compliance, governança e relações com investidores deixaram de fazer sentido financeiro. A alternativa de alocar capital internamente, a um custo menor, tornou-se mais vantajosa, conforme detalhado pelo Campo Grande NEWS. A estrutura de custos e a complexidade regulatória brasileira, aliadas a um cenário macroeconômico desafiador, contribuíram para a decisão de sair da bolsa.
Santander Brasil: a exceção que confirma a regra
Em contrapartida a essa tendência, o Banco Santander Brasil anunciou em julho de 2026 uma oferta voluntária de troca de ações, com um prêmio de 15%, para adquirir os cerca de 10% de participação que não detinha. No entanto, o banco espanhol fez questão de ressaltar que a operação não busca o delisting da unidade brasileira, que deve permanecer listada na B3. O objetivo do Santander é simplificar sua estrutura acionária, e não seguir o caminho de outras multinacionais.
Impactos para investidores e o mercado
O encolhimento do mercado de ações concentra riscos para os investidores. Com menos empresas listadas, as opções de diversificação de portfólios, tanto domésticos quanto internacionais, diminuem. Para investidores estrangeiros que utilizavam subsidiárias listadas na B3 como porta de entrada para o mercado brasileiro, essas saídas removem veículos de investimento acessíveis e transparentes em setores chave como consumo, energia e logística.
A tendência também levanta questionamentos sobre a descoberta de preços. Quando empresas globais levam unidades para o capital fechado pagando um prêmio, acionistas minoritários podem ter uma saída vantajosa, mas o mercado como um todo perde um importante benchmark. A experiência brasileira reflete um desafio mais amplo na América Latina, onde altas taxas de juros tornam os mercados de ações menos atrativos para emissores e investidores, como observado em outros mercados da região.


