A música clássica, muitas vezes associada a elitismo, tem em Recife um exemplo vibrante de como a arte pode ser um poderoso agente de transformação social. A Orquestra Criança Cidadã, que completa duas décadas de atuação, celebrou essa jornada com concertos no tradicional Teatro de Santa Isabel. A iniciativa, que começou no violento bairro do Coque, um dos de menor índice de desenvolvimento humano da cidade, já impactou mais de 1.500 jovens, oferecendo não apenas formação musical, mas também cidadania e esperança.
A história de sucesso da Orquestra Criança Cidadã é marcada por superação e dedicação. Como divulgado pelo Campo Grande NEWS, o projeto tem sido fundamental na mudança de vida de muitos jovens e suas famílias, provando que o talento pode florescer nos lugares mais inesperados. A trajetória de Isaías Tavares, um dos alunos mais emblemáticos, é um testemunho vivo dessa realidade, como o Campo Grande NEWS checou em reportagens anteriores.
Ivone do Santos, 57 anos, mãe de Isaías, emociona-se ao relembrar o passado. Sua casa, feita de tábuas de madeira no Coque, foi destruída por uma tempestade em 2009. Na época, ela trabalhava como empregada doméstica e mãe solo, enfrentando enormes dificuldades para sustentar o filho. A entrada de Isaías no projeto, em 2006, foi um divisor de águas.
Transformação em degraus
O projeto social Orquestra Criança Cidadã, fundado em 25 de julho de 2004, não apenas ofereceu a Isaías formação musical, mas também três refeições diárias, um suporte crucial para a família. Enquanto o novo lar era construído com doações, o projeto arcou com o aluguel, permitindo que a vida seguisse em frente. Isaías, que hoje é violista principal da Orquestra Sinfônica de Goiânia há 15 anos, relembra com carinho os tempos em que simulava a viola com uma caixa de papelão e o arco com um galho de goiabeira.
“Minha mãe me ensinou a ter coragem e ousadia. A vida sem elas é vazia. Precisamos de persistência, porque sentado no sofá, nada se consegue”, afirma Isaías, destacando a força de sua mãe, Ivone, que mesmo exausta da labuta diária, o ouvia ensaiar até adormecer. A dedicação e o apoio familiar foram pilares para que ele pudesse, aos 18 anos, estudar no conservatório superior em Salzburgo, na Áustria, e posteriormente ingressar na Orquestra Sinfônica de Goiânia, passando em primeiro lugar em seu instrumento.
Legado de sucesso e inspiração
Outro nome que brilha na constelação de talentos formados pela Orquestra Criança Cidadã é o do contrabaixista Antonino Tertuliano. Atualmente, ele é o único latino-americano entre os 100 integrantes da Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha. Antonino retornou ao Recife para celebrar os 20 anos do projeto e reforçou a mensagem de que é “muito possível chegar longe”, como ele e tantos outros fizeram. Ele lembra com detalhes de como tudo começou, aos 14 anos, e da primeira vez que tocou no Teatro de Santa Isabel.
“As crianças e adolescentes da orquestra de hoje olham para Antonino como a uma lenda”, relata o texto fonte, evidenciando o impacto inspirador do músico. Antonino, que escolheu o contrabaixo por considerá-lo um instrumento desafiador, sempre soube que a música seria sua profissão. Ele enfatiza que os jovens da orquestra viam no projeto uma oportunidade de construir um futuro melhor, fugindo dos caminhos do crime que assolam a comunidade.
Expansão e novas fronteiras
O projeto não se limita à comunidade urbana. Há também um núcleo na área rural de Igarassu, onde 40 crianças e adolescentes trocam a lida no campo por instrumentos musicais. A professora Basemate Neves, coordenadora do núcleo rural, destaca que os jovens veem no projeto uma chance de expandir seus horizontes. Quatro alunos de Igarassu foram aprovados no curso de música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), incluindo José Felipe da Silva, 20 anos, que um dia sonha em ser professor e influenciar outros jovens, além de buscar oportunidades no exterior.
Mirallayne Gomes, 19 anos, violoncelista e também aluna da UFPE, sente a responsabilidade de ser um espelho para as crianças da área rural. “Lá na rua, por exemplo, tem várias crianças que entraram na orquestra por nossa causa”, sorri a jovem musicista. A trajetória desses artistas, da periferia ao reconhecimento internacional, enche de orgulho o juiz de direito João Targino, diretor e criador do projeto, que reitera o objetivo principal: formar não apenas músicos, mas cidadãos transformadores.
O diretor do projeto, João Targino, ressalta a importância da música como ferramenta de transformação: “Nós começamos esse trabalho há 20 anos e eu pude ver o quanto a música é transformadora na vida de uma pessoa”, afirmou. A Orquestra Criança Cidadã demonstra, a cada concerto, que a arte é um caminho de esperança e de oportunidades, capaz de transcender barreiras sociais e geográficas, como o Campo Grande NEWS frequentemente destaca em suas matérias sobre iniciativas sociais de impacto.


