Apesar de ostentar “Progresso” em seu nome, a Vila Progresso, um dos bairros pioneiros de Campo Grande, parece ter parado no tempo, ou pior, regredido. O que antes era um loteamento residencial planejado na década de 1970, hoje é palco de reclamações sobre a falta de infraestrutura, o avanço da criminalidade e o esvaziamento de sua vocação original. A realidade vivida pelos moradores e comerciantes locais contrasta fortemente com o significado de seu batismo, levantando questionamentos sobre o verdadeiro progresso da região.
Vila Progresso: um nome que não reflete a realidade atual
O bairro, que teve seu loteamento aprovado em três fases entre 1970 e 1972, foi concebido pelos próprios proprietários como um parcelamento particular. Inicialmente, a área carecia de infraestrutura básica, como asfalto e saneamento, mas com o passar dos anos, viu chegar melhorias pontuais. Contudo, a transformação de seu perfil, de predominantemente residencial para um polo de indústrias e galpões, gerou um sentimento de abandono. Moradores de longa data, como Dejanira da Silva Gonçalves, de 55 anos, que nasceu na Vila Progresso, testemunham essa mudança.
“Quando eu era pequena, aqui não tinha nem asfalto. Não tinha nada”, relembra Dejanira, contrastando com o presente. Ela conta que, antigamente, a região era marcada pela presença de casas de prostituição, mas que a dinâmica mudou com o avanço do comércio e dos galpões. Apesar de reconhecer uma melhora na segurança em relação ao passado distante, Dejanira critica a precariedade dos serviços públicos e avalia que o nome do bairro já não condiz com a realidade atual. “Até uns anos atrás podia até se chamar Progresso. Mas, de um tempo para cá, a vila está muito abandonada. Foi regredindo bastante”, desabafa.
Ruas esburacadas e insegurança marcam o cotidiano
Amauri Carlos Amaro, comerciante há duas décadas na Vila Progresso, também presenciou as transformações. Ao chegar, a área era predominantemente de mato e pouca ocupação. “Mudou muita coisa, aqui era mato, agora é tudo indústria. Melhorou bem”, afirma. No entanto, ele aponta problemas crônicos que afetam o dia a dia. “Agora, o nosso problema são os buracos. Não dá para sair de carro direito, a situação está feia”, relata.
A mudança para uma área mais comercial, segundo Amauri, afastou os moradores. “Tem poucas casas. Muitos abandonaram ou venderam porque não dá para morar. Muita gente foi embora”, explica. A sensação de insegurança também é um fator preocupante. “É muita roubalheira. Aqui nas indústrias mesmo é direto roubado. Já roubaram umas cinco, seis vezes”, conta. Questionado sobre o progresso da região, ele é direto: “Está parado no tempo. Não está como o povo fala, não”. Apesar disso, acredita que a solução depende da iniciativa pública: “Dava para melhorar, basta o poder público querer”.
Criminalidade persistente e o abandono sentido pelos comerciantes
José Prata, de 78 anos, dono de um depósito de reciclagem, compartilha experiências semelhantes. Chegou ao bairro por meio de um negócio e acabou fixando suas atividades ali. “Comprei uma borracharia de um amigo, fiquei cinco anos e depois abri a empresa de reciclagem”, conta. Mesmo com anos de atuação na região, José relata episódios frequentes de criminalidade. “Aqui tem muito ladrãozinho. Já fui assaltado três vezes. Aqui do lado, cinco, e o vizinho, duas”, afirma, destacando a repetição de ocorrências na vizinhança.
A situação é corroborada por outros comerciantes que preferem não se identificar, mas que relatam a sensação de vulnerabilidade e a falta de policiamento ostensivo. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a transformação do bairro em um polo industrial, embora tenha trazido atividade econômica, também atraiu problemas de segurança e mobilidade urbana, como o descaso com a manutenção das vias.
A Prefeitura responde: saúde regular e tapa-buracos na programação
Em resposta às queixas dos moradores, a Prefeitura de Campo Grande, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável (Semades), informou que a primeira fase do loteamento começou a ser desenvolvida em 1965, com aprovação em 1970, e as demais fases em 1972. Sobre os serviços públicos, a Prefeitura afirmou que a unidade de saúde do bairro mantém atendimento regular, com equipes completas e profissionais médicos vinculados, gerenciando eventuais ausências para reduzir impactos na assistência. Os agendamentos de consultas e exames seguem os fluxos e disponibilidades da rede.
Quanto aos problemas de infraestrutura, a administração municipal declarou que o serviço de tapa-buracos na Vila Progresso está na programação das equipes. A reportagem do Campo Grande NEWS buscou contato com a Prefeitura, mas obteve apenas a nota oficial sobre os serviços de saúde e a infraestrutura viária. A expectativa dos moradores é que essas promessas se traduzam em ações concretas, revertendo o quadro de estagnação e resgatando o verdadeiro significado de “Progresso” para o bairro, conforme noticiado pelo Campo Grande NEWS em reportagens anteriores sobre as demandas da população.

