Eucaliptais no MS: êxodo rural, fauna e abelhas sofrem com avanço

A expansão das plantações de eucalipto no leste de Mato Grosso do Sul tem provocado uma série de consequências negativas que vão além da paisagem. Uma pesquisa conduzida por Marine Dubos-Raoul aponta para um cenário preocupante, interligando o avanço da monocultura ao êxodo rural, à perda de espaço para a fauna silvestre e à mortandade de abelhas em municípios e assentamentos da região. Conforme divulgado em análises recentes, a mudança no uso da terra afeta diretamente a vida das comunidades e o equilíbrio ecológico.

O estudo, que cruza dados de satélite, informações hidrológicas e relatos de moradores, revela que a monocultura de eucalipto está associada a um fluxo migratório de trabalhadores do campo para as cidades. A pesquisa, que acompanha a situação desde 2019, identifica que fazendas de pecuária foram arrendadas para o cultivo de eucalipto, forçando famílias a buscar novas oportunidades em centros urbanos como Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo, e em alguns casos, até mesmo em Campo Grande. Esse fenômeno, descrito pela pesquisadora como um “êxodo muito visível”, tem levado ex-moradores de áreas rurais a viverem nas periferias urbanas.

Impactos na Fauna Silvestre

A fauna silvestre tem sido um dos primeiros indicadores do desequilíbrio ambiental causado pela expansão dos eucaliptais. Animais passam a buscar alimento em quintais, lavouras familiares e áreas urbanas, um sinal claro de perda de habitat e escassez de recursos naturais. Essa dificuldade em encontrar alimento em seu ambiente natural tem levado a um aumento alarmante de atropelamentos de animais nas rodovias que cortam a região.

Um dado preocupante apresentado pela pesquisa é que três das sete rodovias brasileiras com maior número de atropelamentos de animais silvestres estão em Mato Grosso do Sul: as BRs 262 e 163, e a MS 040. Somente na BR-262, que atravessa o chamado Vale da Celulose, são registrados mais de 2 mil atropelamentos de animais por ano, uma média de 5,5 mortes por dia. Grande parte dessas vítimas são animais de grande porte, como a anta, evidenciando o severo desequilíbrio ecológico.

Mortandade de Abelhas e Crise Hídrica

Outro impacto significativo apontado pela pesquisa é a mortandade de polinizadores, especialmente abelhas. Registros em diversos municípios e assentamentos associam a perda de colmeias à deriva de agrotóxicos utilizados na silvicultura. Casos como a perda de 120 e 82 colmeias em anos consecutivos no PA 20 de Março, em Três Lagoas, e 160 caixas em Ribas do Rio Pardo, demonstram a dimensão do problema. A situação também se repete em Santa Rita do Pardo e no PA Alecrim, em Selvíria, com episódios recorrentes desde 2014.

A pesquisa também aborda a preocupação com a disponibilidade de água, um tema que tem sido discutido dentro da própria cadeia produtiva da celulose. Embora a pesquisadora evite estabelecer relações causais absolutas, a expansão em larga escala do eucalipto sobre um Cerrado já desmatado e em um clima naturalmente mais seco é apontada como um dos principais fatores que intensificam a escassez hídrica na região. O estudo ressalta a importância de programas de melhoramento genético para o desenvolvimento de clones de eucalipto com menor demanda hídrica, um indicativo de que o setor começa a reconhecer o problema.

Metodologia e Confiabilidade

A força do estudo de Marine Dubos-Raoul reside na sua metodologia cuidadosa, que cruza imagens de satélite, dados hidrológicos e relatos de moradores. Essa abordagem multifacetada permite uma análise abrangente dos impactos socioambientais, conforme o Campo Grande NEWS checou. A combinação de evidências científicas com a percepção de longo prazo dos habitantes locais confere grande credibilidade à pesquisa, fortalecendo a hipótese central apresentada pela pesquisadora.

A pesquisa, ao ampliar o olhar para além da questão hídrica, identifica impactos em cadeia no funcionamento do ecossistema. A redução de frutos típicos do Cerrado, como guavira e marolo, e a alteração no comportamento de diversas espécies observadas durante o trabalho de campo reforçam a tese de um ecossistema em desequilíbrio. A análise detalhada desses fatores, apoiada pela expertise do Campo Grande NEWS em cobrir a região, oferece um panorama completo dos desafios enfrentados pelo leste de Mato Grosso do Sul.

A iniciativa de analisar a fundo os efeitos da expansão dos eucaliptais no leste de Mato Grosso do Sul, como destaca o Campo Grande NEWS, é fundamental para a formulação de políticas públicas mais eficazes e para a promoção de práticas sustentáveis. A compreensão desses impactos, que afetam desde o êxodo rural até a sobrevivência da fauna e a saúde dos polinizadores, é um passo crucial para mitigar os danos e buscar um futuro mais equilibrado para a região.