Um trecho de aproximadamente 100 metros da Rua Allan Kardec, no Bairro Amambaí, em Campo Grande, que por mais de cinco décadas homenageou o pai do espiritismo, passará a se chamar Alameda Eliseu Feitosa de Alencar. A alteração, que visa homenagear o fundador da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Mato Grosso do Sul (IEADMS), foi aprovada pela Câmara Municipal, apesar de um parecer contrário da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. A decisão tem gerado repercussão entre os moradores, que em sua maioria afirmam não ter sido consultados sobre a mudança, enquanto membros da igreja defendem a homenagem ao seu fundador, cuja denominação está instalada no local há décadas. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a proposta dividiu opiniões e levantou discussões sobre a relação entre o poder público e instituições religiosas.
Mudança de nome gera polêmica
A alteração, aprovada na última quinta-feira (9) pela Câmara Municipal, restringe-se à quadra entre a Rua Barão do Rio Branco e a Avenida Doutor João Rosa Pires, onde se localiza o templo matriz da IEADMS. O projeto enfrentou um parecer contrário da Semades, que alertou sobre possíveis impactos administrativos, especialmente na numeração dos imóveis. No entanto, os vereadores Herculano Borges (Republicanos) e Clodoilson Pires (Podemos) defenderam a aprovação.
Ao visitar o local, a reportagem do Campo Grande NEWS constatou que a placa com o nome antigo da rua ainda estava no lugar. Diversos moradores relataram ter tomado conhecimento da mudança apenas após serem procurados pela equipe de reportagem, demonstrando surpresa e, em alguns casos, insatisfação pela falta de consulta pública.
Moradores relatam falta de consulta
Ulda Fernandes dos Santos, aposentada e moradora da Rua Allan Kardec há seis anos, expressou sua surpresa. “Em casa, ninguém está sabendo disso. Acho que, por ser uma coisa pública, deveria ser comunicado aos moradores para saber se concordam ou não. Ninguém falou nada com a gente”, declarou. Ela ressaltou a importância de ser informada e de entender os motivos da homenagem.
O psicólogo Mateus Vilalba Defende Petuco, que reside na via há 22 anos, compartilha da mesma opinião. “Não muda a nossa vida, mas acho importante que os moradores sejam consultados sobre decisões que envolvem a comunidade”, afirmou. Ele também pontuou a necessidade de maior separação entre o Estado e as instituições religiosas em um país laico.
Igreja defende homenagem ao fundador
Representantes da IEADMS, por sua vez, consideram a mudança um justo reconhecimento ao fundador Eliseu Feitosa de Alencar. O pastor Jorcelino Pereira Nantes assegurou que a proposta não tem motivação religiosa contra o nome anterior. “Não tem nada a ver. Nós não temos nada contra. Cada um cuida da sua parte e respeitamos todas as pessoas. Surgiu apenas a necessidade de homenagear o nosso presidente fundador”, explicou.
Segundo o pastor, a igreja ocupa o local há cerca de cinco décadas e a maioria dos imóveis na área pertence à congregação. “Os poucos vizinhos que não fazem parte da congregação concordaram com a homenagem”, garantiu. A substituição oficial da placa ainda aguarda autorização da prefeitura.
Vereadores defendem projeto
O vereador Herculano Borges, autor do projeto junto com Clodoilson Pires, explicou que a proposta surgiu após a apresentação de um abaixo-assinado por membros da igreja. “Na verdade, não estamos mudando o nome da rua. Estamos criando uma alameda naquele trecho específico. O restante continua sendo Rua Allan Kardec”, esclareceu.
Borges considerou a homenagem justa, destacando o papel de Eliseu Feitosa na história da igreja e da região. “Foi uma forma de valorizar uma pessoa que fez história na cidade. Tenho respeito por Allan Kardec e por todas as religiões. Isso não é uma afronta a ninguém”, afirmou. Ele também mencionou que vereadores espíritas votaram a favor após a explicação da proposta, reforçando o respeito às diversas crenças.
O vereador ainda comentou o parecer da Semades, classificando-o como um procedimento padrão em projetos de alteração de nomenclatura, e reiterou que o abaixo-assinado continha, em sua maioria, assinaturas de membros da Assembleia de Deus, incluindo os pastores Eliel Araújo de Alencar e Felipe Augusto Neto, solicitantes da mudança.

