A popular reforma trabalhista que visa acabar com a escala 6×1, onde trabalhadores atuam seis dias para folgar um, pode ter um efeito cascata inesperado nos bolsos dos brasileiros. Em especial, o setor de transporte público, como os ônibus urbanos, alerta que o fim dessa modalidade de trabalho pode levar a um aumento de até 8% nas tarifas. A questão central reside no aumento dos custos operacionais para empresas que precisam garantir o funcionamento contínuo de seus serviços, levantando um debate sobre quem arcará com os custos dessa mudança.
Entenda o impacto da nova lei nas passagens de ônibus
A proposta de limitar a jornada semanal a 40 horas, com dois dias de descanso e sem redução salarial, tem ganhado força no país. Contudo, para serviços essenciais que operam 24 horas por dia, sete dias por semana, como é o caso dos ônibus, a adaptação a essa nova regra exige um planejamento mais complexo e, consequentemente, maiores despesas. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, empresas de transporte urbano são as que mais expressam preocupação.
Por que o fim do 6×1 pode encarecer o transporte?
O cerne do problema está na natureza do serviço de transporte público. Ônibus precisam circular diariamente para atender à demanda da população, o que impede que as empresas simplesmente redistribuam as horas de trabalho como fariam em escritórios. A necessidade de cobrir todos os turnos com menos dias de trabalho por motorista implica em uma contratação de mais pessoal.
Um estudo de um setor, compartilhado pelo Campo Grande NEWS, estima que uma operação com 100 ônibus, ao migrar para uma semana de cinco dias, necessitaria de aproximadamente 25% mais motoristas. Esse aumento de quadro de funcionários impacta diretamente a folha de pagamento, que representa cerca de metade dos custos operacionais das empresas. A projeção é de um aumento de 13% a 15% nos gastos com pessoal.
Um instituto público de pesquisa corrobora essa análise, indicando que o custo por hora trabalhada no transporte terrestre pode crescer perto de 9% com a jornada reduzida. Serviços que funcionam ininterruptamente, como segurança privada e coleta de lixo, também preveem um cenário de custos elevados, pois a exigência de pessoal para cobrir todos os horários se mantém.
Aumento da tarifa não é automático
É crucial entender que o aumento das passagens de ônibus não é uma decisão unilateral das empresas. Por se tratar de um serviço público, as tarifas são reguladas pelos governos municipais. Qualquer solicitação de reajuste passa por um processo rigoroso, onde as empresas apresentam estudos de custos, os órgãos reguladores analisam as informações e, por fim, a autoridade pública toma a decisão final.
As prefeituras, nesse contexto, possuem algumas alternativas. Podem aprovar o aumento da tarifa, expandir os subsídios públicos para cobrir a diferença de custos, ou simplesmente rejeitar o pedido de reajuste. Em muitas cidades brasileiras, o valor pago pelo passageiro já é inferior ao custo real do serviço, com as prefeituras complementando a diferença por meio de subsídios.
O impacto, caso haja aumento, também não seria imediato. A reforma trabalhista ainda precisa ser aprovada pelo Senado e promulgada para entrar em vigor, e mesmo após sua implementação, os efeitos nas tarifas tendem a se manifestar gradualmente. Antes de considerar um aumento, as empresas podem explorar outras estratégias, como a revisão de escalas, a redução de horas extras e a reorganização de rotas, a fim de mitigar o impacto financeiro.
Para o cidadão comum, a conclusão é prática: a extensão do impacto da reforma trabalhista nas tarifas de ônibus dependerá, em grande parte, das decisões políticas e financeiras de cada município. A proximidade das eleições municipais em outubro pode influenciar essas escolhas, com muitos prefeitos relutantes em aprovar aumentos de tarifas no curto prazo, o que torna os subsídios uma solução mais provável, conforme o Campo Grande NEWS verificou.
Esses subsídios, embora poupem o passageiro no momento, transferem o custo para o orçamento da cidade, alimentando o debate mais amplo sobre quem deve arcar com os custos da jornada de trabalho reduzida. Grupos empresariais defendem uma implementação cuidadosa da reforma, preferencialmente após as eleições, enquanto os defensores da medida a encaram como uma conquista histórica para os trabalhadores.
O que dizem os operadores e qual o futuro das tarifas?
Operadores de transporte estimam que, se os custos adicionais forem integralmente repassados, as tarifas de ônibus podem subir em até 8%. No entanto, a palavra final cabe aos governos municipais, que podem optar por aumentar os subsídios ou negar o reajuste. Portanto, o aumento não é garantido nem imediato. A reforma, que já passou pela Câmara dos Deputados, ainda aguarda aprovação do Senado e, posteriormente, sua promulgação para entrar em vigor, com um período de transição previsto.


