Incubadoras municipais abandonadas: prédios viram ruínas e prefeitura promete novo uso

As antigas incubadoras municipais de Campo Grande, que um dia foram centros de fomento ao empreendedorismo, agora se transformaram em verdadeiros fantasmas urbanos. Três dos quatro prédios que abrigavam estas iniciativas estão abandonados, com vidraças quebradas, mato alto e sinais evidentes de depredação. A prefeitura justifica o fim do modelo de incubação física pela migração dos negócios para o ambiente digital e afirma que os imóveis serão reaproveitados por outras secretarias municipais, como Saúde e Assistência Social. As Salas do Empreendedor, no entanto, serão mantidas nos quatro locais.

Prédios abandonados: um cenário de descaso em Campo Grande

Uma reportagem do Campo Grande News visitou os quatro imóveis nesta segunda-feira (13) e constatou a situação alarmante. No Bairro Estrela Dalva, a Incubadora Francisco Giordano Neto, que focava em tecnologia, apresentava porta quebrada e vegetação avançada. Uma placa desbotada indicava uma reforma orçada em R$ 696.608,59, mas sem registro de início da obra. O cenário se repete no Bairro Mário Covas, onde portas de vidro quebradas e danos na recepção contrastam com uma reforma realizada em 2023. O mato alto domina o terreno adjacente à Unidade de Saúde da Família local.

Moradores relatam o descaso. Rafaela da Silva, 25 anos, universitária, conta que nunca viu o local em funcionamento e lamenta a depredação. “Quando mudamos para cá, minha mãe ficou feliz ao ver a incubadora, porque sempre quis abrir o próprio negócio. Mas nunca vimos esse espaço aberto e agora ele começou a ser depredado”, relata. Bernadete de Freitas, 61 anos, líder comunitária, afirma que a situação levou à elaboração de um ofício ao senador Nelsinho Trad, solicitando emenda parlamentar, já que a incubadora foi inaugurada em sua gestão.

“Aqui os vândalos acabaram com tudo, está tudo destruído. O posto de saúde ao lado também tem sido alvo de furtos constantes. A população me cobra, mas a gente não sabe nem que caminho seguir”, desabafa Bernadete. Ela lembra que o espaço oferecia cursos e atendia empresas têxteis. “Tinha tudo e, de repente, acabou. É de dar dó. Hoje atendo moradores na minha casa porque não temos Centro Comunitário”, completa.

Incubadora em ruínas no Santa Emília: mais de R$ 400 mil em reforma sem efeito

A situação mais crítica é encontrada no Bairro Santa Emília. Vidros quebrados e portão aberto dão a dimensão do abandono. Em 2023, um contrato de R$ 435,5 mil foi publicado para a reforma do prédio, mas o comerciante Dilso Lima, 63 anos, afirma que o imóvel está desocupado há cerca de cinco anos. “Quebraram tudo, não sobrou nada lá dentro. Alunos entram e depredam. É ridículo, porque gastaram mais de R$ 400 mil numa reforma que não aconteceu”, critica.

A incubadora Norman Edward Hanson, que atendia o segmento de produtos alimentícios, era um polo de atividades. Dilso recorda: “Tinha cursos, pessoal vendia mel e outros produtos. Funcionava bem”, diz. A falta de manutenção e a ação de vândalos transformaram o local em um cenário de destruição, levantando questionamentos sobre a aplicação dos recursos públicos.

Única incubadora ativa abriga CRAS e Sala do Empreendedor

No Bairro Zé Pereira, a única incubadora que ainda tem alguma atividade funciona como CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) desde janeiro deste ano. Embora não opere mais como incubadora, o prédio mantém ativa a Sala do Empreendedor, conforme informou uma servidora, que confirmou a responsabilidade da SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social) pelo espaço. A reportagem do Campo Grande NEWS aguarda retorno da prefeitura sobre os detalhes da cessão de uso dos demais imóveis.

A prefeitura de Campo Grande, em nota enviada ao Campo Grande NEWS, explicou que o modelo de incubação física perdeu a finalidade devido à ascensão do comércio eletrônico. Para evitar o abandono, os prédios estão sendo cedidos a outras secretarias. As unidades dos bairros Santa Emília e Mário Covas já tiveram a cessão oficializada, enquanto Estrela Dalva e Zé Pereira estão em fase final de documentação. As secretarias responsáveis pelos imóveis, que deverão atender demandas da SAS e da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), ficarão encarregadas das reformas e da manutenção.

Não há previsão para a reativação das incubadoras físicas ou implantação de novas estruturas nesse formato. Contudo, o município garante que as Salas do Empreendedor continuarão funcionando nos quatro prédios, oferecendo apoio técnico e digital descentralizado aos empreendedores da região, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.