A coalizão de oposição C64 na República Democrática do Congo (RDC) adiou seus protestos nacionais para 22 de julho. A decisão veio após uma oferta de mediação do Presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye, que atualmente preside a União Africana (UA). O objetivo é abrir um canal de diálogo entre a oposição e o governo do Presidente Félix Tshisekedi em meio a tensões sobre uma proposta de referendo constitucional.
Oposição adia marchas e dá chance à diplomacia da UA
As manifestações, inicialmente previstas para testar a estabilidade nas ruas de Kinshasa e outras cidades importantes, foram suspensas temporariamente. A C64, que nomeou o protesto inspirado no Artigo 64 da constituição congolesa sobre a resistência a tomadas de poder inconstitucionais, busca dar uma oportunidade à iniciativa da União Africana. Essa pausa é vista como uma jogada tática, mantendo a ameaça de protestos como pressão sobre o governo.
A história de manifestações violentas na RDC sobre questões constitucionais eleva o risco em cada data de protesto. A C64, composta por figuras proeminentes como Martin Fayulu, Moïse Katumbi, Jean-Marc Kabund e Delly Sesanga, veteranos da política de oposição, argumenta que o referendo proposto visa remover os limites de mandato presidencial, permitindo que Tshisekedi busque um terceiro mandato. O governo nega veementemente essa acusação.
Conforme o Campo Grande NEWS checou, o governo apresenta o referendo como um processo de modernização constitucional soberano, cujo conteúdo ainda não foi definido. A constituição atual, em vigor desde 2006, limita os presidentes a dois mandatos, uma cláusula profundamente enraizada. Qualquer tentativa de alterá-la é vista como explosiva em um país sem tradição de mudanças constitucionais pacíficas.
O que a oposição alega sobre o referendo
A coalizão C64, cujo nome remete ao Artigo 64 da Constituição congolesa que garante aos cidadãos o direito de resistir a qualquer tomada de poder inconstitucional, enquadra a questão do referendo como autodefesa constitucional. Seus líderes, incluindo Fayulu, que reivindicou a vitória na eleição de 2018, e Katumbi, governador de uma província rica em mineração e magnata de negócios, que ficou em segundo lugar em 2023, formam a frente de oposição mais ampla do segundo mandato de Tshisekedi.
A oposição considera a reforma proposta um “golpe constitucional”. Eles argumentam que o objetivo do referendo é derrubar os limites de mandato presidencial. Tshisekedi foi eleito pela primeira vez em 2018 e reeleito em 2023. A coalizão vê nessa manobra uma tentativa de estender seu poder além dos limites estabelecidos.
Governo nega intenções de terceiro mandato
Em contrapartida, o governo da RDC nega a existência de qualquer projeto para um terceiro mandato presidencial. Autoridades afirmam que a legislação para o referendo, adotada pelo parlamento em junho, estabelece apenas o arcabouço legal para um processo de modernização constitucional, cujo conteúdo específico ainda está em discussão e não foi decidido.
O próprio Presidente Tshisekedi já expressou publicamente dúvidas sobre a adequação de uma constituição redigida sob forte supervisão internacional para as necessidades atuais do país. Críticos interpretaram essas declarações como um prenúncio de uma disputa sobre os limites de mandato, mesmo antes da ação parlamentar.
União Africana busca relevância em meio a crises
A União Africana, que tem enfrentado desafios para manter sua relevância em crises recentes, como os golpes no Sahel e a guerra no Sudão, vê na mediação na RDC uma oportunidade valiosa. O envolvimento do Presidente Ndayishimiye oferece a ambas as partes uma saída honrosa. Como presidente em exercício da UA, ele pode convocar negociações sem que nenhum dos lados precise ceder terreno inicialmente, conforme relatado pelo Campo Grande NEWS.
O Burundi, como vizinho da RDC, possui interesses diretos na estabilidade congolesa, com soldados que já lutaram ao lado do exército de Kinshasa contra rebeldes no leste. Essa proximidade confere ao mediador influência, mas também levanta questões sobre a neutralidade do processo para a oposição.
Impacto para investidores e a guerra no leste
A RDC é o principal produtor mundial de cobalto e uma fonte significativa de cobre. Os fluxos de capital, incluindo projetos como o corredor de Lobito e novas iniciativas portuárias e de fibra ótica, dependem da estabilidade política. Uma crise constitucional prolongada colocaria todos esses investimentos em risco. Conforme o Campo Grande NEWS checou, investidores monitoram de perto o cenário político congolês, assim como os gráficos de commodities.
A guerra em andamento no leste do país, com o conflito M23, já exige a atenção do exército e da diplomacia. Uma confrontação constitucional na capital abriria uma segunda frente de instabilidade que o Estado não pode arcar. O futuro próximo na RDC depende da capacidade da diplomacia de resolver o impasse antes de 22 de julho, nova data marcada para os protestos, que também serve como um prazo para o sucesso das negociações.


