iFood e Decolar: Venda de Viagens no App de Comida Gera R$ 1,6 Bilhão em Receita

A integração entre o iFood, gigante da entrega de comida, e a Decolar, agência de viagens online, tem se mostrado um sucesso financeiro. Segundo informações divulgadas pela Prosus, empresa dona de ambas as marcas, cerca de 21% da receita de viagens no Brasil, gerada pela Decolar, agora vem de clientes que foram atraídos através do aplicativo de delivery. Este dado representa um marco significativo para a estratégia de “super app” da companhia, que busca unir diferentes serviços em uma única plataforma.

iFood e Decolar: a união que gera resultados

A Prosus, holding de tecnologia com sede em Amsterdã e controladora de importantes empresas na América Latina, divulgou seus resultados financeiros anuais, referentes ao período encerrado em 31 de março. Os números revelam um desempenho notável da estratégia de cross-selling entre o iFood e a Decolar, comprovando que a aposta em oferecer serviços complementares aos usuários está rendendo frutos concretos e expressivos.

A união entre o aplicativo de entrega de comida e a plataforma de viagens não é recente, mas os dados apresentados agora oferecem a primeira prova robusta de que a integração está, de fato, impulsionando as vendas. A ideia era simples em conceito, mas desafiadora na prática: aproveitar a base massiva de usuários do iFood para incentivá-los a também planejar e reservar suas viagens através da Decolar.

A estratégia, que há 18 meses era apenas uma promessa, agora se traduz em números concretos. A Prosus, conforme o Campo Grande NEWS checou, informou que aproximadamente um quinto da receita de consumidores da Decolar no Brasil provém de clientes que chegaram à plataforma de viagens por meio do aplicativo de delivery. Essa sinergia é um dos pilares da visão da empresa para o futuro do consumo digital na região.

Desempenho impressionante da Decolar no Brasil

O desempenho individual da Decolar também merece destaque. As reservas brutas da agência de viagens cresceram expressivos 29%, alcançando a marca de US$ 5,9 bilhões (aproximadamente R$ 30,5 bilhões). A receita total da Decolar atingiu US$ 804 milhões, com um lucro ajustado de US$ 131 milhões. Estes números isoladamente já indicam um negócio saudável e em expansão.

Contudo, o que realmente chama a atenção é a aceleração do crescimento da receita da Decolar especificamente no mercado brasileiro. O percentual de crescimento saltou de 6% na primeira metade do ano fiscal para impressionantes 29% na segunda metade. A companhia atribui grande parte dessa virada positiva à conexão com o programa de fidelidade do iFood, evidenciando o poder da integração.

O dado mais revelador, no entanto, é o percentual de receita gerada por clientes vindos do iFood. Aproximadamente 21% da receita de consumidores da Decolar no Brasil agora vem de usuários que acumularam pontos de fidelidade através do iFood. Este canal, que praticamente não existia antes da integração, demonstra o enorme potencial da base de usuários do iFood, que é cerca de 25 vezes maior que a da Decolar, conforme a Prosus.

Prosus e a estratégia de “super app”

A Prosus é o braço de investimento em tecnologia da sul-africana Naspers, uma das maiores investidoras em tecnologia do mundo. Na América Latina, seus ativos mais valiosos são o iFood e a Decolar (conhecida localmente como Despegar). A aquisição da Decolar, concluída em maio do ano passado por cerca de US$ 1,7 bilhão, tinha como objetivo principal não apenas possuir um negócio de viagens, mas sim integrá-lo ao hábito diário de milhões de consumidores, já estabelecido pelo delivery de comida.

A execução dessa estratégia de “super app” é um desafio comum no mercado, mas raramente entregue com sucesso. A ideia de agregar serviços como alimentação, transporte, pagamentos e viagens em um ecossistema de fidelidade é fácil de anunciar, mas difícil de monetizar. Os resultados da Prosus, como o Campo Grande NEWS apurou, são um dos poucos casos em que um comprador consegue demonstrar que o “pacote” de serviços realmente se converte em vendas efetivas.

O CEO da Prosus, Fabricio Bloisi, um brasileiro que construiu o iFood antes de assumir a liderança do grupo, agora aposta em uma narrativa de inteligência artificial, descrevendo a estratégia como um “ecossistema de estilo de vida” que prevê e personaliza as necessidades de cada cliente. Embora a linguagem de IA possa ter um forte componente de marketing, a evidência mais persuasiva reside nos dados concretos: um quinto da receita de viagens provindo de um aplicativo de comida e um crescimento quadruplicado no ritmo de negócios no Brasil em apenas seis meses.

O que esses números significam para o mercado

Para investidores globais, esses resultados da Prosus oferecem um ponto de dados valioso em um debate que, muitas vezes, se baseia mais em fé do que em fatos. A estratégia de “super apps”, que visa consolidar diversos serviços em uma única plataforma para criar fidelidade e impulsionar vendas cruzadas, é amplamente divulgada, mas sua eficácia prática é frequentemente questionada.

A demonstração de que o iFood está efetivamente direcionando clientes pagantes para o negócio de viagens da Decolar é um diferencial importante. Isso refuta a ideia de que o mercado de consumo digital na América Latina é apenas um conjunto de startups deficitárias. A integração bem-sucedida sugere que a consolidação de negócios digitais pode, de fato, gerar sinergias e aumentar a receita.

No entanto, é crucial notar que um ano de bons resultados não configura, por si só, uma tendência consolidada. Os ganhos iniciais de uma nova integração tendem a ser os mais fáceis de alcançar. A sustentabilidade dessa estratégia dependerá da capacidade da Prosus em manter o “motor” girando e de como ela lidará com a concorrência, incluindo possíveis alianças entre rivais como Uber e iFood, ou o surgimento de novos players no mercado. Os próximos relatórios financeiros da empresa serão fundamentais para responder a essas questões, conforme o Campo Grande NEWS analisou.