Perigo em casa: feminicídios ocorrem à noite e em relacionamentos, revela mapa

O lar, que deveria ser um refúgio seguro, tem se tornado o palco de tragédias para muitas mulheres. Um alarmante levantamento do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), divulgado no Mapa do Feminicídio 2026, revela que a maioria dos assassinatos de mulheres no estado ocorre dentro de casa, durante a noite e, em muitos casos, pelas mãos de seus próprios companheiros ou ex-companheiros. Essa realidade desmistifica a ideia de que o perigo está apenas nas ruas, mostrando que o ambiente doméstico e as relações afetivas são os locais de maior risco.

Os dados do MPMS, conforme informação divulgada pelo Campo Grande NEWS, apontam um aumento de 23% nos casos de feminicídio, consumados e tentados, em Mato Grosso do Sul entre janeiro e maio de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Mais de 80% dos crimes foram cometidos por parceiros íntimos ou ex-parceiros, e surpreendentemente, metade dos assassinatos ocorreu dentro da residência da vítima, frequentemente durante o período noturno, quando se esperaria maior segurança.

O lar como cenário do crime

A pesquisa do MPMS destaca uma combinação de fatores que tornam o ambiente doméstico particularmente perigoso. Metade dos feminicídios analisados aconteceu durante a noite, um período em que as vítimas e seus agressores geralmente compartilham o mesmo espaço. Outros 33,3% dos crimes ocorreram à tarde e 16,7% pela manhã. A residência compartilhada pelo casal foi o local de 50% dos assassinatos, enquanto vias públicas representaram 16,7% dos casos.

O perfil dos autores reforça a conexão direta entre feminicídio e violência doméstica. Mais de 80% dos assassinatos foram perpetrados por companheiros ou ex-companheiros, evidenciando o chamado “ciclo de controle e posse” que muitas vezes precede a violência letal. Essa constatação é crucial para entender que o perigo muitas vezes emana de quem deveria oferecer proteção.

Facas, o instrumento preferido dos agressores

A arma branca continua sendo o instrumento mais utilizado pelos assassinos em Mato Grosso do Sul. De acordo com o Mapa do Feminicídio, facas e outros objetos cortantes foram empregados em 28 casos, representando 47% dos registros analisados. Em seguida, aparecem atropelamentos, armas de fogo e asfixia ou estrangulamento como métodos utilizados para tirar a vida das mulheres.

Conforme o Campo Grande NEWS checou, 12 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado até maio de 2026. As vítimas tinham idades variadas, entre 18 e 74 anos, e foram assassinadas em diversas cidades, como Bela Vista, Corumbá, Coxim, Três Lagoas, Ponta Porã, Anastácio, Paranhos, Selvíria, Campo Grande, Eldorado, Mundo Novo e Dourados. Cada número nas estatísticas representa uma história de vida interrompida, muitas vezes de forma brutal.

Histórias que chocam e alertam

As estatísticas ganham rosto e dor nas histórias de mulheres que perderam a vida justamente onde deveriam estar seguras. Exemplos trágicos incluem Liliane de Souza Bonfim Duarte, enfermeira de 52 anos, morta em Ponta Porã pelo próprio marido com uma marreta, dias após uma agressão. Vera Lúcia da Silva, de 41 anos, foi assassinada em Eldorado pelo ex-companheiro, com tiros no quintal de sua casa, na frente da filha de 9 anos.

Outro caso chocante é o de Beatriz Benevides da Silva, de apenas 18 anos, que foi morta em Três Lagoas na madrugada de 25 de fevereiro, em seu novo apartamento, onde planejava recomeçar a vida com o namorado, que confessou o crime. Esses relatos, documentados pelo Campo Grande NEWS, reforçam a urgência de políticas eficazes de combate à violência doméstica e de proteção às mulheres.

A falha na proteção: medidas protetivas insuficientes

Um dado alarmante é que mais de 80% das vítimas não possuíam medida protetiva de urgência ativa no momento em que foram assassinadas. Este índice evidencia um dos maiores desafios enfrentados pela rede de proteção: garantir que mulheres em situação de violência busquem ajuda e que as medidas de proteção sejam efetivas e cumpridas, impedindo que as agressões evoluam para desfechos fatais.

Durante o lançamento da campanha “Você Merece um Amor Leve”, promovida pelo MPMS, foi ressaltada a importância da informação e da conscientização para romper ciclos de violência. Especialistas alertam para sinais de relacionamentos abusivos, como controle excessivo, ameaças, humilhações e isolamento social, comportamentos que muitas vezes são erroneamente interpretados como demonstrações de afeto. A identificação precoce desses sinais é fundamental para a prevenção do feminicídio.

Em caso de emergência ou necessidade de denúncia, as mulheres podem acionar a Polícia Militar pelo telefone 190 ou a Guarda Civil Metropolitana pelo 153. A Central 180 funciona 24 horas, gratuitamente, e as ligações podem ser anônimas. Buscar orientação na Ouvidoria do MPMS pelo canal 127 ou procurar a Promotoria de Justiça mais próxima também são opções importantes para obter apoio e proteção.