Servidora refém em golpe: ‘Eu precisava ser calma para sobreviver’

Vítima é feita refém em golpe e relata terror nos momentos de cativeiro

Uma aposentada de 74 anos, ex-servidora do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, viveu momentos de puro pânico ao ser feita refém por dois golpistas. Ela foi levada pelos criminosos até uma agência bancária para simular a liberação de um empréstimo, mas utilizou a oportunidade para pedir socorro. A ação orquestrada resultou na prisão de Maikon José Kolberg, de 35 anos, e Elton Rodrigues Lima, de 65, suspeitos de integrar uma quadrilha especializada no golpe do bilhete premiado. A vítima, que prefere não se identificar, relatou ao Campo Grande News a angústia de não saber se sairia viva da situação.

A idosa, que morou por 25 anos em Campo Grande, decidiu deixar a cidade após o trauma. “Eu não sabia se sairia dali viva ou morta”, desabafou. Ela busca corrigir a impressão de que foi atraída pela promessa de um bilhete premiado. “Foi a fragilidade da pessoa que estava procurando ajuda e que me pediu informação”, explicou, ressaltando que não joga loteria e possui estabilidade financeira com duas aposentadorias e renda de aluguel.

O golpe começou quando a aposentada acompanhava uma prima em uma clínica médica. Ela foi abordada por um homem idoso que alegava ter ganhado um prêmio e precisava de ajuda com um documento. Logo, outro indivíduo se juntou à conversa, tornando-se cada vez mais insistente e sedutor, segundo a vítima. A situação escalou rapidamente, e a aposentada foi levada para sua residência, onde os criminosos, acreditava a investigação, levaram cerca de R$ 40 mil em dinheiro e dólares.

Estratégia de sobrevivência: calma e conversa

Ao perceber que estava sob o domínio dos golpistas e que seu celular havia sido confiscado, o medo tomou conta da aposentada. Ela suspeitou que outros criminosos poderiam estar envolvidos e que eles poderiam estar armados. Em vez de reagir, optou pela cautela e pela estratégia. “Eu precisei ser muito calma. Eu não chorei. Conversava normalmente”, contou. Ela buscou manter a confiança dos assaltantes, falando sobre assuntos aleatórios e religião.

Enquanto os criminosos planejavam obter ainda mais dinheiro, a aposentada arquitetava seu plano de fuga. Ela se lembrou de um financiamento pré-aprovado para a construção de uma casa em Dourados, onde mora seu filho. Inventou uma história sobre um valor a ser liberado pelo Tribunal de Justiça e simulou uma ligação para confirmar a liberação do dinheiro.

O pedido de socorro na agência bancária

A história convenceu os golpistas, que aceitaram acompanhá-la até uma agência da Caixa Econômica Federal localizada no prédio do Tribunal de Justiça. No entanto, a ida ao banco era a oportunidade que a vítima esperava para pedir ajuda. Ao entrar na agência, ela conseguiu avisar discretamente os funcionários sobre a situação de golpe. A movimentação chamou a atenção da segurança do Tribunal, que acionou a Polícia Militar.

A percepção da chegada das equipes policiais levou os criminosos a interromperem a simulação do empréstimo. Eles obrigaram a aposentada a retornar ao carro e iniciaram uma fuga em alta velocidade pelo Parque dos Poderes. Durante a perseguição, os pneus do veículo foram atingidos por disparos, mas os assaltantes continuaram em fuga, com a vítima ainda no interior do carro. “Você está dentro de um carro pressionada, a polícia atirando no pneu, a polícia atirando no asfalto, e você ali dentro sem saber se vai sair viva ou morta”, relatou a aposentada, descrevendo o momento de extremo perigo.

Fuga frustrada e prisão dos criminosos

A perseguição só terminou quando o veículo foi abandonado próximo a uma área de mata. Os suspeitos tentaram fugir a pé pela vegetação, dando início a uma intensa operação policial que envolveu equipes do Bope, Batalhão de Choque, Garras, policiais militares e setores de inteligência. Drones foram utilizados para vasculhar a área até que os dois homens fossem localizados e presos. Conforme o Campo Grande News checou, todo o dinheiro roubado foi recuperado.

Aos 74 anos, a aposentada afirma que nunca havia passado por algo semelhante em sua longa trajetória como professora e servidora pública em diversas regiões do estado. O trauma, no entanto, permanece. “Hoje eu tenho medo até de dar informação para alguém na rua”, confessou. Ela não voltou a dormir sozinha em casa desde o resgate, e seu filho já organiza sua mudança para Dourados. Familiares fora do estado também a aguardam para um período de descanso.

Criminosos com histórico e atuação interestadual

Os presos foram identificados como Maikon José Kolberg, de 35 anos, e Elton Rodrigues Lima, de 65. De acordo com a Polícia Civil, ambos são investigados por integrar uma organização criminosa especializada no golpe do bilhete premiado e com atuação em vários estados do país. Maikon Kolberg havia saído da prisão há cerca de 30 dias e possuía um mandado de prisão em aberto, com ao menos oito registros por estelionato, além de passagens por associação criminosa e lavagem de dinheiro. Elton Rodrigues Lima possui antecedentes por estelionato e falsificação de documentos.

As investigações conduzidas pela Garras indicam que o grupo tem origem no Rio Grande do Sul e já era conhecido pelas forças de segurança de outros estados. Pelo menos uma outra vítima já reconheceu um dos suspeitos. A polícia segue trabalhando para identificar possíveis comparsas e outras ocorrências ligadas a essa quadrilha, conforme apurou o Campo Grande News. A atuação desses criminosos demonstra a necessidade de atenção constante contra golpes que exploram a boa-fé das pessoas.