Família nega venda de Lona Cultural em Campo Grande: ‘é nosso’

Família de fundador contesta prefeito

Uma polêmica tomou conta do cenário cultural da Zona Oeste do Rio. O anúncio do prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) sobre a compra da Lona Cultural Elza Osborne, em Campo Grande, foi imediatamente contestado pela família do fundador do espaço, Ives Macena, que faleceu no início de maio. Em uma carta aberta, os herdeiros e atuais gestores afirmaram que o local, um marco para a região, nunca esteve e não está à venda, gerando um grande debate sobre o futuro do equipamento cultural.

A declaração do prefeito, que apresentava a aquisição como uma resposta a uma demanda antiga da comunidade e de vereadores, pegou a todos de surpresa. Cavaliere afirmou que a prefeitura iria adquirir o espaço que, segundo ele, estaria “abandonado há muito tempo”.

No entanto, a família e artistas que mantêm o local em funcionamento refutaram a narrativa de abandono. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o espaço segue com uma agenda ativa, financiada por oficinas e eventos beneficentes, resistindo justamente à falta de apoio do poder público municipal.

“O teatro não está à venda, prefeito”

A reação ao anúncio de Cavaliere foi rápida e contundente. O vereador William Siri (PSOL) usou as redes sociais para criticar a postura da prefeitura. “O Teatro de Arena de Campo Grande não está à venda prefeito Eduardo Cavaliere, até porque, pra você comprar alguma coisa, tem que falar primeiro com o dono, e vocês não fizeram isso”, declarou o parlamentar.

Siri destacou que a Lona Cultural sobrevive graças à resistência da família de Ives Macena e dos artistas locais, que recentemente realizaram melhorias no local, como a troca da lona, através de uma parceria com a UFRRJ. Ele acusou a prefeitura de tentar “resolver um problema que vocês mesmos criaram” após anos de abandono e dívidas deixadas pela gestão municipal.

O vereador defende que, em vez de tentar comprar um espaço privado que não está disponível, a prefeitura deveria investir na criação de novos equipamentos culturais, uma carência histórica da Zona Oeste, a região mais populosa da cidade.

Carta aberta expõe histórico de conflito

Em resposta direta ao prefeito, os filhos de Ives Macena e atuais gestores do espaço, Ives Pierini e Christian Pierini, publicaram uma carta aberta. No documento, eles reafirmam que o terreno onde a lona está instalada é propriedade da família. “O terreno em que nos encontramos é nosso e não da prefeitura”, diz um trecho da carta.

Eles revelam que o conflito com a prefeitura não é recente. Segundo os gestores, a polêmica começou com uma “proposta indecente” do ex-secretário de Cultura, Marcus Faustini, que teria sugerido a desapropriação do terreno para a construção de uma nova lona, cuja gestão seria licitada. Com a recusa da família, o espaço foi excluído da Rede Municipal de Teatros, perdendo qualquer subvenção.

A carta, apurada pelo Campo Grande NEWS, afirma que a medida foi mantida pelo sucessor de Faustini, Marcelo Calero. “Havia nos dois um incômodo notório com a nossa independência e autonomia”, destacam os gestores, que sobrevivem com as mensalidades de alunos das oficinas oferecidas no local.

O que diz a Prefeitura?

Procurada para comentar a situação, a Prefeitura do Rio enviou uma nota afirmando estar aberta ao diálogo. “A Prefeitura do Rio está aberta ao diálogo com os proprietários do teatro Arena Elza Osborne, em Campo Grande, primeira Lona Cultural da cidade”, diz o comunicado.

O município reforçou que “busca a melhor forma de recuperar este importante equipamento cultural, uma antiga reivindicação de toda a comunidade de Campo Grande”. A nota, no entanto, não aborda diretamente as acusações de falta de diálogo prévio com os proprietários nem o histórico de conflitos relatado pela família.

Enquanto a polêmica se desenrola, o Campo Grande NEWS informa que a Lona Cultural Elza Osborne segue em plena atividade. O espaço se prepara para sediar o Festival de Teatro da Zona Oeste em julho e realiza neste domingo (14) o ‘Arraiá da Elza’, um evento beneficente para a manutenção do teatro.