Vizinhos relatam: Casa onde Bernal atirou em fiscal estava sempre fechada

O ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, **alega ter agido em legítima defesa** ao atirar e matar o fiscal tributário estadual Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, na tarde de terça-feira (25). Bernal afirma que Mazzini tentava invadir a residência situada na Rua Antônio Maria Coelho, onde ele alega morar e manter seu escritório de advocacia. No entanto, vizinhos do imóvel, que está no centro de uma disputa pela posse avaliada em R$ 3,7 milhões, pintam um quadro diferente, descrevendo a casa como **frequentemente fechada** e o ex-prefeito como uma figura vista poucas vezes no local.

Conforme informações divulgadas pelo Campo Grande NEWS, a versão dos moradores locais sugere que o ex-prefeito **não residia habitualmente** no imóvel. Essa percepção contrasta com a declaração de Bernal à Polícia Civil, onde ele sustentou que o local servia tanto de moradia quanto de escritório. A narrativa sobre a frequência de Bernal na casa ganha contornos de dúvida diante dos depoimentos que apontam para um uso esporádico e um ambiente de pouca circulação.

A discrepância entre a alegação de Bernal e os relatos dos vizinhos levanta questionamentos sobre a dinâmica do imóvel e os eventos que culminaram na morte do fiscal. A situação é complexa, envolvendo uma disputa judicial pela propriedade, que teria sido adquirida por Mazzini da Caixa Econômica Federal, e um incidente com disparos de arma de fogo. O caso, que ganhou destaque na mídia local, agora é analisado sob a ótica das testemunhas que convivem com a propriedade em questão.

Relatos de vizinhos pintam quadro de imóvel pouco frequentado

Uma vizinha, que preferiu não ter sua identidade revelada, declarou ao Campo Grande NEWS que **“Vivia fechado, ele aparecia de vez em quando”**. A moradora relatou que a impressão era de que o local funcionava mais como um escritório, mas que **“estava sempre fechado”**. Ela afirmou nunca ter tido contato direto com o ex-prefeito.

Outro morador, gerente de um comércio na mesma rua e que também pediu para não ser identificado, recordou um episódio ocorrido em dezembro do ano passado. Ele descreveu que Bernal saiu da casa **“arruando confusão”** após seu carro ter bloqueado a garagem do imóvel. Segundo o relato, Bernal teria ameaçado a pessoa com uma arma de fogo, levantando a blusa para mostrar o objeto. Esse incidente, segundo o gerente, gerou medo entre os vizinhos, que passaram a preferir **“passar longe”** do local.

Uma terceira pessoa ouvida pela reportagem também corroborou a informação de que o imóvel **“não servia mais como moradia”** para Alcides Bernal, reforçando a ideia de que a casa não era utilizada como residência principal.

Disputa pela posse e alegação de legítima defesa

O imóvel em questão foi comprado por Alcides Bernal em agosto de 2016 por R$ 1,669 milhão. Na época da notícia, seu valor era estimado em R$ 3.787.057,09. O fiscal Roberto Carlos Mazzini reivindicava a posse da propriedade, alegando tê-la adquirido da Caixa Econômica Federal. A Caixa teria levado o imóvel a leilão devido a uma dívida.

Em seu depoimento à Polícia Civil, Bernal sustentou que **atirou por reflexo** ao se sentir ameaçado pela invasão. Ele alegou que não conhecia Mazzini e que a vítima “veio para cima” dele. A defesa do ex-prefeito apoia a tese de legítima defesa, argumentando que os disparos foram uma reação instintiva à suposta tentativa de invasão.

Contudo, o chaveiro que acompanhava Mazzini apresentou uma versão divergente. Ele afirmou que Bernal **“chegou atirando”** e **“não deu chance de defesa”**, contradizendo a alegação de reflexo e proteção.

Outros endereços indicam moradia distinta de Bernal

Investigações do Campo Grande NEWS apontam que Alcides Bernal possui outros endereços registrados. No Cadastro Nacional de Advogados (CNA), sua localização profissional é indicada na Travessa Zezé Flores, no Bairro Santa Fé. Além disso, em um processo judicial de cobrança de pensão alimentícia, um imóvel no Jardim Paulista foi apontado como local de moradia do ex-prefeito.

Um oficial de justiça tentou notificar Bernal em cinco ocasiões, entre setembro e outubro do ano passado, no endereço do Jardim Paulista, mas encontrou a casa fechada. Em março deste ano, ao retornar ao local, o oficial foi atendido pela ex-mulher de Bernal, Mirian Elza Gonçalves. Ela informou que reside ali desde 2005 e que o ex-companheiro **“não reside ali há muitos anos”**, negando o acesso para avaliação judicial.

Essas informações sobre outros endereços e a declaração da ex-mulher de Bernal **reforçam as dúvidas sobre a alegação de que o ex-prefeito morava** no imóvel da Rua Antônio Maria Coelho, onde ocorreu o trágico evento. A discrepância entre os relatos dos vizinhos e a versão oficial levanta pontos cruciais para a investigação do caso.