A vida noturna em Campo Grande encontra um cenário complexo nos bairros históricos da Rua 14 de Julho e da Esplanada Ferroviária. O que antes eram áreas com comércio em declínio, agora pulsam com bares e eventos, atraindo um público jovem e revitalizando o centro da cidade. Contudo, essa nova vocação trouxe consigo uma série de desafios, desde reclamações de moradores até episódios de violência e abordagens policiais controversas. Conforme informações divulgadas pelo g1, a convivência entre o entretenimento e a tranquilidade pública se tornou um debate acirrado na capital sul-mato-grossense.
Vida noturna divide opiniões em Campo Grande
A Rua 14 de Julho e a Esplanada Ferroviária, símbolos históricos de Campo Grande, completam 127 anos da capital em meio a uma discussão que divide a população. A abertura de bares, pubs e lanchonetes devolveu o movimento a essas áreas, mas também gerou reclamações, conflitos e debates sobre os limites da ocupação noturna. Esses dilemas evidenciam a luta da vida noturna para coexistir pacificamente no centro de Campo Grande.
O renascimento e os desafios da Rua 14 de Julho
A ocupação noturna da Rua 14 de Julho, que começou de forma discreta em 2024, rapidamente ganhou proporções inesperadas. Antes disso, a rua mais emblemática do centro acumulava pontos comerciais fechados, com empresários apontando a migração de clientes para bairros e obras de revitalização como causas da queda no movimento. Dados da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) indicavam que, nos últimos sete anos, três de cada quatro lojas no centro de Campo Grande fecharam as portas, um cenário agravado pela pandemia de covid-19 em 2020.
Em pouco tempo, o cenário mudou com a abertura de novos bares e uma programação musical variada, do sertanejo ao funk, funcionando de segunda a segunda. O fluxo intenso de frequentadores levou ao fechamento temporário de um trecho da via em agosto de 2024, uma medida que, segundo empresários, se tornou moeda política nas eleições da época. A Rua 14 de Julho chegou a ser interditada nos finais de semana, com a promessa de impulsionar o comércio noturno e o acesso à cultura. Banheiros químicos foram instalados e o policiamento reforçado, mas essas ações municipais não perduraram, de acordo com os empresários.
Os próprios donos de bares admitiram não ter estrutura para a demanda exponencial. A presença de ambulantes gerou incômodo, e as reclamações de moradores ganharam força. Em 2026, a vida noturna na Rua 14 de Julho enfrenta novos desafios, com o anúncio de fechamento de um ponto de samba e a venda de um pub pioneiro. Apesar disso, a vida noturna resiste através de frequentadores e empresários locais, oferecendo opções como discotecagem, karaokê e samba.
Fabricia Rezende, que auxilia na administração de um bar aberto há cerca de um ano na Rua 14 de Julho, defende o local como ponto de entretenimento. “É bom, não é desorganizado. Sempre tem um ou outro que não tem consciência, bebe demais e quer sair arrumando briga, mas esse não é um problema do lugar, da 14 de Julho. Tem em qualquer lugar”, comenta. Para ela, a resistência pode ter origem cultural, já que antes a Rua 14 de Julho e o centro inteiro morriam à noite.
A redescoberta e os conflitos na Esplanada Ferroviária
Na Esplanada Ferroviária, outro endereço histórico de Campo Grande, a vida noturna também ganhou sobrevida. No entanto, assim como na Rua 14 de Julho, a badalação gerou descontentamento entre moradores da região, marcada pela arquitetura singular e ruas de paralelepípedos que remetem à Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB). O Carnaval anual no local, que já era alvo de críticas, agora vê as reclamações se tornarem mais recorrentes a cada fim de semana.
Donizete Ferreira de Oliveira, presidente da Associação dos Moradores da Esplanada Ferroviária, relata que as principais queixas dos moradores, em sua maioria idosos e ex-funcionários da NOB, referem-se ao mau comportamento de alguns jovens, como consumo de drogas e urinar em frente às residências. Diante do aumento do movimento, especialmente no último ano, os moradores buscaram o poder público, que reforçou as rondas para que os estabelecimentos cumpram rigorosamente os horários de funcionamento. Conforme Donizete, a situação melhorou, mas exige vigilância contínua.
A auxiliar administrativa Neuzeli da Cunha Santos também se queixa do comportamento de frequentadores, relatando cenas de vômito, urina e uso de drogas na frente das casas. Ela conta que uma vizinha com crianças pequenas foi hostilizada ao pedir que se afastassem da janela. Thallyson Perez, proprietário de um dos primeiros estabelecimentos na Esplanada, tem buscado medidas para evitar reclamações, como antecipar o horário de abertura e reforçar a segurança. Ele acredita que a resistência à abertura de bares na região se deve à falta de diálogo entre poder público, empresários e moradores.
Perez defende que ações culturais e de entretenimento ajudam a manter a memória histórica viva e a ocupar esses espaços. “Estamos dentro da Esplanada Ferroviária, um espaço de patrimônio histórico que carrega uma memória muito importante para Campo Grande. E falar de Centro Histórico é falar também de cultura”, afirma. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o consenso geral é que os problemas não são causados pelos estabelecimentos em si, mas pelo comportamento de alguns frequentadores.
A psicoterapeuta Giovanna Cardoso, frequentadora da Esplanada, defende a ocupação do espaço para o lazer, argumentando que os bares atendem públicos carentes de opções e devolvem vida a prédios abandonados. Ela critica a falta de opções de lazer alternativas em Campo Grande e percebe um comportamento elitista e de “higienização” da cidade, onde minorias e pessoas de menor poder aquisitivo enfrentam resistência ao ocupar espaços. “Eu percebo que Campo Grande é uma cidade muito elitista e aí, quando as pessoas de menor poder aquisitivo, quando as minorias começam a ocupar os espaços, começa toda essa questão”, critica.
A Prefeitura de Campo Grande informou que intensificará as rondas na região para garantir a segurança dos usuários, com a Guarda Civil Metropolitana (GCM) atuando em conjunto com as forças estaduais e federais. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a Secretaria Especial de Segurança e Defesa Social (Sesdes) ressalta que a GCM realiza rondas em prédios públicos e apoia as forças ostensivas. A busca por conciliar a ocupação de espaços com a convivência pacífica entre moradores e frequentadores continua sendo o grande desafio para a vida noturna alternativa em Campo Grande, como evidencia a análise do Campo Grande NEWS.

