Vício em apostas: igrejas de MS acolhem fiéis em crise

O vício em apostas, impulsionado pela facilidade de acesso a plataformas digitais, tem levado famílias em Mato Grosso do Sul a situações de extrema vulnerabilidade. Pastores relatam o desespero de fiéis que perderam economias, patrimônios e até mesmo seus casamentos devido à ludopatia, o transtorno do jogo. Em meio a essa crise financeira e emocional, as igrejas se tornam refúgios de acolhimento e orientação, direcionando os necessitados para tratamento espiritual e psicológico.

A recente medida provisória que visa proibir as apostas eletrônicas no Brasil surge como um reflexo da gravidade do problema. O governo busca conter a proliferação do vício, que tem design tecnológico atrativo e pode levar à ruína. Enquanto as autoridades estabelecem prazos para a retirada de valores das plataformas, o foco se volta também para o endurecimento da legislação contra sites ilegais, visando proteger a saúde pública.

Em Campo Grande, o pastor Marcus Toneti, da Igreja Sara Nossa Terra, testemunha o impacto devastador do vício. “Você olha para a pessoa em público e não imagina que ela está passando por aquela crise. Depois, a gente descobre que ela vendeu tudo e tem uma dívida de não sei quanto”, relata. Ele enfatiza o papel da igreja em instruir sobre os perigos da ludopatia e a importância de buscar ajuda profissional. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o pastor destaca que a crise é real e que “famílias boas destruídas por causa disso”.

O apelo espiritual contra a armadilha do jogo

O pastor Marcus Toneti tem dado atenção especial ao tema em seus cultos. Em uma celebração divulgada nas redes sociais, ele questiona a verdadeira recompensa das apostas: “Mas ela paga o preço da sua alma?”. Citando o livro de Gênesis, Toneti reforça a capacidade humana de se perder na busca por riqueza fácil. “Se nós achamos que a riqueza vem de roletas, bets, tigrinhos, estou aqui para te falar que a riqueza que realmente importa vem dos céus”, afirma.

Toneti alerta que o vício em jogos muitas vezes é mascarado pela falsa sensação de controle, com a crença de que a pessoa pode parar quando quiser. “Quantas pessoas você conhece que já foi para Bahamas com dinheiro de apostas? Ninguém”, pontua, desmistificando a promessa de ganhos que levam à prosperidade.

Apoio e encaminhamento para tratamento

Em Dourados, o presidente do Conselho de Pastores Evangélicos, Adriano Vieira, corrobora a gravidade do problema. “Faz algum tempo que as apostas têm afetado as famílias, destruído casamentos, levado pessoas aos vícios e houve crescimento acentuado na procura por aconselhamentos”, afirma. Ele destaca que, além da ajuda espiritual, a igreja encaminha e orienta a busca por tratamento psicológico, entendendo que a medicina e a igreja, juntas, podem levar ao abandono do vício.

Uma das histórias mais delicadas relatadas pelo pastor Adriano foi a de uma mulher viciada no “Jogo do Tigrinho”. Ela gastou cerca de R$ 80 mil em economias familiares, o que levou à separação do casal. “Após aconselhamento, ela aceitou se tratar e aos poucos foi recuperando o casamento e a família. A dor e o sofrimento causados são extremos”, relata, conforme o Campo Grande NEWS apurou.

A tecnologia como ferramenta de vício

Assim como os antigos cassinos físicos, as plataformas de apostas online utilizam recursos para prender os jogadores. Segundo o psiquiatra Vinícius Andrade, supervisor do Ambulatório de Jogo da USP, o design com imagens vibrantes e coloridas, conhecido como “padrões obscuros”, é uma estratégia para gerar maior recompensa e incentivar a repetição do comportamento. “Com o advento da tecnologia, começa a fazer isso de forma mais massiva”, explica.

O especialista ressalta que o comportamento se torna um transtorno quando causa prejuízos significativos na vida da pessoa. “A pessoa não consegue parar. Ela vai voltar a esse comportamento para fugir de uma dor ou em busca de um prazer”, conclui. Conforme o Campo Grande NEWS obteve em entrevista, esses padrões, embora possam ter um lado positivo, muitas vezes são usados de forma negativa pelas empresas, sem se preocupar com a saúde do indivíduo.

Medida provisória e caminhos para a recuperação

A medida provisória anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva visa proibir a operação de bets no Brasil, com o bloqueio de novos depósitos e o envio de um projeto de lei ao Congresso para criminalizar a exploração de apostas ilegais. Apostadores terão até 5 de outubro para retirar seus saldos. O governo planeja, ainda, o envio de um projeto de lei que cria crimes específicos para quem explorar ou auxiliar o funcionamento de apostas ilegais.

Em Campo Grande, o grupo Jogadores Anônimos oferece encontros semanais. A rede municipal de saúde também orienta a busca por Unidades de Saúde da Família (USF) ou Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para avaliação e tratamento. O Campo Grande NEWS informa que a busca por ajuda é fundamental para a recuperação e o restabelecimento das famílias afetadas pelo vício em apostas.