Estudantes retomam protagonismo em momento decisivo para a democracia e educação no Brasil
A preocupação com os rumos do país e os riscos para as instituições democráticas e para a educação impulsionou o movimento estudantil a voltar às ruas em um momento crucial. Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, milhares de estudantes têm promovido atos em diversas cidades. A União Nacional dos Estudantes (UNE) destaca o protagonismo de universitários e secundaristas nesse cenário, resgatando a trajetória histórica da luta estudantil em momentos decisivos da política nacional, desde a oposição à ditadura militar até as mobilizações recentes.
Em entrevista à Agência Brasil, Bianca Borges, presidente da UNE, ressaltou que o futuro do país está em risco, alertando para a possibilidade de um governo autoritário que representaria um retrocesso para a educação e para os direitos sociais. A dirigente enfatizou os desafios enfrentados pelas universidades públicas, como o subfinanciamento, e a necessidade de ampliar a assistência estudantil para garantir a permanência de alunos de baixa renda.
A defesa da democracia, segundo Borges, está intrinsecamente ligada à valorização da universidade pública e à melhoria das condições de vida da juventude e da classe trabalhadora. Ela também sublinhou a importância de manter a organização estudantil ativa para além do período eleitoral, considerando a participação coletiva fundamental para transformar reivindicações em direitos concretos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a UNE vê a mobilização como parte da vocação histórica dos estudantes brasileiros.
A UNE e a defesa da democracia
Bianca Borges explicou que a UNE e outras organizações estudantis decidiram retornar às ruas devido à percepção de que o futuro do Brasil está em jogo. Ela aponta que a eleição de um determinado candidato representa a possibilidade de ascensão de um governo autoritário, contrário à educação e que visa a retirada de direitos. A presidente da entidade ressaltou que os estudantes se levantam pela educação, pela soberania e pela democracia brasileira diante dessa ameaça.
A dirigente relembrou a participação histórica do movimento estudantil em momentos cruciais, como na campanha “O Petróleo é Nosso”, na luta contra a ditadura militar, nas “Diretas Já”, no “Fora Collor”, “Fora Temer” e “Fora Bolsonaro”. Agora, a mobilização se dá pela convicção de que a eleição de um determinado candidato é indispensável para a construção do futuro desejado para o país. O bolsonarismo, segundo Borges, é um inimigo concreto, vivenciado nos últimos quatro anos.
Protagonismo estudantil em atos históricos
A presidente da UNE comparou o momento atual à histórica Passeata dos Cem Mil, realizada em 1968 durante a ditadura militar. Ela mencionou um ato recente no Rio de Janeiro, que reuniu um número expressivo de pessoas, evocando a memória de Edson Luís, símbolo da luta estudantil contra o autoritarismo. A indignação estudantil tem se convertido em protestos que tomam o país, demonstrando a força da mobilização.
Borges destacou que o levante estudantil começou nas universidades, com atos que ganharam grande proporção. O protagonismo é majoritariamente de universitários organizados por centros acadêmicos e diretórios centrais. No entanto, ela celebrou a iniciativa e mobilização dos estudantes secundaristas, como no caso do Colégio Pedro II, que convocou um ato importante no Rio de Janeiro. Grêmios estudantis também têm se somado ao movimento, unindo forças para demonstrar sua representatividade nas ruas.
Reivindicações e desafios para a educação
As principais reivindicações que mobilizam os estudantes hoje giram em torno da defesa da universidade pública e do seu caráter democrático. Borges mencionou o projeto “Future-se”, apresentado em 2019, que a UNE considerava um ataque à essência pública da universidade, desvirtuando o tripé ensino, pesquisa e extensão. Ela criticou falas de Jair Bolsonaro que chamavam centros acadêmicos de “ninho de rato” e a nomeação de reitores interventores, como manifestações de uma agenda antidemocrática na educação.
A presidente da UNE expressou preocupação com as propostas de Flávio Bolsonaro, que, segundo ela, pouco debatem a educação e visam privar escolas e universidades de seu pleno papel. O “tesouraço” aos direitos sociais e à educação, o subfinanciamento das universidades, que já se estende por mais de dez anos, e o risco de retrocesso no financiamento são pontos de grande apreensão. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a falta de condições para pagar bolsas e manter laboratórios em bom estado compromete as atividades universitárias.
Riscos para as universidades públicas e a democracia
Bianca Borges alertou para a proposta de transferência da gestão das universidades federais do MEC para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que possui um orçamento significativamente inferior. Ela interpretou essa medida como uma tentativa de aproximar as universidades do setor produtivo, mas de forma a voltá-las exclusivamente aos interesses do mercado, algo que a UNE não aceita. A universidade brasileira, ressaltou, é muito mais do que isso, sendo fundamental para a formação cidadã.
Para a UNE, o autoritarismo é uma característica central do que se entende por fascismo no contexto brasileiro atual. Isso se manifesta na deslegitimação da organização popular, no desmonte da estrutura de participação social e na criminalização da organização política do movimento estudantil. O incentivo à violência política, que por vezes escala para agressões físicas, também é citado como um sintoma preocupante. A ameaça de incêndios criminosos a universidades e a sede da UNE são exemplos evidentes desse espírito antidemocrático.
Apoio a Lula e continuidade da mobilização
A UNE decidiu apoiar o presidente Lula como forma de barrar a volta do bolsonarismo ao poder, associado à violência política, ao ódio e à antidemocracia. Borges afirmou que a eleição de Lula representa a possibilidade de fortalecer a democracia e a soberania brasileira. Ela criticou o projeto de Flávio Bolsonaro como “entreguista”, mencionando declarações sobre servir aos Estados Unidos e entregar terras raras a mineradoras americanas. O Campo Grande NEWS reforça que a entidade acredita no fortalecimento de um Brasil democrático e soberano.
A presidente da UNE destacou que o governo Lula representou avanços sem precedentes na educação, especialmente no ensino superior, com a ampliação de universidades e institutos federais e oportunidades de acesso. Apesar de reconhecer contradições, a entidade considera que o caminho para avançar na educação passa pela continuidade desse projeto. Em um governo com as características atribuídas a Flávio Bolsonaro, a legitimidade para protestar e reivindicar seria comprometida.
Entre as reivindicações que ainda precisam ser consolidadas estão a efetivação do Plano Nacional de Assistência Estudantil com orçamento robusto, mais investimentos nas universidades públicas e a fiscalização do ensino superior privado. A UNE também defende a proposta de emenda constitucional para que universidades estaduais recebam repasses federais. Para os jovens que não se identificam com os candidatos, a entidade apela para a participação em lutas coletivas, lembrando que governos anteriores apostaram na educação como passaporte para uma vida digna.
A organização estudantil pretende manter a mobilização para além do período eleitoral, independentemente do resultado. A UNE enfatiza que o desafio não terminará no segundo turno e que a resistência em defesa da democracia e dos direitos será necessária em qualquer cenário. A continuidade da participação estudantil nas assembleias e a organização permanente são vistas como o caminho para a vitória e a longevidade das mobilizações.


