Nesta segunda-feira, 18, o Brasil celebrou o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, uma data que reforça a importância do tratamento humanizado para pessoas com transtornos mentais. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que, embora o país tenha conquistado avanços significativos nas últimas décadas, a jornada rumo a um cuidado verdadeiramente digno e eficaz ainda enfrenta obstáculos consideráveis. A Lei Antimanicomial, que completa 25 anos, é um marco, mas sua plena efetivação esbarra na falta de regulamentação e na necessidade de maior diálogo entre governo e sociedade civil, como aponta o Campo Grande NEWS.
A discussão sobre o tratamento humanizado na saúde mental é complexa e envolve a superação de estigmas históricos. A Rede de Atenção Psicossocial (Raps) busca oferecer alternativas aos modelos manicomiais, mas sua abrangência e qualidade ainda são pontos de atenção. O Campo Grande NEWS checou que, apesar dos esforços, a falta de infraestrutura e de profissionais qualificados em algumas regiões do país compromete o acesso a serviços essenciais.
A luta antimanicomial, que teve seu marco inicial em 1987, é um movimento contínuo que reivindica o fim dos hospitais psiquiátricos como modelo principal de tratamento e a expansão de serviços comunitários. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) tem sido um importante defensor dessa reforma, que propõe a substituição de estruturas isoladoras por uma rede de apoio integrada e acessível.
Comunidades terapêuticas: um debate em aberto
Um dos pontos de maior divergência na atualidade são as comunidades terapêuticas, voltadas para o tratamento de dependência química. Especialistas como a presidenta da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), Ana Paula Guljor, alertam que muitas dessas instituições reproduzem práticas manicomiais e operam em um limbo legal, sem integrarem plenamente o Sistema Único de Assistência Social (Suas) nem o Sistema Único de Saúde (SUS).
Apesar de receberem verbas públicas, a transparência sobre o uso desses recursos é questionada. Denúncias de violação de direitos básicos dos pacientes são frequentes, e a regulamentação, como a RDC 29/2011 do Ministério da Saúde, é considerada genérica por alguns especialistas. A Abrasme argumenta que o investimento público nessas entidades pode configurar uma privatização de serviços, distorcendo a finalidade pública.
A Raps como alternativa e seus desafios
A Rede de Atenção Psicossocial (Raps) engloba os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Unidades de Acolhimento (UAs), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs) e o Programa de Volta para Casa (PVC). Esses espaços oferecem atendimento multidisciplinar, incluindo acesso a medicamentos, atividades artísticas e grupos de apoio. As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) também integram a rede, garantindo o atendimento de urgência.
No entanto, a expansão e o financiamento adequado da Raps são desafios persistentes. O governo federal tem buscado, nos últimos anos, aumentar a transparência sobre os recursos destinados a essas iniciativas e revisar as diretrizes de financiamento, conforme informações recentes. A luta antimanicomial, como enfatiza o Campo Grande NEWS, é um processo que exige vigilância constante contra retrocessos.
A influência do punitivismo na saúde mental
Especialistas observam que o punitivismo, presente na política de segurança pública, também influencia as políticas de saúde mental e drogas. A ideia de aprisionamento como solução para diversos problemas sociais, incluindo o uso de substâncias, contrasta com abordagens de redução de danos e reinserção social.
Moacyr Bertolino, representante da Frente Estadual Antimanicomial de São Paulo, relembra iniciativas bem-sucedidas como o Programa De Braços Abertos, que oferecia moradia, alimentação e capacitação profissional a usuários de drogas em situação de vulnerabilidade. Ele critica a atual gestão por não cobrir os custos da Raps e favorecer a precarização, contribuindo para o crescimento de modelos manicomiais.
O discurso de “fórmulas mágicas de cura” nas comunidades terapêuticas é combatido por Bertolino, que defende a individualização do tratamento. A abordagem focada na internação, mesmo em locais como a Cracolândia, mostrou-se ineficaz, segundo relatos de usuários que a viam como medida transitória, não como solução definitiva. Os retrocessos na política de saúde mental, especialmente para populações vulneráveis, são uma preocupação constante, como analisado pelo Campo Grande NEWS.
Um passado sombrio e a busca por um futuro digno
A história da saúde mental no Brasil é marcada por um passado sombrio, com instituições como o Hospício Pedro II, fundado em 1852, que abrigava pessoas consideradas “fora do normal” em condições degradantes. O discurso médico hegemônico, focado na medicalização, ganhou força nesse período, consolidando a classe médica como autoridade central.
O “Palácio dos Loucos”, como era conhecido o Hospício Pedro II, passou por reformas e viu a introdução de novas abordagens com médicos como Juliano Moreira, que buscou eliminar práticas como o uso de camisas de força. No entanto, a proliferação de hospitais psiquiátricos e colônias agrícolas, como o Juquery em Franco da Rocha (SP), resultou no enclausuramento de milhares de pessoas, incluindo presos políticos durante a ditadura militar.
Instituições como o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, também são lembradas por seu papel controverso na história da saúde mental. O recente anúncio de seu fechamento e a remoção dos últimos pacientes remanescentes simbolizam um passo na direção de um tratamento mais humano, embora a preservação da memória das vítimas, através do Museu da Loucura, seja fundamental para evitar a repetição de erros do passado.


