Um trabalhador de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, denunciou as condições precárias de alojamento oferecidas por uma empresa de frutas em Fraiburgo, Santa Catarina. Contratado para a safra de maçãs, ele e outros 39 colegas chegaram à cidade em 12 de fevereiro com expectativas de um ambiente de trabalho adequado, mas encontraram uma realidade bem diferente da prometida, o que levou 25 deles a retornarem para casa.
A empresa Fischer teria garantido alojamentos separados, adiantamento salarial e alimentação sem descontos. No entanto, ao chegarem, os trabalhadores se depararam com uma série de problemas. Vídeos enviados à reportagem mostram a falta de limpeza nas áreas comuns, com bebedouros sujos, contendo folhas e galhos. Os banheiros apresentavam ralos e vasos entupidos, com lixeiras transbordando, gerando um ambiente insalubre.
O jovem de 23 anos, que prefere não se identificar, relata que o quarto onde ele está hospedado tem janelas quebradas ou que não abrem, e um colega chegou a comer pão com mofo. “No meu quarto e em alguns outros, a janela não abre ou está quebrada. Um amigo comeu pão com mofo verde”, desabafa.
Promessas não cumpridas e cobranças indevidas
Além das condições de higiene e infraestrutura, as promessas de benefícios financeiros e alimentícios também não foram cumpridas. O trabalhador alega que, contrariando o combinado, a empresa está realizando descontos na alimentação, cobrando R$ 55 por mês. Consultas médicas, que deveriam ser gratuitas ou cobertas, estão sendo cobradas a R$ 58, sem incluir medicamentos.
A empresa Fischer também não forneceu os R$ 250 prometidos para a compra de produtos de higiene pessoal, um item essencial para a estadia de 45 dias prevista em contrato. Essa série de descumprimentos contratuais tem gerado grande insatisfação entre os trabalhadores, que se sentem lesados.
Retorno em massa e pressão para pedir demissão
A insatisfação é tamanha que, dos 40 trabalhadores contratados inicialmente, 25 já deixaram o local e retornaram a Campo Grande. A situação se agrava com a pressão exercida pela empresa para que os trabalhadores peçam demissão. Segundo o relato, a Fischer estaria agindo dessa forma para evitar o pagamento de verbas rescisórias e encargos trabalhistas, já que o contrato prevê uma duração de 45 dias.
“Eles estão pedindo para a gente pedir a conta, porque não querem mandar embora por causa do contrato”, afirma o trabalhador, evidenciando uma estratégia para burlar os direitos trabalhistas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o Ministério Público do Trabalho (MPT) tem um procedimento específico para monitorar contratações de trabalhadores sul-mato-grossenses para safras de maçã.
Atuação do Ministério Público do Trabalho
O MPT-MS informou que, desde 2014, monitora as contratações de trabalhadores de Mato Grosso do Sul para atividades de cultivo, colheita, poda e raleio da maçã nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. A iniciativa visa prevenir práticas irregulares de aliciamento, como a contratação sem vínculo formal, e acompanhar a regularidade do transporte dos trabalhadores.
No entanto, em relação às condições específicas do alojamento e outras práticas denunciadas em Fraiburgo, o MPT-MS esclareceu que a investigação compete ao órgão local do Ministério Público do Trabalho. O Campo Grande News também procurou o MPT-RS e a empresa Fischer, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestações.
Este caso foi sugerido por um leitor através do canal Direto das Ruas, reforçando a importância da vigilância cidadã e do papel do jornalismo investigativo em dar voz a situações de vulnerabilidade. O Campo Grande NEWS, em sua missão de informar e fiscalizar, continua acompanhando desdobramentos de denúncias que afetam a comunidade e trabalhadores. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a situação expõe a necessidade de fiscalização rigorosa e cumprimento das leis trabalhistas para garantir a dignidade de todos os trabalhadores, especialmente aqueles que se deslocam de seus estados em busca de oportunidades.

