Tapa-buracos: esquema de milhões com obras fantasmas em Campo Grande

A Justiça de Mato Grosso do Sul manteve, nesta quarta-feira (13), a prisão preventiva de sete pessoas investigadas na Operação “Buraco Sem Fim”. A operação apura um suposto esquema de fraude em serviços de tapa-buracos em Campo Grande, onde milhões de reais teriam sido desviados através de “obras fantasmas”. Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), o grupo manipulava medições de serviços para que a prefeitura pagasse por obras não executadas ou com valores superfaturados.

Conforme o MPMS, o esquema consistia na manipulação de planilhas e medições para fraudar os pagamentos feitos pela Prefeitura de Campo Grande. O dinheiro desviado seria destinado a empresários e servidores públicos envolvidos na fraude. A prefeitura, que contrata empreiteiras para o serviço de tapa-buracos por falta de estrutura própria, pode ter sido lesada em milhões de reais. O valor total desviado ainda está sendo calculado pela perícia, mas uma estimativa inicial aponta para um prejuízo de ao menos R$ 5 milhões, com a suspeita de que o montante seja ainda maior.

A investigação, que tem como foco contratos firmados com a Construtora Rial, aponta para um envolvimento direto do ex-secretário municipal de Obras, Rudi Fioresi. Ele é apontado como o principal elo político do esquema, mantendo ligações com empresários e supostamente recebendo vantagens financeiras para favorecer a empresa através das fraudes nas medições. A perícia identificou ganhos de Fioresi sem comprovação de origem, cujos valores permanecem sob sigilo. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a Construtora Rial possui oito contratos ativos com a prefeitura, somando quase R$ 148 milhões, com período analisado de 2018 a 2025.

Construtora Rial sob suspeita

Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa é apontado como o dono de fato da Construtora Rial, enquanto seu filho, Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa, figura como proprietário formal no contrato social da empresa. Funcionários ouvidos pelo Ministério Público relataram uma estrutura precária da empresa e a baixa qualidade dos serviços prestados. O esquema, segundo os promotores, funcionava através da manipulação das medições feitas pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), responsável pelo tapa-buracos.

Servidores públicos envolvidos na fraude

O coordenador das operações de tapa-buracos da Sisep, Edvaldo Aquino, e o engenheiro Mehdi Talayeh, ambos da secretaria, atuavam sob orientação de Rudi Fioresi. Segundo o MPMS, eles combinavam valores com empresários e manipulavam medições para que a prefeitura pagasse a mais ou por serviços não realizados. Os dois repassavam as ordens da fraude aos servidores Fernando de Souza Oliveira e Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula, que, conforme a investigação, alteravam as planilhas de pagamento.

Durante o cumprimento de mandados de prisão e busca e apreensão, o Ministério Público encontrou R$ 500 mil em dinheiro, além de documentos, celulares e equipamentos eletrônicos. As prisões foram solicitadas pois o esquema, segundo os investigadores, ainda estaria em funcionamento até a data da operação. Rudi Fioresi foi exonerado do cargo de diretor-presidente da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul) pelo governador Eduardo Riedel. Outros investigados que trabalhavam na Prefeitura de Campo Grande foram afastados de seus cargos.

Operação “Cascalhos de Areia” e desdobramentos

Parte dos investigados já havia sido alvo da operação “Cascalhos de Areia”, em 2023, que apurava um esquema de fraude em licitações e contratos para manutenção de vias não pavimentadas. Na ocasião, Rudi Fiorese, Mehdi Talayeh e Edvaldo Aquino também foram investigados. A defesa de Fernando de Souza Oliveira e Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula negou a participação dos dois. A defesa de Rudi Fiorese considerou a prisão preventiva “desarrazoada” e alegou falta de acesso aos autos do processo, o que, segundo os advogados, compromete o direito à ampla defesa.

Em nota, a Prefeitura de Campo Grande informou que os contratos investigados são referentes à manutenção de vias pavimentadas firmados desde 2017, em gestão anterior. Já o Ministério Público afirma que as apurações envolvem contratos e aditivos assinados entre 2018 e 2025. A Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso do Sul (Seilog) esclareceu que o governo estadual não é alvo da investigação e que Rudi Fiorese é investigado por fatos relacionados ao período em que atuou na prefeitura. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a Seilog tomou as providências necessárias com a exoneração do servidor. A investigação continua em andamento, com o objetivo de desarticular completamente o esquema e recuperar os valores desviados. O caso ressalta a importância da fiscalização e do combate à corrupção em todas as esferas de governo. O Campo Grande NEWS acompanha de perto os desdobramentos desta operação que abala a gestão pública da cidade.