A Santa Casa de Campo Grande anunciou uma drástica medida para tentar estancar sua pior crise financeira: o enxugamento de serviços e leitos. A decisão surge após a frustração com a assinatura de um novo contrato para atendimento pela rede pública de Mato Grosso do Sul, com um repasse mensal proposto de cerca de R$ 37 milhões. A proposta de ajustes será apresentada até a próxima terça-feira (20), com o objetivo de adequar a capacidade de atendimento ao valor financeiro oferecido pelo Estado e Município.
A informação foi divulgada pela própria instituição nesta quinta-feira (15), durante coletiva de imprensa. O hospital, que acumula um passivo superior a R$ 800 milhões, busca evitar a paralisação total de seus serviços. A Justiça e o Ministério Público Estadual (MPE) estão mediando o impasse.
O superintendente da Santa Casa, Luiz Alberto Hiroki Kanamura, explicou que a equipe técnica está trabalhando para definir quais serviços e quantos leitos serão mantidos. A ideia é apresentar uma métrica que demonstre a adequação ao orçamento proposto. “Ou seja, o hospital vai ter leitos que consigam atender esse financeiro que está sendo aportado”, afirmou Kanamura.
A proposta, segundo Kanamura, também levará em conta o que o Estado e o Município desejam. Existe a intenção de que a Santa Casa continue atuando nas sete áreas da Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE). No entanto, serviços que não estiverem contemplados na RUE deverão ser descontinuados pelo SUS.
Serviços de referência serão mantidos
Apesar dos cortes, o hospital pretende manter os serviços nos quais é a única referência para todo o estado de Mato Grosso do Sul. Entre eles, Kanamura elencou: politraumatismo, neurocirurgia, neurologia clínica, ortopedia, cardiologia clínica e cirúrgica, cirurgia vascular e tratamento para grandes queimados. Esses atendimentos são considerados essenciais e de alta complexidade.
Ala particular pode absorver serviços descontinuados
Uma das possibilidades para os serviços que deixarem de ser prestados pelo SUS é a manutenção deles na ala particular da Santa Casa. Dessa forma, a estrutura hospitalar não seria completamente desativada, e os serviços poderiam ser vendidos para pacientes particulares ou, pontualmente, para o próprio SUS. “Não significa que eu vou fechar o serviço. Significa, talvez, que eu vou deixar de atender aquele serviço pelos SUS. Que ele pode ser vendido de outra forma se for viável. A estrutura está aí montada”, explicou o superintendente.
Crise institucional e investigações
A atual gestão da Santa Casa assumiu após a destituição de ex-diretores da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande (ABCG). Eles foram presos e investigados pela Operação Antidotum, por suspeitas de desvio de dinheiro. As discussões para a assinatura de um novo contrato com o Poder Público já se arrastavam antes mesmo das prisões e afastamentos.
A próxima reunião para definir os termos do novo contrato deve ser agendada pelo juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a situação financeira da instituição é crítica, com um passivo que ultrapassa os R$ 800 milhões. Mesmo com a proposta de repasse mensal de R$ 37 milhões, o Ministério Público já alertou que o hospital pode continuar no vermelho.
A complexidade da crise é evidenciada pela necessidade de medidas tão drásticas. A tentativa de enxugar serviços e leitos visa, primordialmente, garantir a continuidade do atendimento em áreas cruciais e, ao mesmo tempo, adequar as despesas à receita prevista. A expectativa é que a nova proposta apresentada até terça-feira (20) traga um caminho para a sustentabilidade da Santa Casa, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
A reportagem do Campo Grande NEWS continua acompanhando o desenrolar desta negociação, que é fundamental para a saúde pública de Mato Grosso do Sul. A definição do novo contrato e dos ajustes nos serviços da Santa Casa terá impacto direto na oferta de atendimento para milhares de pacientes que dependem da instituição. A transparência e a colaboração entre as partes são essenciais para superar este momento delicado.

