A Rota Bioceânica, promessa de integrar o Brasil ao Oceano Pacífico, enfrenta severas críticas de um viajante experiente que atesta a **realidade dura da infraestrutura**. Éder Pieczykolan, advogado e escritor, realizou o trajeto completo em três ocasiões entre 2022 e o final de 2025, documentando de perto as deficiências que, segundo ele, tornam o projeto ainda distante de sua proposta logística, especialmente para o escoamento de commodities. A ausência de fiscalização adequada em Porto Murtinho, estradas em mau estado no Paraguai e Argentina, e a desafiadora travessia da Cordilheira dos Andes são alguns dos pontos levantados, conforme apurou o Campo Grande NEWS.
Pieczykolan, que viajou com a esposa Iara e a filha Sofia até Antofagasta, no Chile, demonstra ceticismo quanto à viabilidade comercial da rota. “Para o turismo, vejo com bons olhos. Mas a viabilidade de exportação será um engodo”, afirma categoricamente. Ele ressalta que, apesar do potencial turístico, a infraestrutura atual não suporta o fluxo de cargas em larga escala, um dos principais objetivos do projeto.
Estrutura precária e falta de fiscalização marcam o início da rota
Logo no início do percurso, em Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul, o viajante relata a **completa ausência de estrutura básica de fiscalização**. De acordo com Pieczykolan, não há alfândega funcionando regularmente no lado brasileiro, contrastando com o controle migratório adequado do outro lado do rio, em Carmelo Peralta, no Paraguai. “É como entrar e sair de uma casa sem dono”, critica, evidenciando também a falta de postos da Polícia Federal ao longo do caminho.
No território paraguaio, os desafios persistem. Entre Carmelo Peralta e Filadélfia, aproximadamente 280 quilômetros de estrada asfaltada carecem de qualquer suporte ao viajante, como postos de combustível e borracharias. Já o trecho até Mariscal Estigarribia, com apenas 40 quilômetros pavimentados nos últimos anos, já apresenta problemas de conservação.
Chaco paraguaio e Andes: obstáculos geográficos e de infraestrutura
Outro ponto crítico identificado por Pieczykolan encontra-se entre Mariscal Estigarribia e Pozo Hondo, na fronteira com a Argentina. Cerca de 220 quilômetros seguem em construção em meio ao Chaco paraguaio, com aterros de terra arenosa que, segundo o viajante, **não resistem ao período de chuvas**, gerando constantes transtornos.
Na Argentina, o cenário não é diferente. O trajeto entre Pozo Hondo e Purmamarca, com mais de 500 quilômetros, inclui trechos urbanos, ausência de acostamento e trânsito irregular. A travessia da Cordilheira dos Andes é apontada como um dos maiores obstáculos para o transporte de cargas. Entre Purmamarca e Susques, a altitude chega a quase 4 mil metros, **dificultando o desempenho de veículos pesados**. “Os caminhões sofrem para subir, é uma rota perigosa e sem acostamento”, relata.
A situação se agrava na fronteira entre Argentina e Chile, em direção a San Pedro de Atacama. Além das rigorosas exigências nas aduanas, a altitude superior a 4.200 metros provoca efeitos físicos nos viajantes, exigindo, em alguns casos, atendimento médico. O trecho final até Antofagasta, contudo, apresenta melhores condições, com descida até o nível do mar e rodovias mais seguras, conforme checado pelo Campo Grande NEWS.
Interesses geopolíticos e impacto limitado para o Brasil
Além dos aspectos estruturais, Pieczykolan chama atenção para os **interesses geopolíticos na região**. Ele aponta uma forte presença chinesa no norte argentino, com investimentos em infraestrutura e desenvolvimento urbano ao longo de cerca de 800 quilômetros rumo à província de Salta. “Eles estruturaram cidades pobres, investiram em produção e infraestrutura. Mas o benefício é deles: produzem e exportam para seu próprio país”, afirma.
Na avaliação do viajante, o impacto da Rota Bioceânica para o Mato Grosso do Sul deve ser limitado. Com baixa industrialização, o estado teria pouca capacidade de aproveitar o corredor logístico para exportações em larga escala, diferentemente de polos como São Paulo e Paraná. Para o Paraguai, no entanto, ele vê avanços mais concretos, especialmente com a abertura de acesso a regiões isoladas e comunidades indígenas no oeste do país. Essa análise detalhada sobre os impactos regionais foi publicada pelo Campo Grande NEWS.
Por fim, Pieczykolan critica o que considera uma **contradição entre o discurso político e a realidade econômica**. “De um lado, há propaganda festiva da Rota Bioceânica; de outro, políticas que desestimulam o agronegócio, que é base da economia brasileira”, conclui. Enquanto está em obras, a rota segue como promessa de integração continental, mas, na prática, ainda enfrenta um longo caminho até se consolidar como corredor logístico eficiente.

