A história de Rhayane Souza Fanaia, que transita do modesto universo de um brechó para o centro de uma investigação milionária sobre contratos públicos de livros, intriga as autoridades. Em um lapso de apenas duas semanas, seu brechó foi fechado e uma nova empresa, a Editora Avante, foi aberta, rapidamente se envolvendo em negócios vultosos com prefeituras de Mato Grosso do Sul, sem licitação. O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) suspeita que Rhayane possa ter sido utilizada como fachada, uma figura laranja, em uma operação orquestrada pela família Jafar.
Gaeco desvenda suposto esquema de livros em MS
A rápida ascensão de Rhayane Souza Fanaia no mercado editorial levanta sérias questões. Em novembro de 2021, ela encerrou voluntariamente o CNPJ de seu brechó. Surpreendentemente, apenas 14 dias depois, em 18 de novembro do mesmo ano, nasceu a Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais Ltda., mais conhecida como Editora Avante. Essa transição abrupta, da revenda de roupas usadas para uma empresa que logo acumularia contratos milionários com o poder público, chamou a atenção do Gaeco desde o início da apuração.
A investigação inicial, conforme apontado pelo Gaeco, destacou a aparente inexperiência de Rhayane no setor editorial e a recente criação da empresa, sem qualquer renome que justificasse contratações diretas e milionárias, baseadas na suposta inexigibilidade de licitação.
O brechó, batizado com seu nome, teve uma vida curta, operando por apenas oito meses, de março a novembro de 2021. Em contraste, a Editora Avante, aberta com um capital social de R$ 40 mil, em menos de um ano de existência, já fechava um contrato de mais de R$ 1 milhão com a Prefeitura de Miranda, sem qualquer processo licitatório.
A Editora Avante e os contratos sem licitação
A operação de Miranda não foi um caso isolado. A Editora Avante firmou contratos com outros municípios sul-mato-grossenses, como Ivinhema, Ladário e Bonito. O Gaeco considera essa sequência de negócios, sempre sem concorrência, altamente improvável para uma empresária que, até pouco tempo antes, se dedicava a outra atividade comercial, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Essa discrepância gerou a pergunta central na investigação do Gaeco: Rhayane era, de fato, a empresária por trás da Editora Avante, ou apenas emprestava seu nome para um negócio controlado por outros? A conclusão preliminar dos investigadores é que, embora Rhayane constasse formalmente como proprietária, ela não possuía autonomia gerencial ou financeira sobre a empresa.
Os verdadeiros controladores, segundo a investigação, seriam Rossana Paroschi Jafar e seus filhos Giovanni, Olívia e Felipe Paroschi Jafar, em colaboração com Heyder Bartz e Francisco Anizio dos Santos. A tese ganhou força com o pedido de prisão da família Jafar e de Rhayane, ex-namorada de Giovanni Jafar, durante a deflagração da Operação Gutenberg, que resultou na prisão de 16 pessoas.
Rhayane: a laranja e os repasses milionários
As apurações do Gaeco indicam que, após a Editora Avante receber os pagamentos das prefeituras, Rhayane era instruída, por meio de aplicativos de mensagens, a distribuir os valores. Foram identificadas pelo menos nove ocasiões em que ela teria recebido ordens para realizar essa divisão. Ela aparece movimentando contas bancárias, efetuando pagamentos, recebendo dinheiro, assinando documentos, realizando saques em bancos e enviando valores para outros investigados. Em uma das conversas, após um pagamento de prefeitura para a editora, Rhayane teria dito: “Agora é só distribuir”.
Um padrão financeiro que chamou a atenção do Gaeco foi que, em diversos contratos ou pagamentos públicos, Rhayane recebia valores equivalentes a exatamente 1% do negócio. No contrato de Miranda, de R$ 1.044.355, ela recebeu R$ 10.443,55. Em Ivinhema, de um contrato de R$ 586.862,50, ela recebeu R$ 5.868,63. Em Bonito, de R$ 818.958,50, o repasse foi de R$ 8.189,59, e em Ladário, de R$ 459.286, o valor destinado a ela foi de R$ 4.592,86. Esses pagamentos, em alguns registros, apareciam identificados como “PLR”, sigla para Participação nos Lucros e Resultados, seguida do nome do município.
O volume total recebido por Rhayane foi significativamente maior. Em um relatório posterior, que ampliou a análise de contas e períodos, os investigadores identificaram que a Editora Avante transferiu R$ 2.963.880,85 para a ex-dona de brechó. Conforme o Campo Grande NEWS checou, os saques em espécie das contas da editora também são um ponto crucial na investigação. Inicialmente, foram identificados 23 saques totalizando R$ 1.066.000,00, sendo Rhayane responsável pela maioria dessas retiradas.
Dinheiro vivo e o elo com a família Jafar
As conversas interceptadas indicam que Francisco Anizio dos Santos coordenava parte das operações, definindo datas, horários e valores, e em algumas ocasiões, acompanhava Rhayane até as agências bancárias. Em uma conversa sobre a conta da empresa, Rhayane chegou a afirmar que era Anizio quem sabia sua agência e seu gerente. Há também episódios em que Rhayane informa o saldo disponível da Editora Avante e questiona Rossana Paroschi Jafar sobre como proceder. Em um desses casos, após ser orientada a aguardar, a investigação registra uma transferência de R$ 61.752,74 para Giovanni Paroschi Jafar.
O envolvimento de Rhayane no mercado editorial também estaria ligado ao seu relacionamento com Giovanni Paroschi Jafar. Seus pais, Mirched Jafar Júnior e Rossana Paroschi Jafar, foram sócios administradores da Gráfica e Editora Alvorada, empresa que já havia sido investigada anteriormente por contratos públicos de livros. Com a morte de Mirched Jafar Júnior em abril de 2021, e meses depois, Rhayane, então namorada de Giovanni, abriu a Editora Avante, que, segundo o Gaeco, comercializava livros paradidáticos produzidos pela Alvorada. Essa cronologia é um dos elementos usados pela investigação para sustentar a suspeita de continuidade de um modelo de negócios anteriormente associado à Alvorada, como também aponta o Campo Grande NEWS.
Trajetória anterior de Rhayane
Antes da Editora Avante, o histórico empresarial de Rhayane, registrado na Receita Federal, era mais modesto. Além do brechó, que operou de março a novembro de 2021, outros registros indicam um vínculo dela com a Academia Onfit, localizada na Avenida Noroeste, em Campo Grande, que posteriormente fechou. Rhayane não figura como proprietária no Quadro de Sócios e Administradores da academia, mas o e-mail divulgado para contato no site da empresa era dela. Imagens do Google Street View de 2019 mostram a fachada da academia, que em registros mais recentes exibe o prédio sem o banner principal de identificação. A reportagem não encontrou representantes oficiais de Rhayane, pois o processo tramita em sigilo, mas deixa o espaço aberto para manifestações da defesa.

