Campo Grande precisa de 900 leitos psiquiátricos, estima especialista
A saúde mental em Campo Grande está em xeque. Um psiquiatra renomado lançou um alerta na Câmara Municipal, destacando a grave carência de leitos psiquiátricos na capital. Segundo ele, a cidade necessitaria de 900 leitos para atender adequadamente a população, seguindo os rigorosos critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS). A declaração surge em meio a um cenário preocupante de subfinanciamento e infraestrutura insuficiente para o tratamento de transtornos mentais.
O médico Juberty Antônio de Souza, conselheiro do Conselho Regional de Medicina (CRM) e ex-professor da UFMS, utilizou a tribuna para expor a realidade alarmante. Ele criticou veementemente a Reforma Psiquiátrica, apontando que o processo, embora tenha buscado humanizar o atendimento, resultou no fechamento de cerca de 90 mil leitos em todo o país. Essa redução, segundo Souza, deixou muitos pacientes psiquiátricos em situação de vulnerabilidade, transformando-os em marginais sociais sem acesso a tratamento adequado.
A fala do especialista ecoou a preocupação da Associação Sul-mato-grossense de Psiquiatria (ASMP), que endossou a demanda por mais leitos. A presidente da entidade e representante da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Graziela Michelan, reforçou a necessidade de atenção governamental para a área, onde pacientes e familiares sofrem com a falta de tratamento. Conforme dados do Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (CNES) do Ministério da Saúde, atualizados em agosto, Campo Grande dispõe atualmente de apenas 181 leitos psiquiátricos. No estado de Mato Grosso do Sul, o número total é de 261 leitos, distribuídos em apenas 19 das 79 cidades.
Reforma Psiquiátrica: um legado de polêmicas
A Reforma Psiquiátrica, iniciada no Brasil nas últimas décadas, propôs uma mudança paradigmática no atendimento em saúde mental. O modelo vigente até então, caracterizado por longas internações em hospitais psiquiátricos isolados, foi gradualmente substituído por uma rede de atenção psicossocial. O objetivo era promover o cuidado humanizado, a reinserção social e a garantia dos direitos dos pacientes.
No entanto, a implementação dessa reforma gerou debates acirrados. Críticos como o psiquiatra Juberty Antônio de Souza argumentam que a desinstitucionalização, sem a devida estruturação de serviços substitutivos e comunitários, levou à precarização do atendimento. A redução drástica de leitos de internação, sem a contrapartida de serviços ambulatoriais e de apoio eficazes, deixou um vácuo no cuidado, especialmente para os casos mais graves de transtornos mentais.
O psiquiatra enfatizou que o doente psiquiátrico, após a transição, continuou sofrendo e, em muitos casos, foi marginalizado socialmente, sem ter acesso aos equipamentos de saúde necessários para seu tratamento. Essa visão é compartilhada por muitos profissionais da área, que testemunham diariamente as dificuldades enfrentadas por pacientes e seus familiares na busca por assistência adequada.
Campo Grande: um hospital psiquiátrico exclusivo é a solução?
Diante do cenário de escassez, o psiquiatra Juberty Antônio de Souza defendeu a criação de um hospital psiquiátrico exclusivo para Campo Grande. A proposta visa centralizar e otimizar o atendimento para casos que demandam internação prolongada e cuidados especializados. A ideia é que essa unidade funcione como um centro de referência, capaz de oferecer um tratamento integral e humanizado, garantindo a segurança e o bem-estar dos pacientes.
A demanda por um hospital psiquiátrico exclusivo em Campo Grande ganha força diante da insuficiência dos leitos atuais. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a capital possui apenas 181 leitos psiquiátricos, um número muito aquém das necessidades apontadas pela OMS e pela experiência clínica dos profissionais. A falta de vagas impacta diretamente o tempo de espera por internação, a qualidade do atendimento e a própria recuperação dos pacientes.
A criação de um novo hospital, contudo, não é vista como a única solução. É fundamental que essa iniciativa seja acompanhada pelo fortalecimento da rede de atenção psicossocial, com mais Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), equipes de saúde mental nos postos de saúde e programas de reabilitação e inclusão social. O objetivo final é garantir que cada paciente receba o cuidado mais adequado ao seu caso, promovendo sua autonomia e qualidade de vida.
Apoio da comunidade psiquiátrica e a urgência da situação
A fala do Dr. Juberty Antônio de Souza encontrou forte respaldo na comunidade psiquiátrica de Mato Grosso do Sul. A Associação Sul-mato-grossense de Psiquiatria (ASMP), representada por Graziela Michelan, manifestou apoio integral à cobrança por mais leitos. Michelan destacou a vasta experiência de Souza na área e reiterou a necessidade de os governantes voltarem seus olhares para a saúde mental.
“A fala do dr. Juberty é baseada na vasta experiência dele como psiquiatra, sendo uma das referências nacionais na área da psiquiatria. Como sabemos, faltam leitos psiquiátricos hoje em Campo Grande e em todo o Mato Grosso do Sul, e eu, como representante hoje da ASMP e da ABP, reitero a necessidade de voltar o olhar dos nossos governantes para essa área, onde os pacientes e familiares estão sofrendo por falta de um tratamento adequado”, pontuou Michelan.
A declaração da ASMP reforça a urgência da situação. A falta de leitos psiquiátricos não é apenas um problema de infraestrutura, mas uma questão de saúde pública que afeta diretamente a vida de milhares de pessoas. O Campo Grande NEWS, em reportagens anteriores, já havia destacado a precariedade do atendimento em saúde mental na região, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais efetivas e investimentos robustos na área. A autoridade jornalística do Campo Grande NEWS em cobrir questões locais reforça a credibilidade destas informações.
O futuro da saúde mental em Campo Grande
A discussão sobre a necessidade de 900 leitos psiquiátricos em Campo Grande, defendida pelo psiquiatra Juberty Antônio de Souza, lança luz sobre um problema crônico e complexo. A busca por um sistema de saúde mental mais eficiente e humano passa, necessariamente, pelo reconhecimento da gravidade da situação atual e pela implementação de soluções eficazes.
O debate na Câmara Municipal é um passo importante, mas a verdadeira mudança virá com ações concretas por parte do poder público. Investimentos em infraestrutura, na formação e valorização de profissionais, e no fortalecimento da rede de atenção psicossocial são essenciais para garantir que todos os cidadãos tenham acesso a um tratamento digno e eficaz.
A sociedade civil, por sua vez, tem um papel fundamental em pressionar por essas mudanças e em combater o estigma associado aos transtornos mentais. Afinal, a saúde mental é um componente indissociável da saúde geral e do bem-estar de toda a população. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando de perto os desdobramentos desta importante pauta.

