Projeto inovador usa cannabis para tratar crianças e mães atípicas em Noronha

Em Fernando de Noronha, um projeto pioneiro está transformando a vida de mães e crianças atípicas. O Projeto Noronha, uma colaboração entre a Abecmed, a AMA-FN e a Administração Distrital, utiliza o canabidiol (CBD), um composto natural da cannabis, para auxiliar no tratamento de condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA) e TDAH. A iniciativa, que já realizou mutirões de saúde gratuitos, também oferece suporte psicológico e acompanhamento para as mães, que muitas vezes lidam sozinhas com a sobrecarga do cuidado.

Projeto em Noronha revoluciona tratamento para autismo e TDAH

A professora Rayane Dixie dos Santos, mãe solo de um menino com TEA de suporte 2 e TDAH, vivenciava crises intensas de agitação e agressividade com o filho. A rotina exaustiva, somada ao cuidado de outro filho e ao trabalho, a levou a um quadro de ansiedade generalizada e problemas de sono. Desde março, o filho de Rayane iniciou tratamento com canabidiol, resultando em uma notável diminuição das crises e melhora comportamental.

O tratamento com CBD foi viabilizado pelo Projeto Noronha, que visa oferecer uma opção integrativa e gerar conhecimento sobre o uso medicinal de canabinoides. Em fevereiro e maio deste ano, o projeto realizou mutirões gratuitos, oferecendo 126 consultas médicas e distribuindo 221 frascos de óleo de canabidiol. A iniciativa agora planeja a construção de uma sede permanente em um terreno cedido pela Administração da ilha, visando um acompanhamento contínuo e integral para as famílias.

“A maior parte dos mutirões de saúde realizados no Brasil acontece uma única vez. Em Noronha, estamos construindo algo diferente. Já voltamos à ilha uma segunda vez, retornaremos a cada três meses e agora estamos ajudando a estruturar uma rede permanente de suporte para essas famílias”, afirma Alexandre Assis, diretor da Abecmed. Essa abordagem contínua é um diferencial importante para a sustentabilidade do apoio.

Cuidado integral: O foco nas mães e suas necessidades

O Projeto Noronha também dedica atenção especial às mães de crianças atípicas. Ladislau Porto, um dos idealizadores, ressalta a importância desse cuidado: “Quando a criança está em crise, ela tem a mãe. Quando a mãe está em crise, ela não tem ninguém”. Por isso, o programa oferece atendimento e acompanhamento psicológico para essas mulheres, que frequentemente assumem sozinhas a responsabilidade pelo cuidado integral dos filhos.

Rebeca Allen, presidente da associação de mães do arquipélago e atendida pelo programa, compartilha sua experiência. Mãe de um menino de sete anos com TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial, Rebeca desenvolveu depressão e ansiedade devido à sobrecarga maternal. “Eu comecei a sentir os sinais em torno de 2023, quando estava em busca de ajuda para o meu filho. Comecei a esquecer das coisas, ter falta de ar e pontadas no coração”, relata.

Após tentar medicações sem sucesso, Rebeca iniciou o tratamento com canabidiol em fevereiro deste ano. Ela notou uma melhora significativa no controle da ansiedade, na qualidade do sono e em sua organização. Seu filho, que também começou o tratamento com CBD em fevereiro, apresentou redução na agressividade e maior colaboração nas terapias e na escola.

Desafios de saúde pública em Fernando de Noronha

A iniciativa em Noronha aborda uma questão estrutural e geográfica que dificulta o acesso à saúde pública na ilha. Com apenas uma unidade de atendimento de média complexidade, o Hospital São Lucas, casos mais graves exigem deslocamento para o continente, a cerca de 545 km de Recife. Essa distância torna os atendimentos médicos complexos bastante cansativos para os moradores.

O isolamento da ilha também contribui para problemas psicológicos, com altos índices de depressão, ansiedade e insônia. Um relatório do segundo mutirão da Abecmed, em maio, indicou que 70,6% dos pacientes buscaram atendimento para questões de saúde mental. Neurodivergências (41,3%), dor crônica (29,6%) e sono (32%) também foram demandas frequentes, com sintomas como ansiedade, insônia e dor crônica sendo os mais relatados.

Diagnósticos de TEA e TDAH foram os principais relacionados a neurodesenvolvimento, cada um presente em 10% dos pacientes. O projeto, como apurado pelo Campo Grande NEWS, busca estudar o impacto social e econômico dessas ações, coletando dados para futuras pesquisas na área. “Estamos coletando dados e iremos levar mais pesquisadores [para o arquipélago], com o intuito de gerar pesquisas na área”, disse Alexandre Assis.

O potencial terapêutico do canabidiol

O interesse no uso medicinal da cannabis tem crescido, com pesquisas desde 2012 apontando seu potencial em tratamentos neurológicos e psicológicos. “Os canabinoides são potentes anti-inflamatórios. Ele tem um efeito antioxidante que é importante em várias condições neurológicas, como epilepsia, esquizofrenia e depressão”, explica o neurologista Eduardo de Sá Faveret, voluntário do Projeto Noronha.

No caso de pessoas com TEA, o canabidiol auxilia no controle da agressividade, insônia e agitação. O CBD atua no sistema endocanabinoide, que regula diversas funções do corpo e pode estar reduzido em pessoas com autismo, levando à hipersensibilidade sensorial. “O canabidiol atua ativando e esgotando os receptores transientes. Na prática, isso reduz essa hipersensibilidade”, detalha Faveret.

Uma vantagem do tratamento com canabidiol, segundo o psiquiatra Wilson Lessa Junior, é a ausência de sedação ou efeitos “dopantes”, comuns em outros medicamentos como Risperidona e Aripiprazol. “O canabidiol acaba tendo essa coisa de diminuir a agressividade, mas sem dar sono, e a pessoa permanece ativa”, afirma. Essa característica é crucial para que crianças com TEA possam se beneficiar plenamente de terapias multidisciplinares, como fonoaudiologia e terapia ocupacional, conforme checado pelo Campo Grande NEWS.

A iniciativa em Fernando de Noronha demonstra um caminho promissor para o tratamento de condições neurológicas e psicológicas, combinando o uso terapêutico da cannabis com um suporte humanizado e contínuo às famílias. A experiência local, documentada pelo Campo Grande NEWS, pode servir de modelo para outras comunidades com desafios semelhantes no acesso à saúde.