Presos da Máxima ficam com menos comida: balança gera tensão na visita

A tensão nas visitas ao Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho, a Máxima, em Campo Grande, tem um peso: a balança. Familiares que levam alimentos para os detentos enfrentam a regra de um limite de 8 kg por preso, mas a principal queixa gira em torno da divergência entre as balanças externas e internas da unidade prisional. Essa diferença gera apreensão sobre a quantidade de comida que realmente chega aos detentos, impactando o momento de encontro familiar.

Tensão na fila da Máxima: a balança é o centro do problema

A Rua Indianápolis, no Jardim Noroeste, em Campo Grande, se transforma aos domingos. É dia de visita na Máxima, e o movimento é intenso. Bolinhas de sabão dançam no ar, anunciando a alegria das crianças, mas para as mães, a preocupação é outra: a balança. O limite de 8 kg de alimentos por detento é um dos pontos de maior atenção, especialmente quando as visitantes preparam com esmero as refeições na noite anterior. A incerteza se a comida levada em casa será a mesma que chegará ao familiar preso gera ansiedade e discussões sobre a eficiência do controle.

Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a preocupação se intensifica pela percepção de que a comida é medida em casa, muitas vezes, no “olhômetro”. A possibilidade de que parte do alimento fique pelo caminho, devido a diferenças nas balanças ou a interpretações da regra, é um receio constante. Uma visitante, que preferiu não se identificar, relatou que antes o limite era de 8 kg e 200 gramas, e a redução de 200 gramas, que pode representar um pequeno bolo, faz diferença.

“A gente tem que ficar tirando um monte de comida”, lamentou outra visitante de 26 anos, que preparou diversos pratos para o marido, incluindo carne, bolos de pote e outros acompanhamentos. Ela reforça que o limite de 8 kg é pouco, e que anteriormente o limite era de 10 kg, o que permitia levar uma quantidade mais satisfatória de alimentos.

Rotina de Visitas e Desafios na Porta do Presídio

As visitantes chegam cedo, muitas vezes antes das 6h30, para garantir um lugar na fila e o atendimento. O processo de identificação e entrada pode se estender, aumentando o tempo de espera, especialmente em dias especiais como o Dia das Crianças. A espera prolongada sob o sol ou chuva é mais um fator de desconforto para as famílias que se deslocam para ver seus entes queridos.

Uma auxiliar de limpeza, de 32 anos, que mora no Jardim Los Angeles, explicou que acordou às 5h30 para levar os quatro filhos para visitar o esposo. Ela mencionou que gastou R$ 33 com transporte por aplicativo para chegar ao presídio. A preparação da comida na noite anterior envolveu arroz, feijão, macarrão, carne com batata e mandioca, demonstrando o esforço em prover uma refeição caseira e completa.

A rotina de visitas é encarada como um dever e um momento importante de conexão familiar. A dificuldade em otimizar o processo de entrada e a rigidez nas regras de peso são pontos que geram frustração. Um adolescente de 14 anos, presente na visita, sugeriu que o processo de entrada poderia ser mais rápido, evidenciando a percepção de que a eficiência poderia ser melhorada.

A Perspectiva da Agepen: Segurança e Higiene em Primeiro Lugar

Em resposta às preocupações, a Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen) esclarece que a limitação de 8 kg de alimentos prontos no Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho atende a critérios rigorosos de segurança e higiene. A Agepen explica que grandes volumes de comida pronta podem aumentar a geração de restos alimentares e sujeira, impactando a higiene, o controle de pragas e a segurança do ambiente prisional.

A medida, que está em vigor há cerca de dois anos na unidade, visa evitar riscos à saúde e à salubridade. A agência ressalta que os alimentos devem ser consumidos no dia da visita, pois não há meios adequados de conservação ou armazenamento nas celas. Essa diretriz busca garantir que os detentos recebam alimentos em condições seguras e adequadas para consumo imediato, conforme informações divulgadas pela própria Agepen.

O Comércio na Rua Indianápolis: Uma Alternativa para as Famílias

Enquanto as famílias enfrentam as regras e a espera, a Rua Indianápolis se destaca por um movimento comercial intenso em dias de visita. Vendedores ambulantes oferecem uma variedade de produtos, como bolos, brinquedos e churrasco, complementando as opções para as famílias. O cozinheiro Jhonatan Henrique Ajala, de 30 anos, é um desses empreendedores que frequenta o local todos os fins de semana.

Ele comercializa carne, mandioca, farofa e maionese, sendo a carne o item de maior saída. O preço do quilo da carne é R$ 100, e em cada dia de visita, cerca de 40 kg de alimentos são vendidos. Ajala iniciou o negócio há dois anos, após um comentário de sua cunhada sobre a falta de opções de comida na região, e encontrou no local uma oportunidade de trabalho, conforme relatado ao Campo Grande NEWS.

A presença desses vendedores demonstra como a comunidade se adapta às necessidades e desafios impostos pela rotina do sistema prisional. Eles oferecem uma alternativa prática para as famílias, complementando a comida trazida de casa ou suprindo alguma necessidade de última hora, como aponta a apuração do Campo Grande NEWS.

Atualmente, a Máxima de Campo Grande abriga 2.580 detentos, segundo a plataforma Geopresídios do CNJ. A capacidade da unidade, no entanto, é para 1.151 internos, o que evidencia a superlotação e os desafios de gestão do sistema penitenciário no estado.