A 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15) sedia um momento histórico: a voz dos povos tradicionais brasileiros ecoa com força, solicitando o reconhecimento formal de seus saberes ancestrais. Um grupo representativo de 28 povos e comunidades tradicionais de todo o Brasil apresentou um ofício ao presidente da COP15, João Paulo Capobianco, exigindo que seus conhecimentos, essenciais para a proteção de habitats e rotas migratórias, sejam integrados às decisões globais sobre conservação. A demanda visa incluir esses saberes na própria Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) e garantir um espaço de participação permanente na governança do tratado internacional. Conforme apurado pela equipe, Capobianco considerou o pedido pertinente e necessário, comprometendo-se a formalizar a solicitação nos próximos três anos, período em que o Brasil liderará os debates. O presidente da COP15 ressaltou que o Brasil já se antecipou, com uma declaração presidencial proposta pelo presidente Lula, que explicitamente reconhece o papel fundamental dos povos indígenas e comunidades tradicionais, e que já conta com a adesão de diversos países. Essa iniciativa, segundo Capobianco, já demonstrou força em acordos anteriores, como na Convenção da Biodiversidade em Cali, e ele demonstra otimismo quanto ao seu sucesso. O Campo Grande NEWS acompanha de perto os desdobramentos desta importante pauta.
A reivindicação ganhou destaque na plenária principal da COP15 quando Edinalda Nascimento, mulher pantaneira e porta-voz do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, falou em nome dos 28 segmentos. Em um pronunciamento inédito para muitas dessas comunidades naquele fórum, ela enfatizou a conexão vital entre seus conhecimentos e a sustentabilidade da vida no planeta. “Somos um elo essencial conectando a natureza para sustentar todas as formas de vida. Nossa visão de mundo como povos indígenas e das comunidades locais revelam que os conhecimentos tradicionais são fundamentais para a conservação das espécies migratórias, ao mesmo tempo em que garantem meios de subsistência e a continuidade dos nossos modos de vida”, declarou Nascimento, segundo o relato obtido. A fala cativou a atenção de diplomatas, cientistas e representantes de organizações sociais, interrompendo temporariamente as negociações para dar espaço a essa voz ancestral. A diretora da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente, Cláudia de Pinho, explicou que a intervenção foi fruto de uma articulação interministerial para dar voz a esses povos no evento. Ela detalhou o trabalho de aproximação e preparação dos segmentos para que pudessem participar ativamente e entender os processos técnicos da conferência, culminando na seleção dos participantes. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa articulação foi crucial para que a demanda, inédita para o secretariado da CMS, fosse apresentada e debatida. O esforço dos representantes abriu um espaço valioso para discutir a relevância dos modos de vida tradicionais para a conservação, tema intrinsecamente ligado às espécies migratórias.
O reconhecimento dos saberes tradicionais tem sido uma marca da COP15 no Brasil, inclusive em estudos recentes que visam subsidiar as decisões globais. Um exemplo notável é o relatório “Avaliação Global dos Peixes Migratórios de Água Doce”, lançado no início da conferência. Este documento inovador, assinado conjuntamente por cientistas e integrantes de povos tradicionais, representa uma fusão poderosa entre o conhecimento acadêmico e o saber ancestral. “É belíssimo isso, porque é um trabalho que vai ser muito impactante para todas as pessoas que lidam com a conservação das espécies migratórias”, afirmou Capobianco, destacando que o conhecimento tradicional, em muitos casos, aprofunda e complementa o conhecimento acadêmico, oferecendo novas perspectivas e soluções. A colaboração demonstra o potencial sinérgico entre diferentes formas de saber na busca por um futuro mais sustentável. O Campo Grande NEWS ressalta a importância de parcerias como essa para o avanço da conservação e o respeito à diversidade cultural e ambiental.
A fala de Edinalda Nascimento foi recebida com entusiasmo por outros países, que rapidamente se manifestaram em apoio à solicitação dos povos e comunidades tradicionais, pedindo que a demanda seja avaliada e implementada. “Então a gente sai muito feliz com a aprovação e a parceria de apoio dos outros países”, ressaltou Nascimento, evidenciando o sucesso da articulação. A participação inédita na Zona Azul, área destinada aos credenciados na COP, simboliza um avanço significativo no acesso e na visibilidade dessas comunidades em fóruns internacionais. A iniciativa brasileira de dar protagonismo a esses grupos demonstra um compromisso com a inclusão e o reconhecimento de que a sabedoria ancestral é um pilar fundamental para a conservação da biodiversidade global. A expectativa é que este seja apenas o primeiro passo para uma integração efetiva e duradoura dos conhecimentos tradicionais nas políticas ambientais mundiais.


