A violência institucional da Ditadura Militar em Mato Grosso do Sul volta a ser discutida com a revelação do Ministério Público Federal (MPF) sobre o “Plano Tarrafa”. Este documento secreto, até então desconhecido, lista 63 cidadãos que seriam presos preventivamente em quartéis. A descoberta levou o MPF a desistir de uma mediação judicial e partir para uma Ação Civil Pública contra a União, buscando reparação financeira para as vítimas de violações de direitos no período.
MPF busca reparação para vítimas da Ditadura no MS
O documento, elaborado pelo Comando da 9ª Região Militar em conjunto com a DOPS e a Polícia Federal, catalogava profissionais liberais, políticos e jornalistas considerados subversivos pelo regime. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, o plano detalha a intenção de deter indivíduos considerados “subversivos” e “comunistas”, utilizando o nome “Tarrafa” em referência à rede usada para pescar cardumes, simbolizando a abrangência da operação.
A investigação jornalística do Campo Grande NEWS revelou que o “Plano Tarrafa” foi uma operação secreta de inteligência. Embora a data impressa no relatório sigiloso seja 1981, a elaboração do plano é anterior, remontando ao período da Ditadura Militar. A existência deste planejamento estatal prévio e sistemático de detenção ilegal de civis em Campo Grande e Aquidauana foi comprovada, segundo o despacho da procuradora Samara Yasser Yassine Dalloul.
Mapeamento de “subversivos” no Sul de Mato Grosso
A operação visava a prisão de 63 alvos diretos na porção sul do antigo Mato Grosso, que viria a se tornar Mato Grosso do Sul. A lista incluía profissionais liberais, camponeses, professores, políticos e lideranças comunitárias. Em Campo Grande, 21 nomes foram catalogados para encarceramento. Outras prisões estavam planejadas em cidades como Corumbá, Ponta Porã, Jardim, Dourados, Aquidauana, Miranda e Porto Murtinho. O plano também estendia sua vigilância a mais de 25 alvos em municípios do atual estado de Mato Grosso.
Entre os principais alvos, classificados como “Prioridade 01”, estavam os irmãos Alberto, Renê e Humberto Neder, com destaque para o médico Alberto Neder, rotulado como “comunista confesso”. Também figuravam o médico William Maksoud, ex-vereador em Campo Grande, e o comerciante paraguaio Ricardo Apolinário Granda. O vice-prefeito de Campo Grande na época, Nelson Trad, e o futuro senador Pedro Chaves dos Santos Filho, foram fichados por demonstrarem interesse em bolsas de estudo na Rússia, no caso de Chaves.
Perseguição no meio acadêmico e na imprensa
O ambiente universitário foi duramente atingido. O professor e engenheiro civil Francisco Fausto Mato Grosso Pereira foi catalogado na “Prioridade 01” por sua militância estudantil e críticas à reitoria da então Universidade Estadual de Mato Grosso, o que resultou em sua demissão. Mesmo afastado, ele manteve articulações com lideranças do MDB. A esposa de Fausto, Maria Augusta Rahe, era vigiada sob a acusação de distribuir o jornal estudantil “O Biológico”.
Os meios de comunicação locais também estiveram sob vigilância contínua. O jornal “O Democrata” e seus colaboradores, como Itamar Barreira de Macedo e Abel Freire de Aragão, foram alvos. Jornalistas como Antônio Roberto de Vasconcelos, Ronaldo Arruda Castro e Waldemar Ballock, além de locutores de rádio, também compunham a lista de alvos. As fichas individuais detalhavam endereços, histórico de cassações de direitos com base no AI-2 e acusações genéricas de “atividades subversivas”.
Documentação robusta e Ação Civil Pública
A investigação, que se estende por 10 anos, angariou documentação extensa sobre a repressão na região. O MPF aponta que o aparelho militar operava por meio de eixos estruturados, incluindo a atuação da Ademat, apontada como uma milícia paramilitar de extrema-direita. Relatórios de inteligência do SNI e a prática de torturas em embarcações militares no Rio Paraguai também são mencionados. No campo, a repressão agrária aliou forças armadas a latifundiários, resultando em campos de prisioneiros e despejos violentos.
Com a comprovação da materialidade e autoria de graves violações de direitos humanos, o MPF decidiu pela Ação Civil Pública. A procuradora destacou a inviabilidade de mediação consensual devido à obstrução e falta de cooperação das Forças Armadas no acesso a documentos históricos. A ação buscará retratação pública do Estado, exibição de documentos, indenização por danos morais coletivos e responsabilização patrimonial dos herdeiros dos agentes repressores. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a ação visa garantir que a Justiça seja feita.
Em caráter de urgência, o MPF determinou a realização imediata de depoimentos de testemunhas e vítimas sobreviventes, com prioridade para os mais idosos. Foi requisitada a entrega de diários de bordo e livros de registro de prisioneiros ao Comando Militar do Oeste e ao 6º Distrito Naval. O Comitê de Memória e Verdade de Mato Grosso do Sul (CMVJ-MS) desempenhou um papel crucial no resgate factual e na consolidação dos nomes e episódios investigados, auxiliando na identificação de vítimas e familiares. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a colaboração do comitê foi fundamental para atualizar a lista de testemunhas vivas e consolidar os episódios que embasarão as pretensões de reparações judiciais.
A cronologia do caso remonta a 2011, com a abertura de um procedimento preparatório. Em maio de 2016, foi instaurado o Inquérito Civil para apurar graves violações de direitos humanos. Após um período de desaceleração devido à pandemia, a nova gestão da procuradoria reativou as oitivas e propôs tratativas com o Centro de Justiça Restaurativa (CEJURE/MS). Em agosto de 2026, a análise de mídias recuperadas do Arquivo Nacional revelou a íntegra do “Plano Tarrafa”, levando à decisão pelo ajuizamento direto da Ação Civil Pública. O MPF/MS informou que o inquérito civil é público e instruído majoritariamente com documentos do Arquivo Nacional, disponíveis ao público em geral. Conforme o Campo Grande NEWS publicou, os encaminhamentos e conclusões serão apresentados à Justiça Federal.

