Uma médica veterinária foi presa em flagrante em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, após transformar seu pet shop em um laboratório clandestino para a produção e comercialização de substâncias. Raylane Diba Ferrari, dona do estabelecimento no Bairro Universitário, é acusada de misturar produtos veterinários, como tônicos capilares e pomadas para cavalos, e vendê-los nas redes sociais como cosméticos para uso humano. A operação foi deflagrada após uma denúncia ao Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MS).
Veterinária presa por vender produtos veterinários como cosméticos humanos
A veterinária Raylane Diba Ferrari foi autuada por comercializar produtos considerados impróprios para consumo humano. Conforme o delegado Wilton Vilas Boas, titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Contra as Relações de Consumo (Decon), foram apreendidos 65 frascos adulterados, prontos para venda. A prática configura infração à Lei nº 8.078/90, que trata dos crimes contra as relações de consumo, e pode resultar em pena de dois a cinco anos de detenção.
O pet shop, registrado em março de 2023, tinha como atividade principal o comércio de artigos e alimentos para animais de estimação, além de licenças secundárias para venda de produtos alimentícios, medicamentos veterinários e atendimento a animais. No entanto, a investigação revelou que o local também funcionava como uma “fábrica” para a manipulação de produtos veterinários destinados ao público humano.
O caso ganhou destaque após a influencer, que acumula milhares de seguidores, anunciar nas redes sociais um suposto tônico capilar milagroso para crescimento e fortalecimento dos cabelos. Além disso, ela promovia uma pomada para cavalos como um potente analgésico para dores musculares humanas, com a promessa de que “só não tira dor de chifre”, segundo o anúncio. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o pet shop não possuía autorização sanitária ou controle técnico para a manipulação dessas substâncias.
Produção sem controle e riscos à saúde
Um funcionário foi flagrado participando do processo de “fabricação” do tônico, mas não foi preso em flagrante. O delegado ressaltou que, por não terem conhecimento técnico, os funcionários não foram autuados no momento, mas a participação de cada um será avaliada durante a investigação. A polícia apura também o nível de conhecimento da investigada sobre a ilegalidade da prática, considerando que ela é médica veterinária registrada no CRMV-MS desde junho de 2020.
“A lei é para todos. E, pelo fato de ela ser profissional da área, presume-se que tenha conhecimento técnico sobre a destinação correta desses produtos”, afirmou Vilas Boas. Ele destacou a diferença crucial entre o uso individual e a comercialização: o produto ser autorizado para uso veterinário não o torna apto para consumo humano. Essa destinação indevida configura infração administrativa e criminal.
Sobre os riscos à saúde, o delegado alertou que, embora apenas perícia possa apontar os efeitos específicos, a ausência de testes para uso humano já representa um perigo. “Esses produtos são testados para uso veterinário. Já os de uso humano passam por estudos específicos. Nesse caso, não há como garantir qual será a reação”, explicou.
Defesa alega falta de intenção e nega influência na produção
Até o momento, não há confirmação de consumidores que tenham sofrido danos após o uso das substâncias, mas a polícia não descarta a possibilidade de surgirem vítimas ao longo da investigação. A veterinária optou por permanecer em silêncio durante o interrogatório e deverá se manifestar apenas em juízo. Ela passará por audiência de custódia nesta terça-feira (5).
O advogado de defesa, Ângelo Bezerra, declarou que a linha de defesa se concentrará na ausência de intenção e no papel de influenciadora da cliente. Segundo ele, Raylane apenas divulgava e revendia o produto, sem ter conhecimento técnico sobre manipulação de químicos ou riscos aos consumidores. “Ela divulgava um produto e mostrava a fabricação, mas a produção não era dela. Não houve intenção de prejudicar ninguém”, afirmou.
Questionado sobre a participação da veterinária na manipulação, o advogado argumentou que a prática deve ser vista no contexto de atuação como influenciadora digital, onde o objetivo é expor um produto para revenda. “Muitas vezes, a forma como ele é fabricado ou manipulado foge ao conhecimento desses influenciadores”, disse. A defesa sustenta ainda que a investigada apenas promovia uma “mistura” já conhecida e comercializada nacionalmente em outros locais, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Ainda segundo o advogado, a questão técnica sobre o conhecimento da veterinária acerca da impossibilidade de uso humano do produto será investigada. “Se ela tinha ou não essa informação, isso será investigado pela polícia e avaliado pelo Judiciário no momento oportuno, para verificar se há ou não ilegalidade”, pontuou. O caso segue em andamento, com a expectativa de que mais detalhes venham à tona com o prosseguimento das investigações, conforme noticiado pelo Campo Grande NEWS.

