PCC comanda metade das prisões em MS, dizem planilhas

Planilhas apreendidas em 2020 pela Operação Ponto Cego detalham a estrutura do PCC (Primeiro Comando da Capital) no sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul. Os documentos, que incluem 426 cadastros, mostram como integrantes ingressam formalmente na facção dentro de presídios, circulam por diferentes unidades e assumem funções de comando, disciplina, finanças e comunicação territorial, revelando a profunda penetração da organização criminosa no estado. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a informação detalha como a facção opera internamente nas unidades prisionais.

Presídios de MS são centros de poder para facções criminosas

O sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul se consolida como um pilar fundamental na estrutura do PCC. Relatórios da Operação Ponto Cego, deflagrada em 2020, expõem planilhas com 426 cadastros de membros que formalizam sua entrada na facção dentro das próprias unidades prisionais. Presídios como a Penitenciária de Dois Irmãos do Buriti e o Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande aparecem como locais de ingresso, de onde os indivíduos passam a exercer funções regionais chave, incluindo disciplina, finanças e comando territorial.

Em 2020, o PCC já marcava presença em sete presídios de Mato Grosso do Sul, além de ter membros mapeados em 16 municípios. Atualmente, o cenário é ainda mais alarmante. O secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira, estima que pelo menos 50% dos presídios de MS abriguem integrantes ou simpatizantes de facções criminosas. Embora o PCC seja predominante, o Comando Vermelho (CV) também atua nas unidades.

Videira ressalta que a superlotação agrava a vulnerabilidade dos presos à cooptação por essas organizações. As duas facções disputam, no estado, rotas de tráfico de cocaína oriundas da Bolívia e do Paraguai, intensificando a disputa por controle territorial e financeiro.

Estrutura interna e progressão de membros

As planilhas apreendidas revelam um detalhado registro de cada integrante, com informações como data e local do “batismo” (ingresso formal na facção), cidade de origem, área de atuação, funções exercidas e “últimas faculdades”, expressão utilizada para designar os presídios e estabelecimentos penais pelos quais passaram. Esses arquivos, encontrados em um telefone em julho de 2020, permitiram ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) identificar 110 integrantes, dos quais 100 foram denunciados.

O “batismo” é a cerimônia de entrada formal na organização, e em muitos casos, o local informado coincide com a unidade prisional onde o indivíduo estava detido. Um exemplo citado é o de um homem identificado como “Koringa” ou “Sheik”, cujo ingresso foi registrado em 11 de junho de 2018, na Penitenciária de Dois Irmãos do Buriti. Sua ficha detalha passagens pela própria unidade, pelo Estabelecimento Penal de Coxim e pelo Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande, antes de assumir a função de “Salveiro da Disciplinar Rota Norte”, responsável por transmitir e guardar comunicados da facção.

Outro membro, “Metralha”, também conhecido como “Salsicha”, teve seu batismo anotado em 10 de dezembro de 2018, na mesma Penitenciária de Dois Irmãos do Buriti. Sua ficha aponta como “últimas faculdades” a unidade de Dois Irmãos e a Penitenciária de Segurança Máxima de Campo Grande. Sua cidade de origem é Rio Verde de Mato Grosso, e sua “quebrada atual” é São Gabriel do Oeste, demonstrando a conexão entre o ingresso no presídio, a circulação por unidades e a vinculação territorial a outro município.

O papel do Presídio de Segurança Máxima e a progressão de funções

O Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho, conhecido como Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande, figura repetidamente nos registros. Em alguns casos, o local do batismo é especificado como “Máxima PV 2A”, referindo-se ao Pavilhão 2A da unidade. Integrantes desse pavilhão são associados a funções que transcendem os muros da prisão, como “Disciplina PV 2A”, “Geral Regional Norte” e “Geral da Capital”.

Essa progressão, apontada pela acusação, inicia com responsabilidades disciplinares internas e avança para funções ligadas a regiões e à própria capital. Outro integrante teve seu ingresso registrado no mesmo pavilhão em outubro de 2016. Sua ficha menciona passagens por Naviraí, Máxima e Gameleira, além de funções internas ligadas ao Pavilhão 2A e ao “Geral dos Caixas MS”, setor financeiro da organização. As anotações não detalham os critérios para essas promoções ou mudanças, nem confirmam que todos os recolhidos nesses pavilhões integrem a facção.

Dourados, RDD e a influência regional

A Penitenciária Estadual de Dourados (PED) também se destaca no relatório. Um membro identificado como “Fronteira” teve seu batismo registrado em 28 de dezembro de 2017, no campo “PAK PED RDD”, indicando a PED e o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). Seu histórico penitenciário confirma sua prisão na unidade na data anotada. O cadastro ainda conecta sua trajetória a Mundo Novo e Dourados, reforçando a ligação entre uma penitenciária regional e municípios do extremo sul do estado.

Relatórios penitenciários anexados ao processo indicam que presos apontados como integrantes ou simpatizantes eram mantidos em pavilhões ou celas de convívio com membros da mesma facção, sob a justificativa de evitar confrontos com grupos rivais. Essa segregação, embora necessária para gerenciar conflitos internos, também concentra presos com vínculos semelhantes, facilitando a organização e a comunicação dentro e fora das grades, como aponta o Campo Grande NEWS.

Naviraí e a atuação no interior do estado

A Penitenciária de Segurança Máxima de Naviraí (PSMN) aparece tanto como local de custódia quanto como ponto de passagem na trajetória de integrantes ligados ao Cone Sul. Um membro, conhecido por diversos nomes como “Beiço”, “Don Ruan” e “Leo”, teve seu ingresso registrado em Mundo Novo, mesmo estando em liberdade. Sua ficha, contudo, registra passagens ligadas a Fátima do Sul, Eldorado e Naviraí.

Posteriormente, ele assumiu funções como “Geral do Interior de MS”, “Salveiro da Disciplinar Regional Conesul” e “Disciplinar Conesul”. Neste caso, o presídio não é a porta de entrada, mas sim uma etapa em uma trajetória que atravessa diferentes cidades, culminando em responsabilidades regionais. O processo também informa que ele foi recolhido na unidade de Naviraí e, posteriormente, transferido para a Penitenciária Estadual de Dourados. As planilhas citam ainda outras unidades, como o Centro Penal Agroindustrial da Gameleira e o Presídio de Trânsito, formando um histórico resumido da passagem do integrante pelo sistema penal, informações valiosas para a facção saber sobre a situação prisional e os contatos de seus membros.

A conexão entre dentro e fora das grades é evidenciada nas funções de “Disciplina” e “Geral”. Integrantes nessas posições acompanham membros e simpatizantes em liberdade, recebem orientações de lideranças presas e repassam informações. Um episódio citado no relatório descreve suspeitos de tentar furtar uma agência bancária que afirmaram ter recebido ordens de lideranças da facção presas, demonstrando a capacidade de comando exercida a partir das unidades penais, como também verificado pelo Campo Grande NEWS.