O Parque do Lageado, em Campo Grande, é um retrato de contrastes. Embora a violência e a vulnerabilidade social sejam realidades palpáveis, com a segunda menor renda per capita (R$ 332,65) e a segunda maior taxa de analfabetismo (9,55%) da cidade, segundo o Censo 2022 do IBGE, o bairro pulsa com iniciativas que buscam um futuro melhor. Projetos sociais a cada esquina revelam a força da comunidade em transformar a própria realidade, um aspecto que muitas vezes escapa das manchetes.
Lageado: Desafios e resiliência em Campo Grande
Criado na década de 1980 a partir da desapropriação de fazendas, o Parque do Lageado cresceu ao redor de infraestruturas que geram distanciamento, como o Presídio Federal, uma estação de tratamento de esgoto e o antigo lixão a céu aberto da Capital. Essa expansão, conforme informações da prefeitura, pressionou a Bacia do Córrego Lajeado, vital para o abastecimento de água, mas que figura entre as mais degradadas. O bairro, que abriga 16.653 habitantes, conforme o Censo 2022, também se destaca negativamente em indicadores socioeconômicos.
No ano passado, o Parque do Lageado esteve entre os bairros com maior registro de homicídios, segundo o painel de monitoramento criminal da Sejusp. A violência recente, como o assassinato de Luiz Guilherme da Costa dos Santos, de 20 anos, em 3 de junho, reforça a percepção de insegurança.
Moradores antigos lembram de um passado marcado por disputas entre gangues. Lucilene Santana, que vive no bairro há seis anos, relata que, apesar de ter se mudado para uma casa bem estruturada, a frequência das viaturas policiais é notória. “Aqui, para respeitar, é só o Choque”, percebe, em referência ao Batalhão de Choque da Polícia Militar. Contudo, o medo não a paralisou; pelo contrário, a impulsionou a agir.
É nesse cenário desafiador que florescem projetos sociais dedicados a mudar o destino de crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade. O trabalho incansável de voluntários, como o que o Campo Grande NEWS checou, demonstra a resiliência e a esperança que movem a comunidade.
Instituto Misericordes: Transformando vidas a partir do antigo lixão
Um dos projetos sociais mais antigos do Parque do Lageado surgiu em 2013, em meio ao antigo lixão. Idealizado pelo padre Agenor Martins, o Instituto Misericordes, que hoje funciona em um terreno doado pela prefeitura, dedica-se a mudar o futuro de crianças e adolescentes de 6 a 15 anos.
As atividades incluem refeições nutritivas, reforço escolar, esportes e educação ambiental. Pais e avós também são amparados com doações de alimentos e oficinas de geração de renda. Cerca de 80 famílias são atendidas direta e indiretamente, como garante a presidente Nilda Silva. “Os frutos desse projeto que moravam debaixo da lona cresceram, depois ficaram aqui como voluntários um tempo. Hoje, os encontramos no supermercado, no salão de beleza, trabalhando aqui pelo bairro”, comemora.
O projeto, embora fundado por um católico, não tem enfoque religioso. “A intenção é que a inserção traga uma mudança radical de vida. A gente prega princípios, tem o esporte, a música, qualidade alimentar. Pontos criteriosos para inserir na comunidade local por meio do trabalho social”, explica a voluntária Daniela Rodrigues. A psicóloga social Irmã Regina Bastos observa melhorias até na fisionomia dos assistidos logo após a matrícula.
Uma iniciativa peculiar é a “misereca”, cédula fictícia criada pelo padre Agenor para ensinar educação financeira. As crianças aprendem a poupar, e a indisciplina pode ser punida com um “imposto”. O instituto é mantido por emendas parlamentares, convênios com a prefeitura e doações.
Fraternidade Despertar e Opammas: Oportunidades em espaço reativado
Próximo ao Misericordes, os projetos Fraternidade Despertar e Opammas funcionam em um espaço cedido por um empresário espírita. Gerenciado pelo policial penal e comerciante Gilson Martins, o local oferece aulas de informática, artes, recreação, futebol, vôlei e pilates para crianças e famílias. Um voluntário ensina cultivo de horta e plantio de mudas de árvores nativas.
Reativado há apenas três meses, o espaço já tem todas as vagas ocupadas por jovens de 6 a 17 anos. A oferta de lanches evoluiu para almoços para os que mais necessitam, como relata Gilson. Lucilene Santana, que também atua nesses projetos, percebe a alegria e a necessidade das crianças: “Querem vir todos os dias porque aqui tem o que eles não têm em casa”, afirma. Ela estima a existência de outros cinco projetos nas proximidades.
Gilson, que trabalha em presídio, ouve relatos que reforçam a importância da assistência social. “Muitos falam que têm pais e irmãos presos. Vejo que eles têm muitos irmãos em casa também. São muitas mulheres jovens grávidas, a taxa de natalidade aqui deve ser bem alta”, observa.
CEU das Artes: Espaço público com potencial a ser explorado
Inaugurado há quase um ano, o Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) das Artes é administrado pela prefeitura e conta com um CRAS (Centro de Referência em Assistência Social), salas para aulas culturais, biblioteca, quadras esportivas e pista de skate. A reportagem do Campo Grande NEWS visitou o local e constatou que, apesar da estrutura nova, o movimento era reduzido.
O coordenador do CRAS, Ismael de Deus Lima, explica que a gestão é compartilhada entre as fundações de Cultura e Esporte, mas a nomeação de um gestor para a área externa e a instalação de ar-condicionado no auditório ainda são pendências. O cadastro para programas sociais, demanda principal, ocorre em prédio separado, mas reuniões familiares são no CEU.
As demais atividades do CRAS concentram-se no prédio novo, com equipes de psicólogos e assistentes sociais que visitam famílias em suas casas, especialmente mães solo. “É um bairro em que há muitas mulheres que precisam cuidar dos filhos e têm dificuldade de entrar no mercado de trabalho. Um bairro com problemas crônicos”, reforça Ismael, evidenciando a complexidade da realidade do Parque do Lageado.
Desafios nas ruas: Animais abandonados e descarte irregular de lixo
Nas ruas do Parque do Lageado, onde muitos se deslocam a pé, o asfalto é escasso em algumas vias. Cães e gatos abandonados são uma visão comum, um problema que o voluntário Gilson Martins presenciou diversas vezes. “Moro em outro bairro, mas ando muito por aqui e já vi vários casos. Tinha que fazer alguma coisa”, desabafa.
O descarte irregular de lixo também assola o bairro, apesar da presença de pessoas que trabalham com reciclagem. “Acham que aqui é depósito. Que tudo o que não serve têm que jogar aqui”, revolta-se Gilson, apontando para a falta de consciência e respeito com o espaço público. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando as iniciativas e os desafios enfrentados pela comunidade do Parque do Lageado.

