Gerson Palermo, um dos criminosos mais perigosos do Brasil, desembarcou em Campo Grande nesta quarta-feira (27), vindo da Bolívia em uma aeronave da Polícia Federal. Foragido por seis anos após ser solto em circunstâncias questionáveis, Palermo, que possui condenações que somam mais de 120 anos de prisão por tráfico de drogas, sequestro de aeronave e envolvimento com o PCC, já foi beneficiado por duas decisões judiciais em Mato Grosso do Sul. A última delas, em 2020, é cercada por suspeitas de corrupção. Conforme informações divulgadas, Palermo seguirá para a Superintendência da PF e, posteriormente, para um presídio federal, onde voltará a cumprir pena.
Palermo de volta a Campo Grande após extradição da Bolívia
A chegada de Gerson Palermo a Campo Grande marca o fim de um período de seis anos em que o criminoso esteve foragido. Extraditado da Bolívia pela Polícia Federal, ele foi recebido em solo sul-mato-grossense e encaminhado às autoridades locais. Sua presença em Mato Grosso do Sul reacende o debate sobre os benefícios judiciais que ele já obteve no estado, que, em duas ocasiões distintas, o tiraram do regime fechado.
O primeiro ‘erro’ judicial: progressão de regime em 2010
O primeiro episódio que aliviou a situação prisional de Palermo em Mato Grosso do Sul ocorreu em 2010. Na época, ele já acumulava quatro condenações que somavam 66 anos e 9 meses de reclusão por diversos crimes, incluindo tráfico de drogas, associação ao tráfico, roubo, formação de quadrilha e sequestro de aeronave. Uma decisão judicial permitiu que ele deixasse o Instituto Penal de Campo Grande e fosse transferido para o regime semiaberto no complexo da Gameleira, com a prerrogativa de retornar à prisão apenas para dormir.
No entanto, a decisão foi revista menos de um mês depois. Em 29 de novembro de 2010, o juiz substituto da Primeira Vara de Execução Penal, Albino Coimbra Neto, determinou o retorno de Palermo ao regime fechado. A justificativa formal foi uma falha no cálculo da pena, onde uma nova condenação não havia sido considerada pelo juiz Alexandre Antunes ao conceder a progressão de regime. O cálculo inicial indicava que Palermo havia cumprido 21 anos e 11 dias de prisão, já com remições. Contudo, com a condenação que ficou de fora do cálculo inicial, restavam ainda 45 anos, 8 meses e 19 dias de pena a cumprir, o que exigia a permanência no regime fechado.
Este lapso ocorreu mesmo com Palermo já sendo considerado um criminoso de alta periculosidade, notório pelo sequestro de um Boeing da Vasp em 2000, um crime cinematográfico que envolveu o roubo de milhões em malotes bancários por uma quadrilha. Conforme o Campo Grande NEWS checou em reportagens da época, a capacidade de articulação de facções criminosas, como o PCC, já era evidente no sistema prisional sul-mato-grossense. Em 2008, uma rebelião no Instituto Penal de Campo Grande, com a participação de presos ligados ao PCC, evidenciou essa capacidade.
O segundo ‘benefício’: suspeita de corrupção em 2020
Doze anos após o primeiro incidente, a história se repetiu, desta vez com contornos ainda mais graves. Em 2020, Palermo obteve um novo benefício que o tirou da prisão, através de uma decisão do desembargador Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS). Posteriormente, o magistrado foi alvo de acusações de venda de habeas corpus e acabou sendo aposentado compulsoriamente. A partir dessa decisão, Palermo passou a ser considerado foragido.
A recaptura de Palermo nesta semana ocorreu após uma investigação que teve início em outubro do ano passado. Segundo a Polícia Civil, a apuração começou após o criminoso supostamente ordenar o sequestro de sua própria filha, de 25 anos, em Campo Grande. O motivo seria uma disputa por R$ 50 mil, com origem ligada ao tráfico de drogas. A jovem foi mantida em um cativeiro e, após sua libertação, colaborou com a polícia para a identificação dos sequestradores.
Esta investigação foi um esforço conjunto que envolveu o Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros), o Núcleo de Inteligência Policial da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), a Polícia Federal e a FELCN (Força Especial de Combate ao Narcotráfico da Bolívia). A troca de informações entre essas forças-tarefa foi crucial para localizar Palermo em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. O histórico de Palermo inclui tráfico internacional de drogas, uso de aeronaves e caminhões para o transporte de entorpecentes, e a condenação pelo sequestro da aeronave da Vasp, além de fugas prolongadas após decisões judiciais hoje cercadas por suspeitas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a complexidade dos crimes atribuídos a Palermo demonstra a sua periculosidade.
A volta de Palermo ao sistema prisional federal em Campo Grande reforça a atuação das forças de segurança na captura de criminosos de alta periculosidade. A análise dos casos anteriores levanta questionamentos sobre a segurança jurídica e a eficácia dos mecanismos de controle dentro do sistema judiciário. O caso de Palermo, com suas duas saídas da prisão por meio de decisões judiciais controversas, serve como um alerta sobre a necessidade de aprimoramento contínuo dos processos e da fiscalização judicial. O Campo Grande NEWS acompanha de perto os desdobramentos desta e de outras investigações que envolvem figuras do crime organizado.

