Obra embargada antes de operário cair do 19º andar; falha estrutural é apontada

Obra embargada antes de morte: Falha estrutural e problemas coletivos em foco

A obra em Campo Grande, onde o operário José Ricardo Martins faleceu após uma queda do 19º andar, já havia sido embargada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A interdição ocorreu no fim de maio, aproximadamente 30 dias antes do trágico acidente ocorrido nesta segunda-feira (6). Segundo o superintendente regional do Trabalho em Mato Grosso do Sul, Alexandre Cantero, o embargo foi motivado por problemas relacionados à proteção coletiva dos trabalhadores.

A fiscalização do MTE suspendeu os serviços no local até que as irregularidades fossem sanadas. Durante uma inspeção no canteiro de obras, na Rua Amazonas, região do bairro São Francisco, Cantero destacou que a construtora emprega diversas empresas terceirizadas, o que, segundo ele, representa uma preocupação adicional para a fiscalização do trabalho. Essa característica é comum na construção civil da capital.

Irregularidades e terceirização sob escrutínio

Alexandre Cantero ressaltou que a prática da terceirização, embora comum, frequentemente está associada à precarização do cumprimento da legislação trabalhista. Essa observação reforça a atenção especial que a inspeção do trabalho dedica a obras com esse modelo de contratação. A investigação busca entender todas as nuances que podem ter contribuído para o acidente.

O superintendente informou que a apuração das circunstâncias da queda já identificou uma falha estrutural no local onde os operários estavam trabalhando. Além dessa falha, outras irregularidades também estão sendo investigadas. A investigação abrange frentes trabalhistas, criminais e de responsabilidade técnica do engenheiro responsável pela obra.

O objetivo principal, segundo Cantero, é garantir a reparação para a família da vítima e, fundamentalmente, evitar que novos acidentes ocorram. O Ministério do Trabalho e Emprego preza pela execução de trabalhos seguros, onde o labor não resulte em adoecimento ou perda de vidas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a obra fica em uma região central da cidade.

Investigação abrange múltiplos órgãos e aspectos técnicos

O procurador do Trabalho, Paulo Douglas Almeida de Moraes, também participou da vistoria e mencionou outros pontos sob análise, como o horário do serviço, a iluminação e a execução da concretagem. Ele ponderou sobre as condições de trabalho no momento do acidente, que ocorreu próximo das 19h, com pouca iluminação.

“Será que aquele concreto foi depositado na quantidade adequada? Será que havia condições de visualizar a adequada operação do serviço? Tudo isso tem que ser previamente orientado pelo empregador”, questionou o procurador. Paulo Douglas também apontou a complexidade da gestão de múltiplas empresas terceirizadas, dificultando a implementação de uma política de prevenção eficaz.

A investigação conta com a participação conjunta do MTE, do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul (MPT-MS), da Polícia Civil e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul (Crea-MS). Cada órgão atua em sua esfera para esclarecer as causas da queda, as condições de trabalho e os aspectos técnicos envolvidos na construção. O Campo Grande NEWS acompanhou os desdobramentos iniciais da investigação.

Detalhes do acidente e posicionamento da construtora

José Ricardo e outro operário realizavam trabalhos na parte externa do edifício, a uma altura aproximada de 35 metros, quando a estrutura onde estavam cedeu. José Ricardo caiu em um mezanino na parte inferior do prédio, enquanto o colega conseguiu retornar ao andar. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o Corpo de Bombeiros foram acionados, mas o óbito foi constatado no local.

Um morador de um prédio vizinho, que preferiu não se identificar, relatou ao Campo Grande NEWS ter visto os operários no alto da construção pouco antes do incidente. Em nota oficial, a Incorpore Realty, responsável pelo empreendimento, confirmou que José Ricardo era funcionário de uma empresa terceirizada e que a empresa adota rigorosos protocolos de segurança, incluindo equipamentos de proteção coletiva, treinamentos e exigência do uso de EPIs.

A construtora afirmou estar colaborando com as autoridades para esclarecer os fatos e expressou solidariedade aos familiares e amigos da vítima. A empresa reforça o compromisso com a segurança em suas obras, em conformidade com a legislação vigente. A apuração busca determinar todas as responsabilidades e evitar futuras tragédias na construção civil.