As 114 edições regionais de O Pasquim, publicadas em São Paulo e no Rio Grande do Sul entre 1986 e 1987, foram digitalizadas e disponibilizadas na Biblioteca Nacional Digital. Este acervo, que se soma às 1.072 edições cariocas já existentes, celebra a história de um jornal que, em plena ditadura militar, ousou desafiar o status quo com humor ácido, crítica contundente e uma liberdade de expressão que inspirou gerações.
Legado de O Pasquim ganha vida digital
O cenário político e social do Brasil em 1986 era marcado pela abertura democrática, o lançamento do Plano Cruzado e o fim da fabricação do icônico Fusca. Foi nesse contexto de transformações que O Pasquim expandiu suas fronteiras, levando sua linha editorial irreverente para São Paulo e o Rio Grande do Sul. Embora essas edições regionais tenham tido uma vida curta, elas representam um capítulo importante na trajetória do jornal.
A iniciativa de digitalizar e tornar público este acervo é um marco para a preservação da memória jornalística brasileira. Para muitos, O Pasquim não foi apenas um jornal, mas um símbolo de resistência e um espelho das contradições de seu tempo. A disponibilidade online permite que novas gerações conheçam e estudem a profundidade de sua influência.
A digitalização foi uma empreitada movida pela admiração. Jornalistas como Paulo Markun, em São Paulo, e Flávio Braga, no Rio Grande do Sul, foram os pioneiros na expansão do jornal, movidos pela paixão que sentiam por essa que foi uma das mais importantes marcas do jornalismo brasileiro. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa paixão se reflete no cuidado com que o material foi tratado.
Pautas locais com a irreverência de sempre
As edições regionais de O Pasquim mantiveram o tom satírico e crítico, adaptando-o às realidades locais. Em São Paulo, o jornal abordou a efervescência política pós-ditadura, com críticas contundentes a figuras como Paulo Maluf. No Rio Grande do Sul, o jornal explorou aspectos culturais e comportamentais, como a figura do “macho sulino”, gerando debates acalorados.
A liberdade de expressão era a marca registrada. Artigos, entrevistas e charges de nomes como Millôr Fernandes, Jaguar, Henfil, Ziraldo, Tarso de Castro, Sergio Cabral, Ruy Castro e Paulo Francis, permeados por linguagem coloquial, palavrões e forte crítica social, desafiavam a censura e a rigidez da época. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a ousadia era um diferencial.
A publicação também deu espaço para talentos locais. Em São Paulo, nomes como Marangoni, Laerte, Jô Soares, Augusto Nunes e Alberto Dines contribuíram significativamente. No Rio Grande do Sul, Edgard Vasquez, Santiago e Canini foram alguns dos destaques. A colaboração desses artistas e jornalistas foi fundamental para o sucesso das edições regionais, como lembra Flávio Braga.
Desafios financeiros e o fim de uma era
Apesar do impacto cultural, a sustentabilidade financeira foi um obstáculo para as edições regionais de O Pasquim, que duraram pouco mais de um ano. A queda na venda avulsa e a resistência de alguns anunciantes, ainda receosos pelo passado irreverente do jornal, dificultaram a manutenção. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a venda em bancas não compensava.
A transição para o período democrático também apresentou desafios. Com o fim da ditadura, a imprensa tradicional passou a abranger debates que antes eram restritos a veículos alternativos, diminuindo o espaço para jornais como O Pasquim. A falta de clareza sobre o novo papel de um jornal com essa linha editorial contribuiu para a dificuldade de sobrevivência.
Digitalização: um ato de amor à memória
A disponibilização do acervo na Biblioteca Nacional Digital foi um trabalho voluntário e meticuloso. Fernando Coelho dos Santos, corretor de seguros e admirador de longa data de O Pasquim, dedicou anos de sua vida para digitalizar as edições. Ele coordenou a digitalização das edições cariocas e, posteriormente, das regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul, um esforço que ele descreve como um “trabalho de formiguinha”.
Atualmente, o site O Pasquim na Biblioteca Nacional Digital conta com 100% do acervo principal e 98% das edições regionais. Fernando Coelho dos Santos considera este trabalho uma “doação” para que “essa história fique”. A Biblioteca Nacional Digital apoiou a iniciativa, criando um portal que reúne o legado completo de um dos jornais mais importantes do Brasil.
Para acessar o acervo completo e mergulhar na história de O Pasquim e suas edições regionais, visite: https://bndigital.bn.gov.br/dossies/o-pasquim/. A iniciativa, que contou com o apoio da Biblioteca Nacional, garante que a irreverência e a crítica que marcaram época estejam acessíveis a todos.


