Narcotraficante confessa sequestro da própria filha para cobrar dívida do tráfico

O narcotraficante internacional Gerson Palermo, de 68 anos, líder do PCC (Primeiro Comando da Capital), foi interrogado nesta quinta-feira (28) sobre a acusação de ter ordenado o sequestro de sua própria filha em Campo Grande. Preso na Bolívia e transferido para o Brasil na véspera, Palermo nega o crime, que teria sido motivado por uma disputa de R$ 50 mil ligados ao tráfico de drogas. Uma nova audiência está marcada para 8 de junho.

Palermo depõe de presídio federal sobre sequestro da filha

Isolado em uma cela da Penitenciária Federal de Campo Grande, Gerson Palermo foi interrogado por videoconferência pelo juízo da 3ª Vara Criminal. Conforme apurou o Campo Grande NEWS, o narcotraficante nega veementemente a acusação de ter ordenado o sequestro de sua filha. O crime, que chocou a cidade, teria sido motivado por uma dívida de R$ 50 mil proveniente de atividades ilícitas relacionadas ao tráfico de entorpecentes.

A transferência de Palermo para o Brasil ocorreu sob forte esquema de segurança, após sua prisão em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A ação conjunta entre a Polícia Federal brasileira e a força antidrogas boliviana culminou na sua extradição, trazendo-o de volta ao país para responder pelos crimes que lhe são imputados. A coincidência das audiências, agendadas previamente pela Justiça, ocorreu logo após sua chegada a Mato Grosso do Sul.

No Fórum de Campo Grande, além de Palermo, foram interrogados Reinaldo Silva de Farias, outro réu no processo e acusado de participar da execução do sequestro, e a esposa de Palermo e mãe da vítima, que foi ouvida na condição de testemunha. A mulher, que não teve o nome divulgado, já não residia com Gerson Palermo na Bolívia quando ele foi preso. Seu depoimento, que durou cerca de 30 minutos, foi o primeiro a ser colhido durante a audiência.

Vida no crime e histórico de foragido

Apontado pelas autoridades como uma figura de liderança no PCC, Gerson Palermo estava foragido desde 2020. Ele acumula um extenso histórico criminal, com condenações que somam aproximadamente 126 anos por tráfico internacional de drogas, roubos e sequestros. Seu nome ganhou notoriedade nacional em agosto de 2000, quando liderou o sequestro de um Boeing 727 da Vasp, em um audacioso plano para roubar R$ 5,5 milhões em malotes do Banco do Brasil.

Após esse episódio, Palermo passou a atuar intensamente no tráfico internacional de cocaína, utilizando rotas estratégicas entre a Bolívia e o Brasil. Em 2017, foi alvo da Operação All In, da Polícia Federal, que desarticulou uma organização criminosa dedicada ao transporte aéreo e terrestre de entorpecentes. Sua ficha criminal também inclui um episódio em 2020, quando obteve prisão domiciliar durante a pandemia da covid-19, concedida pelo desembargador Divoncir Schreiner Maran, o que posteriormente gerou uma investigação sobre o magistrado por suspeita de venda de sentenças. Após obter a liberdade, Palermo rompeu a tornozeleira eletrônica e desapareceu.

O sequestro da própria filha: uma trama cruel

O sequestro da filha, ocorrido há sete meses em Campo Grande, foi o que colocou Palermo novamente no radar das forças de segurança brasileiras. Segundo a investigação da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, o crime foi orquestrado pelo próprio pai, com o objetivo de obter R$ 50 mil de uma disputa ligada ao tráfico. Palermo teria atraído a filha para uma emboscada, prometendo dinheiro para o tratamento de saúde da avó materna.

Ao sair do trabalho na região central da cidade, a jovem entrou em um carro com dois homens, que a levaram para um cativeiro na região das Moreninhas. Durante o cárcere, ela sofreu agressões físicas e psicológicas. Os criminosos enviaram fotos da vítima amarrada e mensagens ameaçadoras para familiares, inclusive áudios com ameaças de morte. Um dos áudios dizia: “Esse é o último áudio que você vai ouvir dela”, seguido por mensagens da própria jovem dizendo “eu amo vocês”.

Investigação e prisão do narcotraficante

O marido da vítima procurou a Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros), que iniciou o monitoramento do caso. Durante as negociações, Palermo chegou a conversar com o avô materno da vítima e com o genro, afirmando que nada aconteceria com a filha se o dinheiro fosse devolvido e alegando estar sendo ameaçado. A jovem foi libertada posteriormente após conseguir ligar para o marido de uma loja de conveniência.

A vítima confirmou aos investigadores que seu pai havia ordenado o sequestro e informou que ele estava escondido na Bolívia com a mãe dela. A partir dessa informação, iniciou-se uma investigação conjunta que culminou na prisão de Palermo. O Campo Grande NEWS acompanhou de perto os desdobramentos deste caso, que evidenciam a crueldade e a audácia do narcotraficante. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a Justiça marcou nova audiência para o dia 8 de junho, quando o avô materno da vítima será ouvido.