MP de MS cobra explicações de gigantes da celulose sobre danos ambientais de eucaliptais
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) deu um passo significativo na investigação dos impactos ambientais causados pela expansão das florestas de eucalipto no leste do estado. Em um ofício enviado às sedes das empresas Suzano e Eldorado Brasil, em São Paulo, o promotor Antônio Carlos Garcia de Oliveira, de Três Lagoas, solicitou, em um prazo de 15 dias, esclarecimentos sobre os “possíveis danos ambientais associados à expansão dos eucaliptais”. A medida marca uma inflexão na relação entre o poder público e o setor, que tem sido prioridade estratégica para o desenvolvimento econômico de Mato Grosso do Sul há quase 25 anos.
Essa investigação do MPMS se baseia em laudos e pesquisas que apontam para mudanças nas microbacias e na biodiversidade da região. O inquérito civil, que pode futuramente envolver outras grandes empresas como Arauco e Bracell, foi motivado por um pedido de ex-gestor ambiental, que citou cerca de 400 nascentes supostamente secas pelos eucaliptais. No entanto, o MP buscou dados científicos mais robustos para comprovar a relação causal entre a expansão da silvicultura e os danos ambientais, ou se estes já estavam em curso devido a atividades anteriores, como a pecuária.
A expansão das áreas plantadas com eucalipto em Mato Grosso do Sul é notável. Conforme levantamentos, a área saltou de 35 mil hectares em 1985 para quase 1,7 milhão de hectares em 2025. Essa transformação territorial é acompanhada por uma redução drástica da vegetação nativa, que caiu de mais de 4,1 milhões de hectares para cerca de 1,5 milhão no mesmo período. Conforme o Campo Grande NEWS checou, esse cenário tem levantado preocupações sobre a escassez hídrica e a degradação ambiental.
Transformação do cenário sul-mato-grossense
O parecer técnico que embasa o inquérito civil do MPMS revela uma profunda alteração na ocupação do território em quatro décadas. A área plantada com eucalipto cresceu exponencialmente, passando de 35.358 hectares em 1985 para 893.320 hectares em 2024. Estimativas para 2025 indicam que o estado já possui 1.729.763 hectares de florestas plantadas, demonstrando um ritmo de expansão acelerado. Em contrapartida, a vegetação nativa sofreu uma perda superior a 2,5 milhões de hectares desde 1985.
A análise histórica do uso da terra demonstra uma mudança de paradigma. Nas duas primeiras décadas, o Cerrado foi progressivamente substituído por pastagens, que chegaram a quase 7 milhões de hectares em 2007. A partir daí, iniciou-se um movimento inverso, com o recuo das pastagens para dar lugar ao avanço dos eucaliptais. Entre 2007 e 2025, a área de eucalipto cresceu mais de 810%, um aumento expressivo que levanta questionamentos sobre seus impactos.
Escassez hídrica como consequência?
Estudos recentes, como o desenvolvido pela geógrafa francesa Marine Dubos-Raoul, professora convidada da UFMS, têm aprofundado a investigação sobre os efeitos da silvicultura nos recursos hídricos e na biodiversidade do Cerrado. A pesquisa aponta que o monocultivo em larga escala, aliado ao desmatamento do Cerrado e a um clima naturalmente mais seco, pode estar contribuindo para a escassez hídrica na região. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a geógrafa evita atribuir o secamento de nascentes exclusivamente ao eucalipto, mas demonstra uma sucessão de transformações na paisagem.
A sequência histórica de ocupação do solo, com o desmatamento do Cerrado para pastagens e posterior substituição por eucaliptais, em uma região de limite climático do bioma, teria reduzido a capacidade natural de infiltração de água e recarga de aquíferos. Isso, por sua vez, altera o funcionamento das microbacias. A série histórica de chuvas analisada não indica uma redução significativa, o que reforça a hipótese de que as mudanças no uso do solo são um fator determinante na redução da vazão de córregos, açudes e nascentes.
Posicionamento das empresas
Em nota, a Suzano informou que não havia recebido a notificação do MPMS. A empresa reiterou seu compromisso com a conservação ambiental, afirmando que realiza plantios apenas em áreas anteriormente ocupadas por atividades agropecuárias. Destacou também sua política de desmatamento zero, certificações internacionais de manejo florestal e a destinação de 327 mil hectares à conservação da biodiversidade em Mato Grosso do Sul.
A Eldorado Brasil, por sua vez, não se manifestou diretamente sobre a investigação, mas declarou que atua “em estrita conformidade com a legislação brasileira e conduz suas operações com base nos mais elevados padrões de governança, ética e transparência”. O Campo Grande NEWS acompanhou de perto as discussões que levaram à formação do polo de celulose no Vale do Rio Paraná, desde os governos que impulsionaram o setor até as atuais preocupações ambientais.
A investigação do MPMS, apoiada por estudos técnicos e levantamentos, busca agora consolidar evidências científicas para entender a complexa relação entre a expansão dos eucaliptais e os possíveis impactos ambientais no leste de Mato Grosso do Sul, um tema de crescente relevância para a sustentabilidade da região.

