Em uma demonstração de força e união, moradores do bairro Ana Maria do Couto, em Campo Grande, decidiram tirar o fim de semana para colocar a mão na massa e revitalizar a praça local. O espaço, que há tempos sofria com o acúmulo de lixo e sinais de abandono, recebeu um mutirão de limpeza com cerca de 15 voluntários. A iniciativa, que partiu da própria comunidade, já retirou mais de 88 sacos de lixo em dois dias, mas os moradores vão além e cobram melhorias do poder público.
Moradores transformam praça com força de vontade
A cena era de determinação e esperança. Enxadas, sacos de lixo e muita disposição foram as ferramentas utilizadas por aproximadamente 15 moradores do bairro Ana Maria do Couto, em Campo Grande, para resgatar a praça que faz parte do cotidiano da comunidade. O mutirão, que começou após uma mobilização interna, reuniu pessoas de todas as idades, unidas pelo desejo de ver o espaço público limpo e seguro.
Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, somente no sábado (22), foram recolhidos impressionantes 38 sacos de lixo com 200 litros cada. No domingo (23), a manhã já contabilizava outros 50 sacos cheios, obrigando os participantes a comprar mais material para continuar o trabalho. A dimensão do lixo acumulado sugere que a limpeza completa pode se estender além do fim de semana, evidenciando o descaso com a área.
Entre os resíduos encontrados, havia garrafas plásticas, embalagens diversas, bitucas de cigarro e até preservativos. Essa triste constatação reforça o relato dos moradores sobre a falta de iluminação e as condições de abandono que transformaram partes da praça em locais propícios para o consumo de drogas e encontros sexuais, gerando insegurança para os frequentadores.
Liderança comunitária impulsiona a mudança
À frente do movimento está Jannifher Almeida Baris de Oliveira, de 33 anos, que recentemente assumiu a presidência da associação de moradores. Moradora do bairro há 13 anos e mãe de dois filhos, ela sentiu a necessidade de agir diante da deterioração do espaço. Sua dedicação é visível, chegando à praça cedo, por volta das 7h ou 7h30, com os materiais necessários para iniciar a limpeza.
“Às vezes eu chego aqui 7h, 7h30 da manhã para limpar e estou sozinha. Só eu, saco de lixo e enxada. E, aos poucos, os moradores vão vendo e vão vindo”, relata Jannifher, demonstrando como a iniciativa individual pode contagiar e mobilizar a comunidade. Ela acredita que a participação ativa dos cidadãos é fundamental para a transformação dos espaços públicos, mesmo reconhecendo a responsabilidade do poder público.
“A gente sabe que muita coisa deveria ser feita pelo poder público, mas ele não consegue chegar a todos os lugares. Se um tomar a frente, os outros vão vindo”, afirma a líder comunitária, ressaltando a importância de cada um fazer a sua parte para inspirar os demais.
Comunidade investe recursos próprios em melhorias
A força da comunidade se estende para além da limpeza. Os próprios moradores se uniram para custear a compra de refletores, visando melhorar a iluminação da praça e, com isso, inibir ações de vandalismo e atividades ilícitas. Até o momento, todos os gastos com a mobilização têm sido bancados pela própria comunidade, o que reforça o comprometimento dos residentes com o bem-estar do bairro.
O descaso é ainda mais evidente ao se considerar que há um ecoponto a apenas 500 metros da praça. Mesmo durante o mutirão, um morador tentou descartar um colchão velho na área, uma atitude que vai na contramão do esforço coletivo de limpeza e recuperação. A situação foi registrada e, conforme o Campo Grande NEWS checou, os moradores já haviam solicitado uma caçamba à Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos) para auxiliar na retirada do material, mas ainda aguardavam retorno.
Esporte e segurança: demandas urgentes para a praça
Com a limpeza, vieram à tona novas demandas e a constatação de outros problemas. A quadra esportiva, por exemplo, apresentava telas rasgadas. Para resolver a situação, os jovens que utilizam o espaço tomaram a iniciativa de fazer reparos nas traves e compraram a rede para os gols. Para evitar furtos, a rede é instalada antes das partidas e removida ao final, uma solução criativa para um problema persistente.
Outra preocupação crescente é uma árvore seca localizada na área. Delmario Guimarães, de 66 anos, representante da Federação das Associações de Moradores de Mato Grosso do Sul no Conselho Regional do Imbirussu, informa que pedidos para a retirada da árvore são feitos há anos. Uma nova solicitação foi apresentada recentemente, mas, segundo os moradores, ainda não houve resposta do poder público.
Morador da região desde 2008, Delmario acompanha as reivindicações da comunidade e vê na nova liderança de Jannifher um impulso para organizar as demandas do bairro. Ele destaca que a divisão histórica entre Ana Maria do Couto 1 e 2 dificultava a representação unificada dos moradores. Jannifher, por sua vez, afirma que seu objetivo é tratar a comunidade como um único bairro, fortalecendo a voz coletiva em busca de melhorias.
“Somos moradores daqui e moradores antigos. Agora a gente está à frente em busca de melhorias”, declarou Jannifher. A iniciativa dos moradores do Ana Maria do Couto, como bem documentado pelo Campo Grande NEWS, serve de inspiração para outras comunidades que lutam por espaços públicos dignos e seguros, mostrando que a força da união pode superar o abandono e a falta de atenção do poder público.

