Morador de Campo Grande perde mais de R$ 597 mil em apostas online e vai à Justiça

Funcionário público de Campo Grande busca reaver R$ 597 mil perdidos em apostas online

Um funcionário de empresa pública em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, entrou na Justiça com um pedido para recuperar mais de R$ 597 mil (R$ 597.012,04) perdidos em uma única plataforma de apostas online, a Betano. O caso, que revela a dimensão do vício em jogos, conhecido como ludopatia, levanta questões sobre a responsabilidade das plataformas e a proteção de pessoas vulneráveis.

Segundo apuração do Correio do Estado, o homem teria retirado R$ 1,33 milhão de sua conta bancária ao longo de três anos para apostar, com um retorno significativamente menor. A ação judicial se baseia em laudos médicos que atestam o Transtorno do Jogo e a consequente redução da capacidade crítica do indivíduo para decisões financeiras.

O caso ganha destaque nacional e levanta um debate importante sobre os riscos das apostas online e a necessidade de regulamentação. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a defesa do funcionário público argumenta que a culpa não pode ser atribuída unicamente à ‘falha pessoal’, mas também à omissão da plataforma em monitorar o comportamento de risco do cliente.

Ludopatia: A Doença por Trás das Apostas Compulsivas

O Transtorno do Jogo, ou ludopatia, é uma condição psiquiátrica grave caracterizada pela perda de controle sobre o impulso de apostar, mesmo diante de prejuízos severos. No caso em questão, o funcionário público foi diagnosticado com a doença, o que, segundo seu advogado, diminuiu drasticamente sua capacidade de tomar decisões financeiras racionais.

A plataforma Betano é apontada como a responsável pelas perdas milionárias. O advogado da vítima alega que a empresa falhou ao não identificar e intervir diante da escalada doentia dos valores apostados. Ele destaca que a análise isolada de operações vencedoras pode criar uma falsa percepção de controle, enquanto o resultado consolidado revela a dimensão do comportamento compulsivo.

Os registros financeiros detalham a progressão do vício. Em 2022, o morador de Campo Grande iniciou com apostas de valores baixos, como R$ 5 e R$ 10. Contudo, as apostas escalaram rapidamente para valores superiores a R$ 1 mil, culminando em operações diárias de dezenas de milhares de reais. O pico máximo registrado foi em 6 de fevereiro de 2024, com uma única aposta de R$ 36.775,00.

Superendividamento: O Preço da Compulsão

Para sustentar o vício, o funcionário público mergulhou em um ciclo de superendividamento. Seus rendimentos líquidos mensais, de aproximadamente R$ 4.284,72, tornaram-se insuficientes. A situação financeira do homem é descrita como um colapso, com dívidas em diversos bancos e empréstimos vencidos.

A situação se agravou a ponto de ele contrair um empréstimo com garantia do próprio imóvel, no valor de quase R$ 200 mil, para continuar apostando. Essa medida extrema evidencia a gravidade da ludopatia e o desespero em manter a compulsão ativa, mesmo com as consequências devastadoras.

A defesa do funcionário público argumenta que a demanda judicial não se baseia em um simples arrependimento, mas sim em um conjunto probatório consistente, incluindo documentos médicos e registros financeiros da própria plataforma. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a ação busca a restituição de R$ 597.012,04, com juros e correção monetária.

Duas Frentes Jurídicas na Busca por Reparação

A resposta judicial ao colapso financeiro do funcionário público foi estruturada em duas frentes distintas, com base no marco regulatório das apostas. A primeira foca nas apostas realizadas após 29 de dezembro de 2023, data em que entrou em vigor a Lei Federal nº 14.790/2023, conhecida como Lei das Bets.

Nesse período, o funcionário depositou R$ 874.893,48 e sacou R$ 587.199,81, gerando uma perda líquida de R$ 287.693,67. A defesa requer a declaração de nulidade dos negócios jurídicos com base no artigo 26, inciso 6 da Lei das Bets, que proíbe a participação de pessoas diagnosticadas com ludopatia.

A segunda frente abrange o período anterior à nova lei, de 2022 até 28 de dezembro de 2023. Como a regulamentação específica ainda não estava em vigor, a defesa sustenta a tese de ‘prestação de serviço impróprio’, com base no Código de Defesa do Consumidor. Argumenta-se que a operadora forneceu um serviço inadequado ao não monitorar os padrões de risco do cliente vulnerável.

Neste período anterior, o funcionário depositou R$ 462.494,27 e sacou R$ 153.175,90, resultando em um prejuízo de R$ 309.318,37. Ao somar ambos os períodos, o pedido totaliza a restituição de R$ 597.012,04. Conforme o Campo Grande NEWS verificou, a ação busca responsabilizar a plataforma pela falha em proteger um cliente em situação de vulnerabilidade.

O Sistema de Autoexclusão e a Busca por Controle

Para combater o avanço do endividamento e do vício em jogos, o Ministério da Fazenda desenvolveu o Sistema Centralizado de Autoexclusão de Apostas. Este sistema permite que qualquer cidadão solicite o bloqueio voluntário do próprio CPF em todas as plataformas de apostas eletrônicas regulamentadas no país.

Ao confirmar o pedido, a restrição é acionada instantaneamente, impedindo o acesso a contas existentes e a abertura de novos cadastros. Essa ferramenta é crucial para auxiliar indivíduos que, como o funcionário público de Campo Grande, buscam recuperar o controle sobre suas vidas e finanças, fugindo da armadilha das apostas online.