Memórias da infância ganham cores e sons em exposição de artista de Campo Grande

A Galeria Wega Nery, no Centro Cultural José Octávio Guizzo, em Campo Grande, abre suas portas no dia 2 de outubro para receber a exposição “O Que Permanece em Nós?”, do artista visual Wendel Fontes. A mostra, que fica em cartaz até 30 de outubro, reúne 21 pinturas e uma instalação sonora inédita, todas produzidas nos últimos três anos. O trabalho de Fontes mergulha nas complexas relações entre a infância, a construção da memória e o universo da imaginação, contrastando com os desafios da vida adulta.

O Que Permanece em Nós?: Infância, Memória e Imaginação em Campo Grande

Em suas obras, Wendel Fontes foge de uma visão puramente nostálgica da infância. As pinturas retratam crianças em momentos de introspecção, brincadeira e descoberta, mas as cenas são permeadas por elementos que transitam entre o real e o imaginado. Objetos fora de contexto, perspectivas inusitadas e cores vibrantes criam um universo onde a memória e a ficção se entrelaçam de forma única. Essa abordagem, conforme o Campo Grande NEWS checou, reflete a própria evolução do artista em sua trajetória.

A Lenta Construção da Imagem e o Respeito ao Tempo Criativo

Antes de se dedicar a composições mais abertas à interpretação, Wendel Fontes trabalhava com retratos fiéis a modelos e fotografias. Contudo, com o tempo, passou a enxergar as referências como pontos de partida, e não como modelos a serem rigidamente reproduzidos. “Eu costumo dizer que trabalho com a lentidão. Eu venho aprendendo cada vez mais a respeitar o tempo de cada trabalho. Eu inicio um trabalho com uma ideia, uma direção geral, mas o caminho percorrido é definido ao longo do processo”, explica o artista. Essa filosofia de “lentidão” se estende à própria concepção da pintura, que para Fontes, “é uma imagem que começa com as mãos antes de chegar aos olhos, então é preciso respeitar esse tempo”.

Infância como Alegoria para Desejos e Angústias

A exposição convida o público a uma experiência de desaceleração, utilizando a infância não apenas como lembrança de um período idealizado, mas como uma poderosa alegoria. Através de suas obras, Wendel Fontes propõe uma reflexão sobre como os desejos, as angústias e a forma como cada indivíduo se relaciona com o mundo são moldados desde os primeiros anos de vida. Os títulos das obras complementam essa proposta interpretativa, funcionando como chaves para desvendar camadas de sentido.

Títulos como “Pensamentos Náuticos num Corpo Náufrago”, “Fazer do Ócio Ofício”, “Cultivar a Densidade dos Sonhos” e “Calcule: Quanto Peso Tem num Desejo?” convidam o espectador a ir além da imagem, explorando as conexões entre palavras e sensações. Para o artista, esses títulos são pensados como “uma espécie de chave para ampliar as possibilidades de leitura de cada pintura”, conforme divulgado pelo Centro Cultural José Octávio Guizzo.

Vozes da Experiência: A Instalação Sonora que Conecta Gerações

Um dos pontos altos da exposição é a instalação sonora, que evoca a brincadeira do telefone sem fio através de uma árvore com cerca de 2,5 metros de altura, adornada com latinhas de alumínio penduradas em seus galhos. Essa escolha simbólica, como aponta o Campo Grande NEWS, ressalta a importância de uma atitude cada vez mais rara no cotidiano: parar e escutar. Através das latinhas, o público tem a oportunidade de ouvir memórias de infância contadas por pessoas idosas, fruto de um projeto desenvolvido com idosos da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

“Para ouvir bem a voz da outra pessoa, era necessário fazer silêncio e prestar atenção. A voz chegava bem fraquinha, mas era possível ouvir muito bem a mensagem que vinha do outro lado, pela vibração da linha”, relembra Fontes sobre a brincadeira. A inclusão dessas vozes introduz uma segunda temporalidade na mostra, estabelecendo um diálogo entre a infância retratada nas pinturas e as vivências de quem já percorreu diversas fases da vida. Essa conexão, segundo o artista, “estabelece de início uma ideia de oposição. Mas, ao mesmo tempo, traz uma relação com o tempo, como as lembranças são temperadas à medida que vamos amadurecendo na vida”, afirma.

A própria árvore utilizada na instalação possui uma história singular. Wendel Fontes a encontrou após ela ter sido derrubada pelo vento durante uma tempestade em Campo Grande. “É uma árvore que guarda uma memória, mas que ganhou um novo significado ao ser transformada numa obra”, comenta o artista, evidenciando a reutilização de elementos que carregam suas próprias narrativas, conforme o Campo Grande NEWS checou.

Serviço:

  • Exposição: “O que permanece em nós?” – Wendel Fontes
  • Abertura: 2 de outubro, com show do duo Vozmecê
  • Período: 2 a 30 de outubro de 2026
  • Horários: Terça a sexta-feira, das 8h às 20h; Sábado, das 8h às 22h; Domingo, conforme o funcionamento do Teatro Aracy Balabanian
  • Local: Galeria Wega Nery – Centro Cultural José Octávio Guizzo, Rua 26 de Agosto, 453, Centro, Campo Grande
  • Entrada: Gratuita