Medicamentos contra HIV avançam, mas ISTs ganham terreno em Campo Grande

A luta contra o HIV no Brasil pode ganhar um novo aliado com a possível inclusão do cabotegravir, um medicamento injetável de longa duração, na rede pública. A notícia, divulgada pelo Ministério da Saúde, traz esperança para a redução de novos casos. No entanto, a situação das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) em Campo Grande revela um cenário complexo, com a sífilis liderando um preocupante avanço, conforme aponta uma análise do Campo Grande NEWS.

Campo Grande: avanços no HIV e desafios nas ISTs

Enquanto o Ministério da Saúde negocia a chegada do cabotegravir, que promete revolucionar a prevenção e o tratamento do HIV, a realidade em Campo Grande expõe outras urgências. A PrEP (profilaxia pré-exposição), disponível desde 2018, tem uma adesão baixa na capital, com menos de 3 mil pessoas utilizando o método de forma contínua. Paralelamente, a sífilis atingiu um pico em 2023, e outras ISTs como corrimentos e hepatites virais também mostram crescimento alarmante.

PrEP: uma ferramenta subutilizada na prevenção do HIV

Os medicamentos antirretrovirais da PrEP representam um marco na prevenção do HIV, capazes de evitar a infecção se administrados corretamente antes de uma exposição de risco. Apesar de sua eficácia, dados da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) indicam que em Campo Grande, a adesão é baixa. Muitos dos que retiram o medicamento não o utilizam de maneira contínua, um fator que compromete sua efetividade.

O HIV em estágio avançado, que leva à AIDS, figura como a segunda IST com maior número de notificações na cidade desde 2021, mantendo uma média de 400 a 500 casos anuais sem apresentar queda significativa. A sífilis, por sua vez, é a campeã em infecções, e embora tenha apresentado uma leve diminuição após o pico de 2023, a redução tem sido discreta.

Outras ISTs em ascensão e a proteção parcial dos antirretrovirais

As infecções por corrimento peniano, frequentemente causadas por clamídia ou gonorreia, e as hepatites virais têm apresentado um crescimento que merece atenção especial. É crucial ressaltar que nem o cabotegravir, nem a PrEP, nem a PEP (profilaxia pós-exposição) são eficazes na prevenção da transmissão dessas outras ISTs. A maioria das infecções notificadas em Campo Grande concentra-se em homens de 20 a 34 anos.

O médico infectologista da Sesau, Roberto Braz, explica que não é possível associar o uso de medicamentos anti-HIV a um relaxamento na prevenção de outras ISTs. Ele ressalta que os usuários da PrEP já possuem um perfil de maior exposição e que o aumento de outras ISTs nessa população tem sido pouco significativo. Uma hipótese levantada pelo especialista, e que o Campo Grande NEWS checou, é que a busca pela PrEP, que exige testes regulares, acaba por **aumentar a detecção de outras doenças**, que poderiam permanecer ocultas.

Sífilis: um problema alarmante em Mato Grosso do Sul

Leandro Antero, professor de Medicina da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), alerta para o alto índice de sífilis no estado, tanto a congênita quanto a adquirida. Sua pesquisa, divulgada este ano, aponta para 15.628 casos em 12 municípios entre 2010 e 2023, com Campo Grande concentrando 90% das notificações. O pesquisador observa uma coincidência entre o aumento de sífilis adquirida e transformações econômicas e populacionais em cidades da Rota Bioceânica e em municípios com expansão industrial.

Antero destaca a necessidade de discutir outros métodos de prevenção além do foco em PrEP, PEP e HIV. A pesquisa realizada pelo professor, e divulgada pelo Campo Grande NEWS, evidenciou a falta pontual de testes VDRL e do antibiótico benzetacil, tratamento principal da sífilis, na rede pública de Campo Grande. Roberto Braz, no entanto, assegurou que a falta foi pontual e que os estoques de insumos para prevenção, testagem e tratamento de ISTs estão normalizados.

DoxyPEP e outras estratégias de prevenção

Um antibiótico chamado DoxyPEP, com eficácia comprovada na prevenção de sífilis e clamídia após contato de risco, já está disponível para compra com receita médica em farmácias e deve ser incorporado ao SUS em breve. A rede pública já oferece métodos de prevenção como preservativos e vacinação contra hepatites virais.

Ainda assim, Antero aponta que métodos como PrEP, PEP e DoxyPEP não alcançam amplamente grupos vulneráveis. Segundo sua análise, pessoas com menor escolaridade, população preta e parda, e mulheres são os mais afetados pelo crescimento das ISTs, mas são os menos beneficiados pelas estratégias de prevenção disponíveis. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, gays, homens que fazem sexo com homens, brancos e com maior escolaridade são os que mais acessam a PrEP.

A falta de preparo de profissionais de saúde para orientar sobre prevenção também é um gargalo. As informações sobre o uso dessas estratégias ainda estão concentradas em infectologistas e entidades privadas, o que dificulta o acesso e a compreensão por parte da população mais vulnerável. Essa lacuna na informação e no acesso é um dos principais desafios para frear o avanço das ISTs em Campo Grande e em todo o país.