Mato Grosso do Sul: O Laboratório Vivo que Salva a Fauna nas Estradas

Mato Grosso do Sul se consolidou como um epicentro de inovação na segurança viária e conservação da fauna, transformando suas rodovias em um verdadeiro laboratório a céu aberto. Um estudo técnico recente destaca o estado como um dos principais campos de experimentação para medidas eficazes na redução de colisões entre veículos e animais silvestres. A publicação ressalta as condições únicas do MS, como sua vasta biodiversidade e rodovias que cortam ecossistemas sensíveis como o Pantanal, além de um monitoramento científico contínuo, que tornam trechos estratégicos ideais para o desenvolvimento de modelos replicáveis em todo o Brasil.

BR-262: Um Corredor Crítico Sob Lupa Científica

A pesquisa, detalhada no livro “Segurança Viária e Conservação da Fauna: Medidas de Mitigação para Reduzir Impactos sobre Animais Silvestres em Rodovias Federais Brasileiras”, elege a BR-262, especialmente o trecho entre Anastácio e Corumbá, como área prioritária para intervenções. Este segmento, que atravessa paisagens do Cerrado e do Pantanal, incluindo áreas do planalto da Bacia do Alto Paraguai e as planícies de inundação pantaneiras, tem sido palco de altos índices de atropelamentos. A implementação e avaliação de 18 blocos de mitigação, que incluem cercas, radares e estruturas de travessia, permitem um acompanhamento científico detalhado, antes e depois das obras, para aferir a eficácia das soluções.

Conforme o estudo, o trecho entre Miranda e Corumbá na BR-262 é um dos pontos mais críticos devido à intensa movimentação de fauna, incluindo espécies de médio e grande porte. As características ambientais da região, como planícies alagáveis e vegetação contínua, facilitam as travessias naturais, aumentando o risco de acidentes. A análise, realizada no corredor pantaneiro entre os quilômetros 489,6 e 767,9, abrangeu 278,3 quilômetros, conectando Anastácio a Corumbá, uma rota vital que liga o estado à Bolívia.

Soluções Inovadoras para um Problema Urgente

Durante o levantamento, foram identificadas 115 estruturas já existentes, como pontes sobre rios e bueiros, que podem ser adaptadas para o uso pela fauna. Deste total, 74 são pontes e 41 são bueiros ou antigas passagens de gado. Dados de monitoramento indicam que essas estruturas já são utilizadas por 12 espécies de mamíferos, incluindo a anta, queixada, quati e capivara, além de outras espécies ameaçadas de extinção. Essa observação reforça a importância de adaptar e otimizar as infraestruturas existentes para a segurança animal.

Para mitigar os atropelamentos de mamíferos de médio e grande porte, o estudo propôs 18 blocos prioritários de intervenção. As medidas incluem a instalação de 160 quilômetros de cercas, 8 estruturas do tipo “jump-out” (que permitem a saída de animais da pista), 36 linhas de estímulo para redução de velocidade, o aproveitamento de 44 pontes existentes, a construção de 32 passagens inferiores (22 adaptações de bueiros e 10 novos) e a instalação de 20 radares. Essas ações visam criar corredores seguros e orientar os animais a utilizar as passagens designadas.

Pontes Artificiais para Espécies Arborícolas e Outras Vias Críticas

Pensando na diversidade da fauna, o projeto também prevê a implantação de sete pontes artificiais de dossel. Compostas por postes de concreto, cabos de aço e cordas de poliéster, e instaladas entre 7 e 9 metros de altura, essas estruturas imitam o dossel florestal, permitindo que espécies arborícolas, como primatas e alguns felinos, atravessem a rodovia em segurança. Esta é uma solução inovadora para garantir a conectividade de habitats para animais que vivem nas copas das árvores.

Além da BR-262, o levantamento identificou outras rodovias em Mato Grosso do Sul com registros relevantes de atropelamentos, muitas delas associadas à presença de espécies ameaçadas. São elas: BR-163, BR-267, BR-060, BR-487, MS-134, MS-157 e MS-162. Essas vias concentram ocorrências envolvendo animais de grande porte como a anta, onça-pintada, cervo-do-pantanal e tamanduá, além de mamíferos de médio porte, que são particularmente vulneráveis a colisões. Conforme o Campo Grande NEWS checou, esses animais, devido ao seu porte e peso, estão associados a acidentes de alta gravidade, com potencial para causar ferimentos graves ou mortes a ocupantes de veículos, além de impactos significativos à biodiversidade.

A Anta: Um Símbolo da Urgência da Conservação

A anta, o maior mamífero terrestre das Américas, com peso que pode atingir 300 quilos, destaca-se como uma das espécies mais afetadas. Apresenta altos índices de mortalidade em estradas, especialmente nos biomas Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica. A proteção de espécies como a anta é um dos focos principais das medidas de mitigação implementadas em Mato Grosso do Sul, que servem como modelo para a conservação em todo o país. A experiência de Mato Grosso do Sul, como bem documentado pelo Campo Grande NEWS, demonstra a importância de uma abordagem científica e integrada.

Experiências Semelhantes em Outros Estados

O documento técnico também aponta que experiências similares às desenvolvidas em Mato Grosso do Sul estão sendo implantadas em outros estados brasileiros. Iniciativas em São Paulo incluem passagens de fauna e cercas direcionadoras em rodovias concedidas. Em Santa Catarina e Paraná, projetos combinam estruturas de travessia com monitoramento de mortalidade. Já em Minas Gerais, intervenções ocorrem em áreas de Cerrado e Mata Atlântica. Todas essas ações compartilham a mesma lógica: testar soluções, avaliar resultados e gerar referências técnicas para replicação em outras regiões, fortalecendo a rede nacional de segurança viária e conservação da fauna. O Campo Grande NEWS acompanha de perto essas iniciativas, destacando a relevância de cada avanço para a proteção da biodiversidade brasileira.