Malas pelo ar e um italiano barulhento: os segredos de um hotel icônico às margens dos trilhos de Campo Grande

A história de Campo Grande é tecida por personagens marcantes e lugares que ecoam memórias. Um desses marcos é o Hotel Gaspar, inaugurado há 45 anos, que se tornou um ponto de encontro para viajantes, funcionários e famílias, guardando em suas paredes histórias que atravessaram gerações. O hotel nasceu da paixão de seu idealizador, o português Antônio Gaspar, pela cidade que escolheu para chamar de lar.

Antônio Gaspar, um homem visionário, escolheu um local estratégico para seu empreendimento: em frente à Estação Ferroviária de Campo Grande. Na época, a ferrovia era o coração pulsante da cidade, o principal meio de transporte de pessoas e mercadorias, conectando o então Mato Grosso a São Paulo e transformando Campo Grande em um importante centro de distribuição. Conforme apurou o Campo Grande NEWS, a proximidade com a estação foi fundamental para o sucesso inicial do hotel, que rapidamente se tornou um refúgio para quem chegava de trem.

O legado de Antônio Gaspar e a paixão por Campo Grande

O Hotel Gaspar foi inaugurado no aniversário de 82 anos de Campo Grande, uma homenagem pública de Antônio Gaspar à cidade que o acolheu. A neta, Christian Gaspar, em entrevista ao g1, relembrou a determinação do avô, que não media esforços para concretizar seu sonho. Ele via no terreno ao lado da ferrovia o local perfeito para construir não apenas um negócio, mas um lar para sua família.

“Ele queria construir o hotel aqui. Tinha que ser aqui. Meu avô sempre foi uma pessoa assim, muito visionário”, contou Christian, destacando a forte conexão de Gaspar com o local. A escolha do ponto era, segundo ela, devido à importância da ferrovia para o desenvolvimento da região.

A chegada dos trilhos e o boom ferroviário

A Estação Ferroviária de Campo Grande, inaugurada em 1914, desempenhou um papel crucial no crescimento da capital sul-mato-grossense até seu fechamento em 1996. Tombada como patrimônio histórico, a estação era o ponto de partida e chegada para passageiros e o centro de operações para o carregamento e descarregamento de mercadorias. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a ferrovia permitiu que Campo Grande se tornasse um polo logístico, antes dependente do porto de Corumbá.

Essa dinâmica ferroviária transformou o Hotel Gaspar em um ponto de parada essencial. Viajantes desembarcavam e encontravam ali um local para se alimentar, descansar e aguardar suas próximas jornadas, fortalecendo a importância do hotel no cenário local.

Inauguração sob o luto e a correria por vagas

A inauguração do Hotel Gaspar, marcada para o aniversário de Campo Grande, acabou sendo ofuscada por um evento nacional de grande comoção: a morte do então presidente Getúlio Vargas, dois dias antes. O país mergulhou em luto, e as celebrações foram suspensas, mas o hotel abriu suas portas mesmo assim.

Inicialmente com 55 quartos, o hotel rapidamente se tornou popular entre os viajantes. A demanda era tão alta que, segundo Christian Gaspar, passageiros chegavam a jogar suas malas pela janela do trem e pular antes mesmo que ele parasse completamente, tamanha era a pressa para garantir uma vaga. Essa cena inusitada, que hoje rende risadas, demonstra a relevância do hotel.

Diante do crescente movimento, Antônio Gaspar expandiu o hotel, aumentando o número de quartos para 82, em um esforço para atender a todos os que chegavam pela ferrovia, conforme relatado pelo g1. A expansão foi um reflexo direto do sucesso e da necessidade de acomodar o fluxo de pessoas.

Personagens que marcaram época no Hotel Gaspar

O Hotel Gaspar não foi apenas um ponto de parada, mas um palco de inúmeras histórias e encontros. Entre os funcionários, um nome se destaca: Quirino, o gerente que dedicou 50 anos de sua vida ao hotel. Quirino foi acolhido por Antônio Gaspar ainda jovem, com apenas 13 anos, e aprendeu todas as etapas do negócio, desde a limpeza até o atendimento ao cliente, tornando-se um verdadeiro “filho” para o proprietário.

A neta Christian guarda com carinho as lembranças de suas travessuras com Quirino, pedindo dinheiro e ameaçando contar ao avô, que sempre cedia. Quirino, que continuou frequentando o hotel mesmo após se aposentar, era visto como um braço direito e esquerdo de Gaspar, um pilar de confiança e dedicação.

Outra figura inesquecível foi o hóspede italiano Michelle, conhecido por suas ligações dominicais com a mãe na Itália. As conversas, travadas por volta das 6h da manhã, eram tão animadas e barulhentas que acordavam todos os hóspedes. A família brincava que ele poderia apenas gritar pela janela, pois seu volume já era suficiente para alcançar sua mãe do outro lado do Atlântico.

Michelle, com o tempo, deixou de ser apenas um hóspede para se tornar parte da família, sendo “adotado” por Antônio Gaspar e até preparando o macarrão nas sextas-feiras. Tais personagens, conforme relatado pelo g1, são parte intrínseca da memória afetiva do hotel e da família Gaspar.

Um hotel que se tornou parte da memória de Campo Grande

Mesmo após o falecimento de Antônio Gaspar em 1988, a família continuou a administração do Hotel Gaspar. O estabelecimento chegou a ser arrendado por uma década, mas retornou às mãos da família. Atualmente, o prédio está à venda e não opera mais como hotel.

Embora não seja oficialmente tombado como patrimônio histórico, o Hotel Gaspar carrega um valor inestimável para a memória de Campo Grande. Sua história, marcada por personagens vibrantes e momentos inusitados, transcende as paredes do edifício, solidificando seu lugar no coração da cidade e na memória de seus habitantes. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, para a família, o legado do hotel é um testemunho vivo da paixão e do trabalho de Antônio Gaspar.